(*) Gisele Leite
A troca de mensagens entre Vorcaro e o Ministro Alexandre de Moraes extraída por meio de perícia da Polícia Federal expõe uma comunicação que novamente arremessa o STF num furacão.
Segundo o jornal “O Globo”, Vorcaro trocou mensagens com o Ministro Moraes no dia de sua primeira prisão, em 17 de novembro de 2025.
Na conversa, ele parece fazer referência à tentativa que estava em curso de vender o Banco Master para o grupo Fictor. A operação não se concretizou, já que o Banco Central decidiu liquidar o banco no mesmo dia em que Vorcaro foi preso.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça se tornou o novo pesadelo do mundo político, após acumular as relatorias de duas investigações com potencial para atingir altas autoridades da República — os inquéritos que apuram fraudes no Banco Master e no INSS.
Na decisão, o ministro também determinou a suspensão, por tempo indeterminado, do funcionamento de empresas vinculadas aos investigados. Conforme registrado, tais empresas teriam sido constituídas “não para produzir riqueza e gerar empregos, mas para agir exclusivamente na prática de ilícitos”, com a finalidade de viabilizar a lavagem de dinheiro e dificultar a identificação da origem e do destino dos recursos.
O atual relator impôs ainda série de restrições a outros investigados, como monitoramento por tornozeleira eletrônica, afastamento das funções públicas exercidas junto ao Banco Central e proibição de deixar o país. As restrições alcançam Paulo Sérgio Neves de Souza e Belinne Santana. Medidas semelhantes foram aplicadas a Ana Cláudia Queiroz Paiva e Leonardo Palhares, apontados como responsáveis por efetuar pagamentos ao grupo investigado.
Se o ministro Alexandre de Moraes se tornou temido após conduzir inquéritos controversos que atingiram principalmente o campo bolsonarista, o Ministro Mendonça tem em suas mãos investigações que podem alcançar lideranças de diferentes espectros políticos — e até mesmo alguns de seus pares no STF, como o próprio Ministro Moraes e Ministro Dias Toffoli, devido a supostas ligações desses ministros com o Banco Master e seu dono, Daniel Vorcaro.
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso preventivamente novamente na quarta-feira (4/2/2026), por ordem de Mendonça, três semanas após o ministro ser sorteado para assumir o inquérito, após Toffoli se afastar do caso.
Em Brasília, especula-se que uma prisão prolongada poderia levar o banqueiro a fechar um acordo de delação premiada.
Há expectativa de que a atuação de que o Ministro Mendonça possa melhorar o forte desgaste causado na imagem do Supremo devido às supostas conexões dos Ministros Toffoli e Moraes. Por outro lado, há temores do abalo que a Corte pode sofrer com novas revelações envolvendo ministros.
Já o Ministro Moraes virou alvo de críticas após sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moares, ter mantido um contrato de R$ 129 milhões com Master. Agora, novas informações vazadas da investigação ampliaram os indícios de conexão entre o ministro e Vorcaro.
A PF, porém, conseguiu recuperar esses prints de Vorcaro e associou os horários em que os prints foram feitos com a hora das mensagens de visualização única enviadas ao ministro.
Não é possível saber as respostas de Moraes porque também foram enviadas com visualização única, e aparecem apagadas no celular aprendido de Vorcaro. Procurado pelo O Globo, o ministro negou ter se comunicado com o banqueiro.
Além das mensagens reveladas pelo O Globo, jornalistas tiveram acesso à parte do material apreendido na investigação do Banco Master que Mendonça autorizou que fosse compartilhado com a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, que investiga no Congresso as fraudes no pagamento de aposentados e pensionistas.
Antes do material chegar à CPMI, o presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), chegou a dizer que a PF enviaria apenas o conteúdo que tivesse relação com as investigações sobre o INSS.
No entanto, a CPMI recebeu conversas mais amplas, que acabaram vazadas. Em reação aos vazamentos, a defesa de Daniel Vorcaro solicitou, na quinta-feira (5/2/2026), que o STF instaure um inquérito para apurar a divulgação de informações sigilosas.
“Diversas mensagens supostamente extraídas desses aparelhos passaram a ser divulgadas por veículos de imprensa nos últimos dias, mesmo sem que a própria defesa tenha tido acesso ao conteúdo do material. Conversas íntimas, pessoais e que expõem terceiros não envolvidos com os fatos, além de supostos diálogos com autoridades e até o ministro do STF, Alexandre de Moraes, talvez editadas e tiradas de contexto, têm sido divulgadas para os mais diversos órgãos de comunicação”, diz nota da defesa.
“A defesa ressalta que o objetivo do pedido não é investigar jornalistas ou terceiros que eventualmente tenham recebido informações, mas apurar quem, tendo o dever legal de custodiar o material sigiloso, pode ter violado esse dever”, continuou a nota”.
Vige o temor de que a crise ganhe novos desdobramentos e se intensifique pela perspectiva de a Polícia Federal entregar ao STF um relatório com detalhes dos contatos entre o ministro e a instituição financeira que teve a liquidação extrajudicial determinada pelo Banco Central.
(*) Gisele Leite – Mestre e Doutora em Direito, é professora universitária.
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