Competentes, novo ministro da Justiça e novo AGU não foram escolhidos por acaso pelo presidente

 
Como sempre afirma o UCHO.INFO, na política tudo é cuidadosamente calculado. Além disso, o presidente Jair Bolsonaro tem o péssimo hábito de usar as pessoas como forma de criar uma cortina de fumaça para sua incompetência e seu desmedido apreço pelo totalitarismo.

Ao longo de quase dezesseis meses na Presidência, Bolsonaro já deu vários exemplos de como usar pessoas escolhidas como assessores que, em dado momento, experimentaram o calor da “fritura” palaciana. No primeiro escalão do governo, esse processo de detração moral alcançou nomes destacados como Gustavo Bebbiano, já falecido e que ocupava a Secretaria-Geral da Presidência, e Carlos Alberto dos Santos Cruz, general da reserva que estava à frente da Secretaria de Governo. Ambos foram vítimas do chamado “gabinete do ódio”, que funciona no Palácio do Planalto e é comandado pelos filhos de Bolsonaro.

Mais recentemente, os ex-ministros Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública) passaram a ser “rifados” publicamente, até que deixaram o governo debaixo de atitudes descabidas do presidente da República. Mandetta foi exonerado por contrariar Bolsonaro em relação às medidas de combate à pandemia do novo coronavírus, que até a noite de terça-feira (28) já tinha feito mais de 5 mil mortos em todo o País.

Moro, por sua vez, não aceitou as tentativas de interferência política do presidente da República na Polícia Federal e demitiu-se do cargo. Em polêmica entrevista coletiva, o então ministro da Justiça anunciou sua saída do governo e, sem titubear, saiu atirando na direção do Palácio do Planalto, tendo como alvo principal o gabinete presidencial. Extremamente graves, as acusações de Moro, pelo que se sabe, estão respaldadas por provas, o que deve dificultar a defesa de Bolsonaro.

A próxima vítima, ao que tudo indica, é a atriz Regina Duarte, que há menos de dois meses foi empossada na Secretaria Especial de Cultura. Sem até o momento nada ter feito em prol da classe artística, Regina já experimenta o processo de ‘fritura” oficial. Bolsonaro tem reclamado publicamente do desempenho a secretária da Cultura e autorizou assessores próximos a criticá-la. O presidente disse a aliados que espera de Regina Duarte a decisão de sair do governo.

 
Como mencionado no início desta matéria, na política tudo é calculado. Por isso o presidente nomeou André Mendonça e José Levi para o Ministério da Justiça e a Advocacia-Geral da União (AGU), respectivamente. Mendonça, que anteriormente chefiava a AGU, não foi guindado à pasta da Justiça por obra do acaso ou pelo fato de ser “terrivelmente evangélico” (Mendonça é pastor presbiteriano). O novo ministro foi escolhido por ser próximo do ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), onde a situação de Bolsonaro se complica com o passar do tempo.

André de Almeida Mendonça estava na AGU quando Dias Toffoli assumiu a chefia do órgão. Desde então, Mendonça e Toffoli cultivam amizade. Além disso, o presidente do STF não esconde de ninguém que faz campanha para que Mendonça seja o próximo indicado para a Suprema Corte. Em novembro próximo, o ministro e decano Celso de Mello completará 75 anos e terá de se aposentar compulsoriamente. Inicialmente, Bolsonaro pretendia indicar Jorge Oliveira, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, mas acabou convencido de que a nomeação poderia ser contestada no Supremo, como aconteceu no caso do diretor-geral da PF.

José Levi Mello do Amaral Júnior, novo AGU, é professor na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP) e estava à frente da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. Sua indicação para comandar a Advocacia-Geral da União foi elogiada por ministros do STF e vários integrantes do meio jurídico, todos exaltando sua competência, mas é importante lembrar que a escolha de Bolsonaro também não aconteceu por acaso. Levi foi secretário-executivo do Ministério da Justiça quando o titular da pasta era Alexandre de Moraes. Quando Moraes foi indicado ao Supremo pelo então presidente Michel Temer, Levi ficou como interino durante aproximadamente um mês.

A proximidade de Levi com o ministro Alexandre de Moraes, agora no STF, parece não ter funcionado no caso do mandado de segurança impetrado pelo PDT para impedir a posse de Alexandre Ramagem na direção da Polícia Federal. Em decisão liminar, Moraes suspendeu a nomeação de Ramagem. Apesar de, acatando a decisão da Justiça, ter baixado decreto anulando a nomeação de Ramagem, o presidente disse nesta quarta-feira que sonha em dar posse ao delegado no comando da PF. Alexandre Ramagem foi responsável pela segurança de Bolsonaro na campanha presidencial de 2018 e é amigo do vereador Carlos Bolsonaro, alvo de investigação do STF sob a relatoria de Alexandre de Moraes.

Além disso, José Levi é próximo do ministro Gilmar Mendes, também do Supremo Tribunal Federal, que foi alvo de elogio por parte do novo AGU durante discurso de posse. O UCHO.INFO reconhece a competência de André Mendonça e de José Levi, até porque desconhece-se algo que desabone os respectivos currículos, pelo contrário, mas é importante ressaltar que Bolsonaro é especialista em usar a notoriedade daqueles que o assessoram. Resta saber quanto tempo durará a lua de mel de ambos com o chefe do Executivo federal.