Escândalo da Oi: citado em reportagens sobre “laranjal” em franquias se manifesta; operadora continua calada

A série de reportagens sobre franquias da operadora de telefonia Oi registradas em nome de pessoas sem condições financeiras de possuí-las, ou seja, que são usadas como “laranjas”, levou a companhia a optar pelo silêncio, como ficou demonstrado em matérias anteriores. Consultados por telefone sobre o assunto, diretores da Oi – Kleber Laurindo de Albuquerque Filho, Bernardo Winik e José Zunga Alves de Lima – preferiram o silêncio, quase que obsequioso.

No contraponto, alguns dos citados nas matérias deste portal decidiram se manifestar para expor as respectivas versões dos fatos. O primeiro a se manifestar foi o empresário Eduardo Farinha, de São José dos Campos, importante cidade do Vale do Paraíba (SP). Na sequência, pelo fato de terem sido citados por Farinha, ouvimos Alexandre Barbosa, ex-gerente de franquias da Oi em São Paulo, e Paulo Henrique Borges, empresários de Brasília chamado às pressas para atuar em São Paulo como forma de alavancar as vendas da empresa de telefonia.

Eduardo Farinha enviou, por meio de sua assessoria de imprensa, nota em que nega o teor das reportagens, as quais estão embasadas em documentos oficiais da Receita Federal e da Junta Comercial do Estado de São Paulo, entre outros, além de e-mails da operadora Oi, mensagens de celular e arquivos de áudio.

Diferentemente do que afirma Farinha na nota enviada ao UCHO.INFO, as denúncias encaminhadas a este portal não são falsas. Estão respaldadas em documentos e provas, muitas delas da Oi e do próprio franqueado da operadora de telefonia, que ora alega inocência.

Não obstante, o UCHO.INFO passou a receber, após a publicação das reportagens, denúncias e depoimentos comprometedores de ex-funcionários de Farinha, o que corrobora o teor das reportagens e reforça o comprometimento do nosso jornalismo com a ética e a verdade.

Ressaltamos que o foco da série de reportagens é a forma como se dá a operação específica de franquia da Oi, companhia que encontra-se em processo de recuperação judicial e tem ações comercializadas na Bolsa de Valores. Em outras palavras, a Oi deve explicações não apenas à Justiça acerca da sua política comercial, mas também àqueles que aportam recursos financeiros na companhia ao optar por suas ações. Além disso, a Oi deve respeito aos clientes, que não podem ser induzidos a erro com estratégias comerciais nada convencionais, como revelamos em uma das reportagens.

Clique para a 1ª matéria | Clique para a 2ª matéria | Clique para a 3ª matéria | Clique para a 4ª matéria

Abaixo segue o conteúdo da nota enviada pela Alameda Comunicação, em nome do empresário Eduardo Farinha, em 9 de maio de 2019:

“Em relação às recentes matérias publicadas pelo Portal Ucho.Info acerca de suposto esquema de empresas laranjas (franqueadas da Oi) no Vale do Paraíba, cabe esclarecer:

1. O gerente do canal Franquias de SP, Alexandre Barbosa, solicitou ao franqueado Eduardo Farinha que permitisse ao empresário Paulo Henrique, da empresa Supernova de Brasília, que temporariamente colocasse as linhas vendidas pela sua operação situada no DF no SAP da empresa GDK Telecom credenciada na Regional São Paulo. Futuramente também exigiu a utilização de outra empresa, a Mares Telecom. O procedimento seria temporário até que a Supernova pudesse regularizar sua documentação e credenciamento em SP.

2. Durante seis meses desta operação, sempre com cobrança de uma solução, deparamos com sérios problemas relacionados à qualidade de vendas e, principalmente, aos aspectos legais e éticos implicados em tal ‘modus operandis’. Tal preocupação foi reportada tanto à ouvidoria, quanto à diretoria da empresa, que demonstrou não ter ciência da solicitação do gerente de Franquias e nem do modelo de negócio que estava sendo aplicado. Após apuração e criteriosa análise, a Oi decidiu não seguir com o credenciamento do empresário Paulo Henrique na regional SP.

3. Em relação às franquias operadas pelo empresário Eduardo Farinha, foi encaminhado para a Oi, conforme solicitado pela empresa, todas as procurações públicas que atestam que o empresário foi nomeado controlador das franquias por conta de sua vasta experiência no mercado de telefonia. Não configurando, desta maneira, nenhuma irregularidade.

4. Desta maneira, acreditamos que as falsas denúncias feitas ao Portal Ucho tiveram caráter de represália, com o único intuito de prejudicar o empresário Eduardo Farinha junto à Oi. Tendo seus métodos empresariais pouco ortodoxos revelados internamente, o empresário Paulo Henrique movimentou-se com o objetivo de prejudicar a reputação do empresário paulista.

