Blackface: um ato racista

(*) Gisele Leite

A expressão em inglês significa face negra e corresponde a uma prática que vai além da pintura na pele. Por muito tempo, tal prática fora usada para ridicularizar pessoas negras e servir de entretenimento.

Não se trata apenas de uma prática ofensiva, mas, principalmente racista. Estima-se que a prática se iniciou por volta de 1830, nos EUA, em meio a transição entre a escravidão e a abolição da escravatura.

Criou-se, nessa ocasião, um mecanismo de negativar a subjetividade de pessoas negras, utilizando-se de estereótipo para apontar a incapacidade de conviver com a população negra e apontando-a como incapaz de conviver com os direitos democráticos de liberdade. A mensagem é que os negros tinham a liberdade, porém, não tinham a cidadania.

Já no século XIX, atores brancos utilizavam-se da tinta negra para pintar seus rostos em espetáculos humorísticos, se comportando de forma exagerada para indicar comportamentos de brancos que se associavam aos negros.

Tais personagens falavam errado, eram mal caráter, preguiçosos, atrapalhados, e sexualizados, além de condutas violentas e animalescas. O uso de blackface surgiu quando os negros nem eram autorizados a atuar nos palcos, por causa da cor da pele. Era popular, chegando até se tornar um gênero de teatro peculiar.

Aqui no Brasil, tal prática se popularizou particularmente no carnaval, quando havia até a fantasia de Nega Maluca ou de Índio usando o argumento que era uma homenagem, mas era uma prática desrespeitosa com tais culturas.

No Brasil reparou-se que a representação do negro ao longo do século XIX, era negativa, sendo associado ao vagabundo, vadio, preguiçoso, incapaz de higiene e de ter raciocínio lógico.

Já a mulher negra é tida de ser lasciva, excessivamente sexualizada, e incapaz de ser de confiança. Tais estereótipos recomendavam um imaginário propenso ao extermínio da população negra.

Em 18 de março de 2026, a deputada Fabiana Bolsonaro se maquiou durante discurso na Alesp, em encenação de blackface, e afirmou que o ato era uma forma de argumentar que pessoas trans não são mulheres.

A deputada Ediane Maria, líder do PSOL na Alesp, fará uma representação em nome da bancada na Comissão de Ética por quebra de decoro e pedido de investigação no Ministério Público por racismo e transfobia.

Ao justificar o ato, ela afirmou que a encenação era uma forma de argumentar que pessoas trans não são mulheres, mesmo que se maquiem, o que gerou reação imediata entre colegas parlamentares e críticas nas redes sociais.

Durante a fala, a deputada iniciou dizendo que é uma mulher branca e passou a indagar que, se decidir se maquiar se passando por uma pessoa negra, ela se tornaria alguém que entende as causas dos negros. Foi neste momento que a parlamentar passou a pintar sua pele durante o discurso.

A deputada Ediane Maria, líder do PSOL na Alesp, fez uma representação em nome da bancada na Comissão de Ética por quebra de decoro e pedido de investigação no Ministério Público por racismo e transfobia.

A líder da Minoria na Alesp, a deputada estadual Beth Sahão (PT) também entrou com representação no Conselho de Ética contra a deputada Fabiana Bolsonaro (PL) pelos crimes de racismo e transfobia durante fala na tribuna da Casa.

Para a deputada Beth Sahão, não resta dúvida sobre a gravidade do comportamento da parlamentar. “Ela destilou todo seu racismo e sua transfobia durante sua fala, e ambas as atitudes configuram crimes. Seja a transfobia, que já foi tipificada como crime pelo STF desde 2019, seja o racismo, que toda a sociedade sabe que é crime”, afirmou.

A deputada Beth disse que outras colegas parlamentares que ficaram igualmente indignadas com a atitude de Fabiana Bolsonaro também assinam a representação.

No discurso, Fabiana compara o fato de não entender as causas das mulheres negras porque se maquiou e compara a maquiagem ao fato das mulheres transexuais não entenderem determinadas pautas, como parto, amamentação e endometriose.

Ela fala sobre o fato de a deputada federal Erika Hilton ter sido escolhida presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, em Brasília.

A deputada Fabiana completa dizendo que Érika Hilton tira o espaço de mulheres. Durante transmissão da sessão, internautas comentaram: “Racismo é crime”, “Blackface é crime”, “Racismo não é liberdade de expressão”. Mas, a deputada tem foro privilegiado, infelizmente.

Em nota, a Alesp afirmou que o Conselho de Ética da Assembleia Legislativa é o órgão com autoridade e legitimidade para analisar casos que eventualmente excedam a imunidade parlamentar.

(*) Gisele Leite – Mestre e Doutora em Direito, é professora universitária.

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