Após lutar contra a ditadura, Regina Duarte fará “teste” no governo de um “apaixonado” por torturadores

Ao anunciar a exoneração de Roberto Alvim, que até a manha da última sexta-feira (17) respondia pela Secretaria Especial de Cultura, o presidente Jair Bolsonaro havia concordado com o discurso nazista do então assessor, como se uma democracia pudesse endossar um regime facinoroso como o de Adolf Hitler. De igual maneira, em uma democracia não se pode aceitar que a cultura seja algo imposto pelo Estado, como sugeriu a versão tropical e apasquinada de Joseph Goebbels, chefe da propaganda nazista.

Bolsonaro, que não tem estofo para o cargo que ocupa, foi obrigado a recuar diante da repercussão negativa do vídeo de Roberto Alvim, publicado um dia antes, e da pressão exercida por setores da sociedade, começando pela comunidade judaica, que por razões óbvias não gostou da declaração do então secretário. Que ninguém pense que o presidente da República de fato compreendeu que Alvim exagerou nas palavras, pois o próprio Bolsonaro chegou a minimizar o Holocausto em uma de suas estapafúrdias declarações.

Convencido por auxiliares palacianos de que a demissão imediata de Roberto Alvim seria o melhor remédio para estancar uma crise que poderia sair do controle, Bolsonaro buscou no almoxarifado do Palácio do Planalto alguma ideia marcada pelo “bom-mocismo”, como forma de novamente ludibriar a opinião pública. Foi quando lhe sugeriram que convidasse a atriz Regina Duarte para substituir Alvim.

Exitosa, Regina Duarte disse inicialmente que conversaria com a família antes de tomar qualquer decisão, mas também cobrou uma conversa pessoal com Bolsonaro para compreender as atribuições do cargo. O encontro aconteceu nesta segunda-feira (20), no Rio de Janeiro, ocasião em que a atriz prometeu cumprir um período de experiência na Secretaria de Cultura. Ou seja, Regina Duarte aceitou o convite, “pero no mucho”. Colocou um pé na Secretaria de Cultura, mas não vê a hora de colocar o segundo.

É sabido que não será preciso muito tempo para a atriz cair em desgraça no meio artístico, mesmo tendo afirmado que seu desejo, caso fique definitivamente no cargo, é pacificar as relações entre o presidente da República e o meio cultural. Algo como convencer lúcifer a mudar o comportamento.

Durante o mais obscuro período da história brasileira, Regina Duarte lutou contra a censura aos movimentos culturais, mas agora ousa se juntar ao governo de um presidente que não abre mão de fazer elogios rasgados à ditadura militar, com direito a salamaleques a torturadores.

Caso resista ao período de experiência, Regina Duarte não deverá permanecer por muito tempo no cargo, pois a classe artística não perdoa esse tipo de comportamento. A atriz que se prepare, já que a artilharia será pesada e impiedosa, pois o patrão age da mesma maneira ou pior. E como chumbo trocado não dói, em terra de cego quem tem um olho é rei.