5. Finalizamos reafirmando nosso compromisso em fazer valer nossa verdade, pois não podemos permitir que tal campanha difamatória venha prejudicar não só nossa vida profissional, como também nossa vida pessoal. Diante disso, nos colocamos inteiramente à disposição para quaisquer outros esclarecimentos que vierem a existir.”

A palavra de Alexandre Barbosa

O UCHO.INFO entrou em contato com Alexandre Barbosa, citado na nota enviada pela assessoria de imprensa do empresário Eduardo Farinha. Barbosa, que há muito deixou de trabalhar na Oi, afirmou que não exigiu, mas sugeriu, que o franqueado de Brasília (Supernova) passasse a operar em São Paulo, através da GDK Telecom, para alavancar as vendas da empresa de telefonia. Também afirmou a este portal que a utilização de outra empresa (Mares Telecom) para a operação temporária da Supernova não foi por sua recomendação, mas sim por sugestão do próprio Farinha.

Alexandre Barbosa ressaltou também que a entrada da Supernova (de Brasília) nas operações de São Paulo era de conhecimento da diretoria comercial da Oi, como pode ser comprovado através de muitos documentos oficiais da companhia de telefonia já disponibilizados em reportagens anteriores. Barbosa confirma ter sido sua a iniciativa de recorrer à Supernova para melhorar as vendas da Oi no mais importante estado da federação, mas nega problemas na qualidade nas vendas realizadas pela Supernova em São Paulo. Ele afirmou inclusive que documentos da Oi comprovam de maneira clara que as vendas da Supernova foram lícitas e dentro das normas e das expectativas comerciais da companhia.

A palavra de Paulo Henrique Borges

Este portal de notícias entrou em contato com o empresário Paulo Henrique Borges, proprietário da Supernova e citado na nota enviada pela assessoria de imprensa de Eduardo Farinha. Abaixo é possível conferir a resposta de Paulo Henrique, que rebate de forma pontual a nota do franqueado da Oi de São José dos Campos.

Aos esclarecimentos e ao contraditório

1. O ex-gerente Alexandre Barbosa, com quem o UCHO.INFO conversou, não negou ter solicitado à Supernova para que atuasse em São Paulo para impulsionar as vendas da Oi, assim como reconheceu ter solicitado que a operação comercial acontecesse temporariamente através da empresa da GDK Telecom, empresa registrada em nome de “terceiros” e administrada por Eduardo Farinha.

2. Diferentemente do que afirma Eduardo Farinha em nota enviada pela assessoria de imprensa, Barbosa jamais exigiu que outra empresa, a Mares Telecom, passasse a servir de base para as operações da Supernova. Na verdade, como comprovam o e-mail e o áudio abaixo, o próprio Farinha ofereceu a Mares Telecom ao proprietário da Supernova.

(Áudio de mensagem enviada por Eduardo Farinha ao empresário Paulo Henrique Borges)

3. Em relação à cobrança de solução sobre o uso da Mares Telecom, vale ressaltar que Farinha criou a empresa em 16 de junho de 2018 no nome de Juliana de Souza Pereira, como demonstramos na em matéria anterior (12 de abril de 2019), mas em 18 de setembro daquele ano o empresário de São José dos Campos comunicou à Oi fazia parte da operação da Supernova. Em seguida, Farinha informa ao dono da Supernova que a Mares Telecom deveria ser transferida para o nome de outra pessoa.

Como mencionamos em matéria anterior, o endereço que consta no contrato de constituição da Mares Telecom como sendo de Juliana de Souza Pereira permite concluir que algo errado há nas operações comerciais de Eduardo farinha, mesmo que na nota enviada pela assessoria ele afirme possuir procurações outorgadas pelos donos “de jure” das empresas.

(Endereço de Juliana de Souza Pereira, proprietária da Mares Telecom)

4. No tocante à qualidade das vendas realizadas pela Supernova, não houve por parte da Oi qualquer reclamação, pelo contrário, como atestam documentos da própria operadora de telefonia, já divulgados em matérias anteriores. Ademais, a imagem abaixo retrata troca de mensagens entre Alexandre Barbosa e Eduardo Farinha, em que o primeiro afirma ao segundo que o dono da Supernova realiza vendas sem qualquer registro de fraude. Resumindo, as vendas promovidas pela Supernova em SP eram de qualidade. (imagem de troca de mensagens entre Alexandre e Farinha)

5. Sobre “aspectos legais e éticos implicados em tal ‘modus operandis’”, como destaca a nota enviada pela assessoria, Eduardo Farinha tenta inverter o cenário apresentado na série de reportagens, ignorando a máxima do Direito que estabelece ser do acusador o ônus da prova. Em nenhum momento da relação negocial envolvendo a Oi e a Supernova, na operação em São Paulo, existiu qualquer reclamação de parte a parte, exceto quando da intempestiva e inexplicável decisão da operadora de não dar sequência ao processo de credenciamento da empresa de Brasília. E a reclamação existiu por parte da Supernova, não por parte da Oi, que sequer deu explicação.

