Ataque dos EUA contra a Síria é o primeiro movimento em “tabuleiro” complexo e de jogo bruto

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O ataque com 59 mísseis contra o governo do ditador sírio Bashar al-Assad, perpetrado pelos Estados Unidos nesta quinta-feira (6), deve ser analisado com calma e responsabilidade, pois as consequências da ação militar norte-americana são muitas e dos mais distintos naipes.

A ação foi uma resposta ao ataque aéreo com armas químicas, na última segunda-feira (3), que deixou 86 pessoas mortas e dezenas de intoxicadas, mas só aconteceu porque Bashar al-Assad sentiu-se à vontade depois de recente declaração de Donald Trump, que defendeu a permanência do ditador sírio no poder como forma de enfrentar os terroristas do grupo “Estado Islâmico”.

Consumada a carnificina na cidade de Khan Sheikhoun, Trump mudou de ideia e passou a defender uma solução política para a saída do ditador sírio. Uma reunião de emergência convocada pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) terminou com um impasse na órbita de pedido de investigação sobre o ataque, o que levou ao desfecho desta quinta-feira.

Apoiadora de Bashar al-Assad, a Rússia avisou que um ataque à Síria teria consequências, mas tudo não passou de mais um blefe de Vladimir Putin, que busca no exterior motivos para distrair a atenção de um país mergulhado em crise econômica e corrupção.

Momentos antes de autorizar o ataque, a Casa Branca teria comunicado o Kremlin sobre a ação militar que aconteceu a partir do Mar Mediterrâneo, o que denota uma relação mais próxima entre ambos os países. Ou seja, a chance de ocorrer uma reação ao ataque norte-americano por parte de Moscou é pequena.

Com o ataque, Trump recupera um pouco da sua desgastada imagem e tira o foco da opinião pública em relação aos problemas internos dos Estados Unidos, onde o bilionário tem colecionado tropeços e derrotas políticas.

Por outro lado, se de fato Washington avisou Moscou sobre o ataque com mísseis Tomahawk, quem também sai ganhando politicamente é o presidente Vladimir Putin, que vem enfrentando protestos de denúncias de todos os lados.

O apoio de Putin a Bashar al-Assad jamais foi por convicção, mas porque o presidente russo precisava marcar posição na região como forma de fazer do país uma constante ameaça ao Ocidente, onde o ex-espião da KGB perde terreno dia após dia.


No momento em que os mísseis eram lançados contra a Síria, Donald Trump recebia, na Flórida, o homólogo chinês Xi Jinping, encontro marcado por uma pauta repleta de arestas. Entre os assuntos a serem discutidos pelos dois mandatários está a questão da isolada Coreia do Norte, uma ditadura comunista comandada pelo radical Kim Jong-un, que sempre faz ameaça ao resto do planeta com testes balísticos.

Para manter a hegemonia na Ásia, o governo chinês financia parcialmente a operação militar norte-coreana, o que garante à segunda maior potência do planeta a certeza de que por enquanto os Estados Unidos não atuarão militarmente na região.

Acontece que a Coreia do Sul é um parceiro de longa data dos EUA e qualquer movimento estranho por parte de Kim Jong-un obrigará Washington a agir. O ataque à Síria foi não apenas uma resposta ao uso de armas químicas por Bashar al-Assad, mas um recado prático e efetivo à China de que os EUA estao prontos para agir, se necessário.

Voltando à Síria… O grande problema no caso da Síria é encontrar um substituto para Bashar al-Assad. Missão extremamente difícil e que precisa ser decidida com muito cuidado para que não se repita o que ocorreu no Iraque e na Líbia, onde grupos radicais, como o terrorista “Estado Islâmico”, ganharam terreno com a ausência de poder.

No contraponto há na Síria outro problema: os participantes dessa guerra covarde e sangrenta que já dura seis anos, deixou milhares de mortos, destruiu as principais cidades do país e produziu legiões de refugiados e deslocados. No palco dos combates estão forças militares sírias, forças russas, Hezbollah, Frente da Conquista do Levante (ligada a Al Qaeda), Frente Al Nusra, rebeldes e terroristas do “Estado Islâmico”. Resumindo, um tabuleiro complexo onde o jogo é bruto e está apenas começando.

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