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O adeus de Arns ao PT: “Não foi neste partido de hoje que eu me filiei”

26.08.2009 - 3:08pm | Seção: Entrevista da Semana



Senador pelo PT, Flavio Arns deixará o partido. A razão é a interferência palaciana para abafar o rebuliço que envolve José Sarney

(*) Gilmar Corrêa e Karina Trevizan

(Foto: Agência Senado)

(Foto: Agência Senado)

O apoio do PT ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB – AP), não agradou ao senador Flavio Arns (PT – PR). O parlamentar, que desaprova a ingerência palaciana nas questões legislativas, anunciou sua saída da sigla depois que foi decidido o arquivamento das denúncias contra Sarney. “É uma intervenção e, pior que isso, um posicionamento oficial do partido a favor de arquivamento de problema sem se investigar”, disse o senador justificando sua decisão de abandonar o PT.


O Sr vai sair mesmo do partido?

Sim, isso está definido, porque, na verdade, houve uma dificuldade muito grande em termos do voto dos três senadores de maneira contrária a uma investigação, uma clareza do que tivesse acontecido e a transparência, apesar de ter havido uma decisão da bancada de senadores pela investigação, pela transparência. Mas, pior que isso, houve também uma nota oficial do presidente do Partido dos Trabalhadores [Ricardo Berzoini] orientando, recomendando o arquivamento do processo sem investigação. Isso não está dentro dos critérios de qualquer pessoa de bom senso pelo Brasil.


Essa nota o Sr entende como uma intervenção do partido na bancada?

É uma intervenção e, pior que isso, um posicionamento oficial do partido a favor de arquivamento de problema sem se investigar. O que as pessoas no Brasil todo estão pedindo é algo extremamente simples. Vamos esclarecer, vamos investigar e arquivar se for o caso. É isso que toda pessoa de bom senso deveria fazer. E isso estaria nas bandeiras básicas do partido dos trabalhadores.


Quando o Sr sai do PT?

Eu estou pedindo minha desfiliação, mas quero atrelar isso a um posicionamento judicial, porque há um consenso no Brasil, nesse momento, de que não sou eu que estou sendo infiel ao partido, mas sim o partido sendo infiel à bandeira da ética, da transparência, da participação do povo, da sociedade, que foram bandeiras importantes quando eu me filiei ao partido, e que eram bandeiras do partido anos atrás, e que, infelizmente, não são mais hoje em dia. Não foi neste partido de hoje que eu me filiei. Se a justiça decidir de uma determinada maneira dizendo ‘ não, realmente a fidelidade partidária também tem que ser do partido com o parlamentar’, isso pode criar uma jurisprudência no Brasil benéfica para os partidos de termos programas mais efetivos, cumprimento pelos partidos dos programas, e fidelidade aos programas. Isso vai fazer com que os partidos tomem muito mais cuidado na elaboração de seus projetos políticos.


O Sr acha que o Palácio do Planalto exerce ingerência demais sobre o partido e o Congresso Nacional em si?

Extraordinária demais. Sem dúvida alguma. Essa nota do presidente do Partido dos Trabalhadores jamais seria elaborada na ótica de todas as pessoas sem a participação e a concordância do Palácio do Planalto. São assuntos do Legislativo, que tem que ser discutidos e debatidos dentro do Legislativo, mas claro que pode haver a pressão. É culpa também dos senadores aceitarem a pressão. Nós somos eleitos para haver a pressão e suportarmos as pressões. Isso também é culpa nossa, não só culpa do outro. Porque, nesse sentido, ficar assim subalterno à pressão é algo horrível dentro de um mandato.


O Sr acha que esse tipo de intervenção, essa confusão que foi gerada dentro da própria bancada do PT, isso tem reflexo nas eleições de 2010, seja na composição estadual ou numa composição para a presidência da República?

Eu penso que tem bastante reflexo, porque é uma confusão significativa. E isso vai afetar principalmente a visão do povo, o voto, porque as pessoas estão acompanhando esse processo todo. E vai ter um impacto na militância, na base do partido. Porque, se a gente perguntar para a militância, os militantes vai dizer: ‘ queremos que seja investigado, que seja uma coisa completamente diferente do que a cúpula fez’. Tenho certeza absoluta disso. E isso causa desesperança, falta de motivação. É muito ruim para o partido e para o processo democrático.


O Sr continua candidato ao Senado ou sua pretensão ainda é, apesar desses problemas internos e da saída do PT, ser candidato ao governo do estado do Paraná?

Não. Eu absolutamente não discuti até hoje, e nem vou discutir, a questão de candidatura para um ou para outro cargo, ou eventualmente em que partido político eu vá entrar caso esses espaços iniciais deem certo. Eu acho que o mais importante nesse momento é a concentração absoluta dos esforços dentro dessa perspectiva de debate que vem acontecendo aqui na instituição.

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