6. No que concerne ao fato de que “tal preocupação foi reportada tanto à ouvidoria, quanto à diretoria da empresa, que demonstrou não ter ciência da solicitação do gerente de Franquias e nem do modelo de negócio que estava sendo aplicado”, há nesse ponto da nota uma ode à mitomania por parte de Eduardo Farinha, que arrasta ao olho do furacão parte da diretoria comercial da Oi, que durante todo o tempo não apenas esteve ciente da atuação da Supernova em SP, mas endossou a operação.

7. Falta com a verdade o senhor Farinha ao afirmar, na nota, que “a Oi decidiu não seguir com o credenciamento do empresário Paulo Henrique na regional SP”, após “apuração e criteriosa análise”. Houve, de fato, a interrupção do credenciamento da Supernova, empresa de propriedade de Paulo Henrique Borges, mas jamais por “apuração e criteriosa análise”, que se realmente tivesse ocorrido toda a operação de Farinha teria sido suspensa.

(Apenas o conteúdo do e-mail foi transcrito para não interferir no layout da página)

8. Ainda sobre a qualidade das vendas, mencionada por Eduardo Farinha, o empresário de São José dos Campos tem a partir de agora a oportunidade de explicar o conteúdo de vídeos recebidos pelo UCHO.INFO, que deixamos de exibi-los para não expor as vítimas da fraude. Os vídeos, enviados ao diretor Kleber Laurindo de Albuquerque Filho, diretor comercial da Oi (atualmente no RJ), foram gravados para comprovar venda feita por um dos prepostos comerciais de Farinha na região metropolitana da capital paulista (Alexandre – Jaçanã). É notório nos vídeos que o casal que aparece nas imagens não tem condições financeiras para contratar seis planos de telefonia celular ao custo total de quase R$ 600 mensais. Kleber Laurindo recebeu os vídeos e não tomou qualquer providência. Aliás, a única medida adotada por Kleber, segundo apuramos, foi demitir o gerente da Oi que detectou e denunciou a fraude. (Os vídeos estão à disposição das autoridades e da direção da Oi para análise).

9. A afirmação constante no item anterior encontra respaldo em consulta feita pelo UCHO.INFO às autoridades policiais que acompanham o caso e afirmaram que era dever da operadora Oi, desde o início, ter informado aos órgãos competentes as operações nada ortodoxas do senhor Eduardo Farinha, pois valores financeiros vultosos são pagos ao empresário por vendas realizadas por empresas registradas em nome de terceiros, alguns dos quais sem condições econômicas para possuí-las. Isso, segundo alguns dos consultados, enseja “lavagem de dinheiro”, o que, no momento atual, não é prática bem-vista pela opinião pública.

10. O encaminhamento das procurações outorgadas pelos proprietários de direito das empresas geridas por Eduardo Farinha não significa que a operação, como um todo, está eivada de legalidade. Se assim fosse, Eduardo Farinha teria todas as empresas registradas no próprio nome, não precisando recorrer a terceiros para manter em marcha um negócio milionário que já desperta o interesse de diversas autoridades do País.

11. No tocante à vasta experiência do senhor Farinha no setor de comercialização de linhas telefônicas, documentos e áudios publicados em matéria anterior provam o contrário. Ou seja, fosse verdadeira a afirmação constante na nota enviada pela assessoria de imprensa, o “braço direito” do empresário, o gerente de lojas João Batista (agora atuando no Rio de Janeiro), que recorre ao setor de retenção da Oi para manter vendas pouco convincentes.

(Áudio de mensagem em que João Batista fala sobre retenção)

Em mensagem trocada por aplicativo de celular, João Batista afirma sem qualquer cerimônia ter ido a Goiânia “mais para resolver com o povo da retenção tentar achar mais gente e achar gente de outro setor”. Uma das centrais de retenção da Oi fica na capital goiana. É importante que Farinha e João Batista expliquem com a devida urgência p que significa “tentar achar mais gente e achar gente de outro setor”.

