Registradas em nome de “laranjas”, empresas de franqueado de SP deixam diretoria da Oi apavorada

Tentando levar adiante um plano de recuperação judicial bilionário, que só foi possível com a concessão de polpudos descontos por parte dos credores, a operadora de telefonia Oi, a maior do País, continua investindo pesado em publicidade como forma de alavancar vendas e angariar recursos para cumprir os muitos compromissos assumidos perante a Justiça.

Enquanto despeja grande quantidade de dinheiro nos principais veículos de comunicação do País para anunciar ofertas “tentadoras” aos consumidores, a Oi corre contra o tempo nos bastidores para conter um escândalo que pode mandar pelos ares todo e qualquer esforço. Afinal, nenhuma empresa que se preze quer ver seu nome envolvido em uma estratégia comercial que perpassa por um conjunto de empresas registradas em nome de “laranjas”.

Dando sequência à série de reportagens (clique para a matéria 01 clique para a matéria 02) sobre a conivência da Oi com um franqueado da empresa que atua no interior paulista de forma nada convencional, a matéria desta terça-feira, 23 de abril, mostra que a diretoria da operadora de telefonia reage de maneira assustada quando perguntada sobre o assunto.

Tendo a cidade de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, como base dos seus negócios, o empresário Eduardo Farinha era tratado, até a última quinta-feira (18), com excesso de deferência pela diretoria da Oi em São Paulo, mas nos últimos dias tornou-se motivo de dores de cabeça para a cúpula da empresa de telefonia. Procurados pela reportagem do UCHO.INFO para comentar sobre empresas registradas em nome de terceiros que Farinha utiliza para operar suas franquias, dirigentes da Oi se recusaram a responder às perguntas deste portal de notícias.

Diretoria teme escândalo

(Divulgação)
Ex-diretor comercial da Oi no estado de São Paulo, atualmente atuando no Rio de Janeiro, Kleber Laurindo de Albuquerque Filho (foto ao lado) foi procurado pelo editor na última quinta-feira, por telefone, para comentar sobre as empresas utilizadas por Eduardo Farinha, mas se negou a falar. Alegando estar embarcando em uma aeronave para seguir viagem, Kleber Laurindo se recusou a dizer que tinha conhecimento do ilícito praticado por Farinha e desligou a chamada.

(Áudio do telefonema a Kleber Laurindo de Albuquerque)

Kleber Laurindo tem o direito de não querer falar sobre o assunto, mas negar conhecimento dos fatos é atentar contra tudo o que ele próprio endossou em termos de negócio como diretor comercial da Oi no estado de São Paulo, como demonstram as imagens abaixo.

(Divulgação)
O vice-presidente da Oi, Bernardo Winik (foto ao lado), foi procurado pelo UCHO.INFO no mesmo dia e ao ser questionado sobre o modus operandi do empresário Eduardo Farinha respondeu que naquele momento estava ocupado e não poderia conversar. Winik disse que qualquer informação acerca do assunto seria repassada pela assessoria de imprensa da companhia. Horas depois, a assessora de imprensa da Oi entrou em contato para obter informações a respeito da pauta, mas em seguida retornou para comunicar que a operadora de telefonia não se pronunciaria sobre o caso.

(Áudio do telefonema a Bernardo Winik)

A decisão da Oi de não comentar o caso é compreensível, pois não há como explicar o inexplicável, principalmente porque documentos comprovam que a operadora tinha conhecimento da forma como Eduardo Farinha atuava em suas muitas franquias espalhadas pelo estado de São Paulo.

Ex-gerente regional de vendas da Oi em São Paulo, Alexandre da Silva Barbosa conversou longamente com o UCHO.INFO e explicou como funciona o esquema capitaneado por Farinha. Segundo Barbosa, à operadora Oi não importa se o contrato social da empresa do franqueado está em nome de “laranja”, desde que a unidade produza resultados comerciais e financeiros satisfatórios. Considerando que a Oi está em recuperação judicial e tem ações comercializadas na Bolsa, além de operar como concessionária pública, aceitar uma prática ilícita pode configurar crime e comprometer os planos empresariais.

Alexandre Barbosa, enquanto esteve trabalhando na Oi, alertou a diretoria para o perigo que representava operar com Eduardo Farinha por conta das empresas registradas em nome de “laranjas”. Os contratos entre a Oi e as empresas franqueadas não eram assinados presencialmente, mas levados por Farinha, que devolvia cada um deles com as devidas assinaturas. Por ter feito esse e outros alertas, Barbosa acabou demitido da empresa. Não se sabe se por influência da algum franqueado mais ousado ou pelo temor da diretoria de que algo pouco convencional pudesse ser descoberto, como agora acontece.

Érica de Faria, que atualmente responde pela gerência regional de vendas da Oi em São Paulo, foi procurada, por telefone, pelo editor do UCHO.INFO, mas disse desconhecer o caso das empresas registradas em nome de “laranjas” utilizadas por Eduardo Farinha. Também afirmou na ocasião que não responde pela empresa. Informada de que havíamos contatado Kleber Laurindo, Érica, aparentemente nervosa, alegou estar ocupada e desligou o telefone.

(Áudio do telefonema a Érica de Faria)

Érica de Faria também pode alegar desconhecimento dos fatos, mas os documentos da Oi enviados a prepostos de Eduardo Farinha mostram que a gerente regional de vendas sempre esteve a par de tudo. O mesmo pode-se afirmar em relação a Kleber Laurindo, que em mensagens de WhatsApp referendava operações feitas por Farinha, como, por exemplo, a “transferência” de uma das empresas (Mares) para um bem-sucedido franqueado da Oi de Brasília, levado às pressas para a capital paulista com o objetivo de elevar as vendas da operadora de telefonia.

