(*) Ucho Haddad
Nada é mais repugnante do que a sabujice. Nesse terreno, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, puxa a fila dos maiores e mais asquerosos sabujos do planeta. Alguém há de afirmar que comandar a entidade máxima do futebol mundial exige diplomacia, mas subserviência é diferente, causa engulhos.
Quando a incoerência ganha espaço em uma instituição como a FIFA, é chegada a hora de promover radical mudança no seu comando. Infantino recebe mensalmente cerca de R$ 2 milhões, sem contar o cipoal de nababescas mordomias, para destilar subserviência aos seus convivas. Além de condenável e asqueroso, tal comportamento é degradante e desidioso.
No início de dezembro passado, Infantino, em nova demonstração de pequenez, se rendeu ao autoritarismo criminoso de Donald Trump quando concedeu ao presidente estadunidense, durante a cerimônia de sorteio da Copa de 2026, o recém-criado Prêmio da Paz da FIFA.
Trump recebeu um troféu e uma medalha das mãos de Infantino, que em ocasiões anteriores afirmara que o presidente americano merecia ganhar o Prêmio Nobel da Paz por sua contribuição ao cessar-fogo entre Israel e a Faixa de Gaza, além de elogiar de maneira efusiva suas políticas.
Se a intenção de Gianni Infantino, ao condecorar Trump, era alimentar sua essência egóica, a imagem que deixou foi a de um pusilânime incorrigível e adepto da bajulação. O comandante da instância máxima do futebol pode até se fazer de desentendido, mas laurear alguém por conta de um cessar-fogo de fachada é no mínimo um monumental deboche. Em ruínas, a Faixa de Gaza permanece ocupada pelas tropas do facinoroso Benjamin Netanyahu. Em suma, o enclave palestino ainda é palco de inequívoco genocídio.
Ao receber o prêmio durante a cerimônia, Trump disse ser “uma das maiores honras” de sua vida. “Muito obrigado. É realmente uma das maiores honras da minha vida. Muito mais que palavras podem falar. Salvamos milhões e milhões de pessoas, o Congo é um exemplo. Mais de 10 milhões de pessoas morreram, mais de 10 iriam morrer. Índia, Paquistão e tantas outras guerras que conseguimos encerrar, outras que terminamos antes mesmo de começar. Conseguimos fazer isso. É uma honra estar com Infantino, que o conheço há muito tempo”, declarou Trump.
Em novembro, por pressão da Casa Branca, a FIFA anunciou que criaria o prêmio para condecorar pessoas que, de acordo com a entidade, tenham adotado “medidas excepcionais e extraordinárias pela paz e, ao fazê-lo, unido pessoas em todo o mundo”.
A miopia intelectual – entenda como sabujice escancarada – de Gianni Infantino é um atentado ao bom-senso, à coerência. Três dias antes da bisonha premiação, Trump comparou a “lixo” os imigrantes somalis. “Não os quero no nosso país. O país deles não presta por um motivo. O país deles fede e não os queremos aqui”, declarou.
Durante seu primeiro mandato, Trump, em reunião a portas fechadas na Casa Branca, quis saber por que os EUA estavam aceitando imigrantes de “países de merda” como o Haiti e algumas nações africanas. Se tais falas e comportamentos representam “medidas excepcionais e extraordinárias pela paz” e para “unir pessoas em todo o mundo”, que Infantino alugue doses de coragem e dê explicações.
Não fosse covarde, Infantino teria cancelado a entrega do tal Prêmio da Paz da FIFA. Na verdade, caso tivesse massa cinzenta de qualidade e contasse com assessoria à altura, o presidente da FIFA sequer teria criado o prêmio, que estreou da pior maneira.
Trump ordenou a invasão da Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro sob a esfarrapada desculpa de combater o narcotráfico. O objetivo de fato é surrupiar o petróleo venezuelano. Até o momento, Infantino não se manifestou sobre o ato de pirataria de Trump e o flagrante desrespeito ao Direito Internacional. A essa altura, Gianni Infantino está agachado debaixo da mesa e dificilmente falará sobre o assunto.
O discurso boquirroto de Donald Trump de combate ao tráfico de drogas cai por terra diante do perdão oficial concedido a Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras que cumpria pena de 45 anos de prisão nos Estados Unidos por narcotráfico. Hernández foi colocado em liberdade quatro dias antes da fatídica premiação.
Além disso, há nos Estados Unidos um deliberado e criminoso tráfico de fentanil, analgésico opioide sintético extremamente potente – cem vezes mais forte que a morfina e cinquenta vezes mais potente que a heroína.
Coerente seria um boicote generalizado à Copa de 2026, mas há interesses grandiosos e bilionários nas coxias do evento futebolístico que impedem uma rebelião dessa natureza. Alguns países, que condenam o ataque à Venezuela, deveriam vetar a participação das respectivas seleções no torneio. Só assim a tabela da Copa se depararia com um confuso nó, proporcionando a debacle da competição que há muito perdeu a graça.
Donald Trump está à frente de um governo esquizofrênico, que de tudo faz para ofuscar o escândalo sexual liderado por Jeffrey Epstein, cujo calhamaço de documentos e provas está vindo à tona de maneira homeopática. E o “homem laranja” está imbricado na polêmica.
Quanto a Infantino, o presidente da FIFA deveria redobrar os esforços para compreender célebre frase do escritor e filósofo italiano Umberto Eco: “Quando o fascismo voltar, ele não dirá ‘eu sou o fascismo’. Ele dirá ‘eu sou a liberdade’.”
Resumindo, Infantino e Trump, détraqués conhecidos que diuturnamente rezam pela cartilha da subversão da lógica, se merecem.
(*) Ucho Haddad é jornalista político e investigativo, analista e comentarista político, fotógrafo por devoção.
As informações e opiniões contidas no texto são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo obrigatoriamente o pensamento e a linha editorial deste site de notícias.





