
A guerra no Irã é um “erro desastroso” que “viola o direito internacional”, afirmou o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, nesta terça-feira (24), dirigindo uma crítica direta à política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em suas falas dirigidas a uma plateia de diplomatas em Berlim, Frank-Walter Steinmeier, cujo papel essencialmente cerimonial lhe permite falar com mais liberdade do que outros políticos, adotou uma linha muito mais crítica do que o chanceler federal Friedrich Merz, que tem evitado responder a perguntas sobre a legalidade da guerra.
“Nossa política externa não se torna mais convincente só porque não chamamos uma violação do direito internacional de violação do direito internacional”, disse Steinmeier, que no antigo governo de Angela Merkel ocupou duas vezes o cargo de ministro das Relações Exteriores da Alemanha.
“Devemos abordar isso no que diz respeito à guerra no Irã. Pois, na minha opinião, essa guerra é contrária ao direito internacional”, disse ele, acrescentando que não tem dúvidas de que a justificativa dos EUA de que o Irã estava na iminência de lançar um ataque não é corroborada por fatos.
“Não há dúvidas de que, em qualquer caso, a justificativa de um ataque iminente aos EUA não se sustenta”, disse.
Distanciamento dos EUA
Chamando a guerra de “desnecessária” e de um “erro politicamente desastroso”, Steinmeier disse que o segundo mandato de Trump tem marcado uma ruptura nas relações externas da Alemanha tão profunda quanto a invasão da Ucrânia pela Rússia.
“Assim como acredito que não haverá volta atrás nas relações com a Rússia em relação ao período anterior a 24 de fevereiro de 2022, também acredito que não haverá volta atrás nas relações transatlânticas em relação ao período anterior a 20 de janeiro de 2025”, afirmou Steinmeier, em alusão à data do início do segundo mandato de Donald Trump.
De acordo com Steinmeier, a Alemanha tem que aplicar as lições que aprendeu ao se livrar de “dependências excessivas” da Rússia e aplicá-las também aos EUA, particularmente nas áreas de defesa e tecnologia.
“A ruptura é profunda demais e a confiança na política do poder americana foi perdida, não apenas entre nossos aliados, mas… em todo o mundo”, disse Steinmeier, em um evento para marcar o 75º aniversário do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha. “Realismo significa que devemos ser pragmáticos em nossas relações com esta administração americana e focar em nossos interesses fundamentais”, continuou.
“Mas realismo também significa que não devemos comprometer nossos próprios princípios. O governo americano tem uma visão de mundo diferente da nossa, uma que não demonstra consideração por regras estabelecidas, parcerias ou confiança arduamente conquistada. Não podemos mudar isso. Devemos lidar com isso. Mas esta é a minha convicção: não temos motivos para nos alinharmos a essa visão de mundo”, finalizou o presidente alemão.
Papel do presidente
Na Alemanha, o presidente possui atribuições executivas, mas seus poderes são mais simbólicos, embora seja chefe de Estado. A Lei Fundamental (Constituição alemã) lhe garante a competência de assinar acordos e tratados internacionais e nomear ministros, mas o comando da política cabe ao governo, chefiado pelo chanceler federal. Cargo atualmente ocupado por Friedrich Merz.
Nas últimas semanas, Merz adotou uma postura mais ambivalente em relação ao conflito no Irã. Por um lado, o chanceler federal criticou duramente a liderança do Irã e disse apoiar vários objetivos-chave da guerra lançada pelos EUA e Israel, mas também afirmou que, se Berlim tivesse sido consultada previamente, “teria se posicionado contra” o conflito.
Merz afirmou repetidamente que a Alemanha compartilha “o objetivo de que o Irã não represente mais uma ameaça no futuro”, mas também deixou claro que a Alemanha não entraria no conflito. (Com Deutsche Welle e agências internacionais)