12. Na nota, o empresário de São José dos Campos afirma que as denúncias feitas ao UCHO.INFO “são falsas” e “tiveram caráter de represália, com o único intuito de prejudicá-lo junto à Oi”. É importante salientar que este portal de notícias não faz jornalismo de encomenda, como insinua Farinha na nota publicada no começo desta matéria. Ao contrário, nosso trabalho jornalístico é e sempre foi pautado na verdade dos fatos, como comprovam as muitas e importantes reportagens que produzimos, muitas delas responsáveis por mudar os destinos do País, como, por exemplo, a que revelou o esquema de corrupção na Petrobras e deu origem à Operação Lava-Jato. Ou seja, não há de nossa parte qualquer disposição para o chamado “jornalismo de encomenda”.

Nosso objetivo é informar a opinião pública sobre o que acontece nos bastidores da política e dos negócios do País, sem permitir que terceiros se aproveitem do nosso reconhecido e respeitado trabalho para alcançar objetivos que fujam aos princípios do bom jornalismo. Tudo o que publicamos até então foi acompanhado de provas e documentos, o que não aconteceu por parte do senhor Eduardo Farinha.

Diante de qualquer denúncia, cabe-nos verificar sua procedência e, ato contínuo, buscar provas para dar sustentação a eventuais reportagens, sem as quais o trabalho não avança. Se algumas das provas citam os envolvidos no caso – na verdade é um escândalo de proporções gigantescas com chance de crescer sobremaneira –, isso reforça a seriedade do nosso trabalho, eliminando qualquer possibilidade de acusações levianas de “denuncismo”.

13. Por mais que Eduardo Farinha insista na nota que a Oi desconhecia a operação envolvendo a Supernova e o uso temporário de uma de suas empresas para viabilizar a atuação do empresário brasiliense Paulo Henrique, mensagens trocadas por aplicativos e gravações provam o contrário. Farinha, em mensagem de áudio enviada ao então gerente de franquias Alexandre Barbosa, afirma que o melhor é “vender” a empresa Mares Telecom, em vez da Moggi Telecom.

(Áudio 1 da mensagem enviada por Eduardo Farinha a Alexandre Barbosa)

(Áudio 2 da mensagem enviada por Eduardo Farinha a Alexandre Barbosa)

No áudio, Farinha cita o nome de Ronaldo (Ghelman), diretor nacional de franquias da Oi, a quem o empresário de São José dos Campos, em troca de mensagens, refere-se como “safado”. Como o nome de Ghelman foi citado de forma leviana, o UCHO.INFO decidiu ouvi-lo a respeito da maneira desrespeitosa como o franqueado se referiu a ele.

Tido por muitos profissionais do mercado de telefonia como um executivo extremamente competente e preparado – alguns chegam a afirmar que trata-se de um “gênio do setor” -, Ronaldo Ghelman, em conversa telefônica com o UCHO.INFO, disse que por desconhecer a afirmação de Farinha não se manifestaria sobre o assunto.

(Áudio do telefonema a Ronaldo Ghelman)

A forma pouco respeitosa com que Eduardo Farinha refere-se a Ghelman em conversas com executivos da Oi não se limita ao uso de palavras ofensivas, mas a comparações marcadas pelo deboche (imagem abaixo) e que têm como referência a arcada dentária do diretor nacional de franquias da operadora de telefonia. Apesar desse comportamento questionável, Farinha não se cansa de dizer que Ghelman é seu “contato de confiança” na Oi. Será mesmo?

Sobre a série de reportagens

Ao que tudo indica, a série de reportagens causou preocupação ao empresário Eduardo Farinha, que, no direito de ter sua resposta publicada, não conseguiu aguardar o tempo necessário para que os acusados por ele fossem ouvidos. Sendo assim, o empresário do Vale do Paraíba antecipou-se e distribuiu aos seus funcionários a mesma nota aqui publicada, como mostra o fac-símile abaixo.

O UCHO.INFO continuará com a série de reportagens, pois a cada nova publicação surgem novas evidências e denúncias sobre um caso que carece explicações não apenas dos envolvidos (leia-se empresário e proprietários de direito das empresas franqueadas), mas principalmente da Oi, que pode ser acusada de acobertar ilícitos graves. Autoridades ouvidas pelo editor afirmaram que cabia à operadora de telefonia informar, de chofre, aos órgãos competentes as ilegalidades relatadas e comprovadas com documentos nas reportagens.

Causa estranheza o silêncio adotado pela Oi, pois uma empresa que tem compromissos assumidos no âmbito de recuperação judicial não pode, em hipótese alguma, se recusar a dar explicações, ao mesmo tempo que não deveria omitir tais práticas dos acionistas, credores e clientes.

Clique para a 1ª matéria | Clique para a 2ª matéria | Clique para a 3ª matéria | Clique para a 4ª matéria