Na sequência, o UCHO.INFO contatou, por telefone, a gerente comercial da Oi em São Paulo, Grace Valeska Rocha Dacca, que negou conhecer a situação ilícita das empresas utilizadas por Eduardo Farinha, mas documentos comprovam que a executiva não falou a verdade. Igualmente nervosa, Grace afirmou estar ocupada naquele momento e desligou o telefone.

(Áudio do telefonema a Grace Valeska Rocha Dacca)

Este portal tentou falar com o diretor nacional de vendas da Oi e o diretor comercial em São Paulo, Manoel Campos e Jonas Freitas, respectivamente, mas não obteve sucesso. Os celulares de ambos estavam desligados. A reportagem deixou recado no celular de Campos, ao passo que no de Jonas uma gravação informou que o número não dispõe de caixa postal ativa.

(Áudio do telefonema a Manoel Campos)

(Divulgação)
Para não fugir às regras do bom jornalismo e garantindo à operadora de telefonia o direito de se manifestar e se defender, este veículo de comunicação entrou em contato com José Zunga Alves de Lima (foto ao lado), diretor de Articulação Institucional da Oi em Brasília. Amigo do ex-presidente Lula, o ex-sindicalista Zunga atualmente cuida dos interesses da Oi junto aos órgãos do governo federal e no Congresso Nacional.

Solícito, Zunga disse ao UCHO.INFO desconhecer o assunto relacionado a Eduardo Farinha, assim como a série de reportagens, mas, segundo apuramos, ele já havia recebido por e-mail os links das matérias anteriores. Combinamos de enviar as matérias, após a publicação desta, para que Zunga pudesse se inteirar do assunto e eventualmente levar o tema até o presidente da Oi, Eurico de Jesus Teles Neto (também responde pela diretoria jurídica da operadora), que pode não saber o que acontece na filial paulista da empresa.

(Áudio do telefonema a José Zunga Alves de Lima)

Informamos a Zunga que nossa decisão de procurá-lo deveu-se ao fato de que autoridades políticas de Brasília e policiais paulistas e federais nos solicitaram os documentos que embasaram as matérias jornalísticas para que pudessem entrar no caso, promovendo as devidas investigações. Por cautela, decidimos contatar o diretor de Articulação Institucional da Oi, antes de entregar a documentação.

A ponta do iceberg

Como mencionado, um outrora franqueado da Oi em Brasília foi chamado a São Paulo para impulsionar as vendas da companhia no principal estado da federação, dado seu bom desempenho na capital dos brasileiros. A aproximação do empresário brasiliense com a diretoria da Oi em SP se deu através de Eduardo Farinha, que de início disponibilizou uma de suas empresas para que o processo comercial fosse viabilizado, como prova o documento abaixo.

Passado algum tempo, sem qualquer explicação plausível e comunicação prévia, mas com as vendas em níveis acima do esperado, a Oi informou ao empresário de Brasília que suspendera o seu processo de credenciamento para operar em São Paulo, sendo que horas antes enviara a ele documentos que provam o contrário. Contudo, faz-se necessário destacar ser impossível interromper o processo de credenciamento de uma empresa que já era considerada e tratada como credenciada pela própria Oi.

No momento em que esse “cavalo de pau” comercial planejado pela Oi se consuma, fica claro que algo errado acontecia nos bastidores da empresa de telefonia, talvez com a interferência de Eduardo Farinha, que até então não havia transferido de fato e de direito ao empresário de Brasília a empresa Mares Telecom, registrada em nome de laranjas, como já demonstramos de forma detalhada em matéria anterior.

Negar ao empresário de Brasília os direitos adquiridos decorrentes de sua exitosa atuação comercial em São Paulo é não reconhecer os muitos documentos e as diversas trocas de mensagens por aplicativos entre os envolvidos, muitas das quais com a aquiescência de dirigentes da Oi.

É direito da Oi ficar na defensiva, até porque não se pode expor publicamente uma companhia de capital aberto, em especial à sombra de um caso que já desperta o interesse das autoridades policiais, mas é inevitável que cada protagonista dessa epopeia canhestra assuma sua responsabilidade e pague por seus atos. Do contrário, o prejuízo poderá, em breve, ser muito maior do que a empresa de telefonia imagina.

À espera de uma atitude

Depois da sequência de telefonemas mencionados, o silêncio da Oi diante do que configura um escândalo exigiria da companhia uma postura rígida, de acordo com o que esperam seus acionistas, majoritários e minoritários: o cancelamento imediato de todas as franquias controladas por Eduardo Farinha, mesmo que as empresas em nome de terceiros sejam transferidas para o seu nome. Sob pena de essa decisão representar decréscimo no faturamento da empresa em São Paulo.

Em outra ponta do imbróglio, que deve recrudescer com a entrada de autoridades policiais no caso, espera-se da Oi a punição – talvez demissão – de todos os executivos que foram coniventes com Farinha, pois é inadmissível que uma operadora de telefonia credencie como franqueada uma empresa cujo proprietário de direito sequer tem condições de manter um negócio.

(Endereço de Juliana de Souza Pereira, proprietária de direito da Mares Telecom, franqueada da Oi)

Para uma companhia que está sob o manto da recuperação judicial, tem seus papeis comercializados na Bolsa – o que enseja transparência nos negócios – e funciona debaixo de regras do setor público (Ministério das Comunicações, CVM, Anatel e outros órgãos reguladores e fiscalizadores), o mínimo que se pode esperar da Oi é uma postura rigorosa diante de fatos incontestáveis, antes que o assunto assuma proporções maiores e que fujam ao controle.