Sobre Mulheres, Coragem e Dignidade

(*) Lêda Lacerda

Houve mulheres na década de 70 que não precisavam levantar a voz para serem ouvidas. Bastava entrar. O silêncio vinha não por medo, mas por reconhecimento. Elegância, porte, altivez, não como adereços, mas como estado de espírito. Eram mulheres libertas. Não libertárias no discurso, não performáticas, não dependentes do olhar alheio. Libertas porque sabiam quem eram.

Algumas vestiam Chanel, Yves Saint Laurent, joias que atravessavam gerações. Vinham de famílias ricas, nunca precisaram saber quanto custava a liberdade porque ela já estava paga. Tinham charme, poder social, autonomia financeira herdada. É inegável: dinheiro facilita a ousadia. Quando não se teme a queda, é mais fácil caminhar à frente.

Mas não são apenas essas mulheres que merecem admiração.

Há um outro grupo, menos celebrado, menos fotografado, mas infinitamente mais corajoso. Mulheres da classe média, muitas vezes da média alta intelectual, que não tinham herança, mas tinham formação. Não tinham sobrenomes blindados, mas tinham discernimento. Estudo. Cultura. Um senso profundo de dignidade.

Essas mulheres também silenciavam ambientes. Não pela roupa que vestiam, mas pela atitude.

Não aceitaram desaparecer. Foram vistas. Foram admiradas. E, sobretudo, foram respeitadas.

A verdadeira ruptura veio quando se cansaram.

Quando pegaram seus filhos pela mão, deixaram a casa confortável, a vida previsível, o ninho aparentemente seguro, e foram à luta. Trabalharam. Recomeçaram. Recusaram a dependência travestida de proteção. Não pediram pensão como muleta existencial. Fizeram-se inteiras. Não por orgulho vazio, mas por necessidade ética: a de não se vergar.

Essas mulheres furaram a bolha. E isso é raro até hoje. Porque ainda existe medo de perder o ninho, medo da solidão, medo do julgamento, medo da própria força. Elas não. Elas escolheram a liberdade que dói, mas não humilha.

Essa é a diferença fundamental entre privilégio e coragem.

Liberdade herdada é conforto. Liberdade construída é caráter.

A mulher verdadeiramente livre não é definida pela conta bancária da família, mas pela capacidade de sair, de uma relação, de uma dependência, de um papel imposto, e sustentar a própria vida com dignidade. Ela não se curva. Não se explica demais. Não pede licença para existir.

Essas mulheres existiram. Eu conheci algumas delas.

A elas, todo o meu respeito.

(*) Lêda Lacerda – paulistana, estudou no Colégio Rio Branco e formou-se em enfermagem pela USP. Sempre se interessou por moda e nas horas vagas por escrever sobre experiências de vida. Anos mais tarde, ingressou profissionalmente no universo da moda, tendo também se dedicado à formação de modelos e atores. A paixão pela escrita permanece até hoje, hobby que usa para traduzir em letras a emoção e o amor que marcam seu cotidiano.

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