Chefe de contraterrorismo dos EUA não aceita repetir Dick Cheney e renuncia em protesto contra guerra

O diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, o republicano Joe Kent, renunciou ao cargo nesta terça-feira (17) em protesto contra a guerra no Irã.

Em carta, Kent usou linguagem crítica a Israel, afirmando que o país do Oriente Médio pressionou os EUA a entrarem na guerra.

“Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã. O Irã não representava nenhuma ameaça iminente à nossa nação, e está claro que iniciamos essa guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano”, disse Kent na carta, reproduzida na rede X.

Kent disse que foi “uma honra” servir sob o comando do presidente Donald Trump e da diretora de Inteligência Nacional, a política republicana Tulsi Gabbard.

“Rezo para que o senhor reflita sobre o que estamos fazendo no Irã e para quem estamos fazendo isso”, disse Kent em sua carta de demissão endereçada a Trump. “O senhor pode reverter o curso e traçar um novo caminho para nossa nação, ou pode permitir que deslizemos ainda mais em direção ao declínio e ao caos. As cartas estão nas suas mãos.”

Kent é um aliado próximo de Tulsi Gabbard e já atuou como seu chefe de gabinete interino. Gabbard já havia manifestado oposição às guerras de “mudança de regime” e fez desse tema um ponto central de sua plataforma durante sua campanha fracassada à presidência em 2020.

Em uma coletiva de imprensa na Casa Branca, Trump criticou a convicção de Kent de que o Irã não representa uma ameaça iminente à segurança dos Estados Unidos.

“Sempre achei que ele fosse fraco em questões de segurança, muito fraco em questões de segurança”, disse Trump.

O comportamento oscilante de Donald Trump é típico do garoto mimado dono da única bola de futebol existente no bairro. Quando contrariado, encerra o jogo sem avisar e dispara contra os parceiros do próprio time, levando a bola debaixo do braço.

Sombra de Dick Cheney

A beligerância desenfreada de Donald Trump, que no primeiro momento serve para esfumaçar o escândalo sexual de Jeffrey Epstein, tem como objetivo avançar sobre as reservas de petróleo e minerais críticos dos países invadidos.

Em suas estabanadas investidas, Trump repete o modelo de Dick Cheney, vice de George Walker Bush e conhecido como arquiteto da “guerra ao terror”. Uma das ilustres vítimas de Cheney foi Saddam Hussein, acusado de manter no Iraque um arsenal de armas químicas.

Logo após Bush filho derrotar o democrata Al Gore na controversa corrida presidencial americana de 2000, o editor do UCHO.INFO afirmou que não demoraria muito para os EUA invadirem o Iraque de Saddam Hussein.

A decisão de invadir o Iraque teve como pano de fundo os interesses comerciais da Halliburton, empresa petrolífera que teve Cheney como diretor-geral. Era preciso dar a contrapartida à empresa que financiou boa parte da campanha de Bush, o filho, à Casa Branca.

Consumada a invasão, a Halliburton passou a explorar os mais produtivos poços petrolíferos iraquianos. Nenhuma prova contra Saddam e sua turma foi encontrada para justificar a ação militar liderada pela Casa Branca. Até mesmo o persuasivo general Colin Powell não conseguiu convencer os membros da ONU sobre a existência das tais armas químicas, que, se existiram, eram insuficientes para remover a graxa do chão de qualquer oficina mecânica de quinta. Contudo, o Iraque foi destruído pela ganância do grupo que por pouco não varreu do mapa a antiga Mesopotâmia.

Décadas na Casa Branca

Cheney foi para Washington em 1969 como estagiário do Congresso e ocupou vários cargos na Casa Branca durante os governos republicanos de Richard Nixon e Gerald Ford, incluindo a chefia de gabinete, antes de se tornar ministro. No final dos anos 1990, estava atuando na Halliburton Corporation quando W. Bush o escolheu para ser seu companheiro de chapa na eleição presidencial de 2000.

Sua esposa, Lynne, tornou-se uma voz conservadora em temas culturais. Liz, a filha mais velha, foi eleita para o Congresso em 2016, após construir uma reputação de defender posições de política externa intervencionistas semelhantes às do pai.

Ela se tornou uma influente parlamentar republicana, mas perdeu sua cadeira após se opor a Donald Trump e votar por seu impeachment após o ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio. Seu pai, que concordou com ela, disse que votaria na candidata democrata Kamala Harris em 2024.

“Em toda a história de 248 anos da nossa nação, nunca houve alguém que representasse uma ameaça maior à nossa república do que Donald Trump”, disse o homem que por muito tempo fora inimigo da esquerda.

Apesar do perfil conservador, Cheney defendeu pautas progressistas, como o apoio ao relacionamento entre pessoas do mesmo sexo, o que o colocou em desacordo com a tentativa do governo Bush de aprovar uma emenda constitucional contra o casamento gay.

No cinema

A vida controversa do canastrão Dick Cheney continuou a persegui-lo mesmo após deixar o governo Bush. Cheney foi tema de um filme biográfico crítico em 2018 chamado Vice, estrelado por Christian Bale, que ganhou 18 kg e raspou a cabeça para imitar a barriguinha e a calvície do ex-vice-presidente.

A produção cinematográfica, lançada em 2018, comprovou a previsão do UCHO.INFO feita em 2000. O filme, que retrata com detalhes a personalidade condenável de Cheney, está disponível nas plataformas de streaming.