(*) Marli Gonçalves
Apostas, opinião e conversas em todos os lugares, noticiários, propagandas, teorias da conspiração, procura de detalhes como em jogos de 7 erros. Chega a ser engraçada – mas também muito ilustrativa – essa nova catarse em torno da novela Vale Tudo neste remake 37 anos depois da versão original.
Como as coisas – até a moral – mudaram ao ponto de hoje existir torcida para que a terrível vilã inclusive não tenha nem sido assassinada – uma vez que hoje nem é considerada tão vilã assim, como justificam, com alguma simpatia. Ora, dizem, suas frases são antes de tudo sinceras. É bilionária, esperta, lasciva, pode ter arquitetado um plano para se ver livre de tanta gente chata e problemática que a rodeia. Gente tão boba, chata e interesseira, inclusive, entre os “supostos suspeitos” que não teriam coragem nem capacidade para executá-la.
Pode ser? Pode, primeiro porque virou mania na ficção o morto que não morreu, presente em vários dos folhetins como recurso manjado. Ninguém é cremado; todos são enterrados em misteriosos caixões fechados nas tramas, como se nem existisse a possibilidade de exumação e ninguém se desse conta do desaparecimento do coitado enterrado. Bem, na vida real mesmo, vamos ser sinceros, são mesmo um fracasso as investigações que elucidem crimes, e acabaram de sair dados – Justiça esclarece somente 36% dos homicídios ocorridos no Brasil; 6 em cada 10 ficam sem solução. Já pensaram se resolvem no final que o caso da Odete Roitman está entre eles, sem solução? Convulsão social, greve geral, povo nas ruas, que parece que a sociedade agora só se mobiliza de verdade com assuntos assim e fofocas da vida sexual dos outros.
Que a moral tenha mudado nesses anos, assisti, até houve uma certa evolução, mas o amor e admiração pela Odete e turma agora passa pelo perigoso cansaço do politicamente correto, para o bem e para o mal, nessa discussão se vale tudo para se dar bem. Protagonistas negras, sucesso quase instantâneo em empreendimentos, pobres com filosofia, luta contra o alcoolismo, etarismo, feminismo, relações fluidas, assédio e humilhações, problemas familiares convivem silentes com a corrupção, inclusive policial e política, e desatinos de todos os tipos.
Justamente como vemos acontecer todos os dias, embora nossas grávidas tenham barriga, elas não somem e voltam, e ninguém seja maluco de ir prestar depoimento sério assim na delegacia sem um advogado ao lado, coisa que movimentou até protestos da OAB. No meio de tudo isso, os odiosos merchandisings de tudo, caindo do céu nas cenas, de sabão, shampoo a automóveis caríssimos que só lá pobres compram, do governo e programas sociais e instituições como o AA, a comemorações sempre fartamente regadas a Coca-Colas, e bem antes do refrigerante ser citado bobamente e do nada pelo governador de São Paulo que se preocuparia somente se elas que fossem falsificadas, e das bebidas com metanol estarem matando e cegando de verdade. Uma agência digital que vende, além de influenciadores, produtos fofos para bebês, e onde dois ou três personagens são tão capazes que produzem sozinhos duas revistas ao mesmo tempo, e no meio de seus corres e problemas financeiros.
Não precisam dizer a mim que tudo, à exceção do merchandising, é ficção, que bem sei. Mas é o tema da semana, e vai continuar entre os mais lidos e comentados. Mesmo com acordos para acabar guerras verdadeiras e sangrentas, divulgação dos Prêmios Nobel, destituição de mais um(uma) presidente no Peru, aposentadoria do Barroso no STF que já movimenta o rebolado do poder, brigas dos poderes entre si, esse Congresso malfeitor, tarifaço, COP30 na portinha, veneno nas garrafas, romeiros morrendo na estrada, nossa Seleção por aí, e mais.
É. Tem Dia da Padroeira Nossa Senhora Aparecida, Dia das Crianças, Dia do Professor. Que semana! Mas se depois do fim da novela, ainda sentir falta de sacanagem, horrores, gente estranha, tranquilo, sintonize em A Fazenda, que lá o esculacho é real, ao vivo. Com direito até a um clone constrangedor de Silvio Santos e cuspes. Não como se todos fossem Odetes Roitman, mas como se todos fossem apenas lhamas.
(*) Marli Gonçalves – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Site Chumbo Gordo, autora de “Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também”, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.
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