
A crise de confiança que chacoalha o Supremo Tribunal Federal exige que ministros envolvidos em relações pouco republicanas requeiram aposentadoria antecipada, antes que o escândalo do Banco Master resvale em outros magistrados e mande a Corte pelos ares.
Quando alguns ministros do STF se rebelaram diante da proposta de criação de um código de conduta, apresentada pelo presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, ficou claro que algo putrefato existia nos bastidores da máxima instância do Judiciário brasileiro.
Com a revelação dos recentes e trepidantes capítulos do escândalo, ao menos três ministros precisam deixar o STF com a máxima urgência: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques.
Não se trata de condená-los de forma antecipada, mas, no caso em questão, é preciso que prevaleça a célebre frase sobre Pompeia Sula: “À mulher de César (imperador Júlio César) não basta ser honesta, deve parecer honesta”.
Júlio César se divorciou de sua esposa após um escândalo em 62 a.C. Apesar da suposta inocência de Pompeia Sula, o imperador romano alegou que sua esposa deveria estar “acima de qualquer suspeita”, tornando a máxima um símbolo de reputação, ética e a importância da percepção pública.
Cornucópia duvidosa
O Banco Master pagou R$ 80 milhões ao escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, entre 2024 e 2025. É o que indicam dados da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado e citados pela imprensa brasileira.
O valor total teria sido pago em 24 prestações mensais de R$ 3,6 milhões entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, apontou o portal de notícias G1. Por sua vez, o jornal Folha de São Paulo cita um pagamento total de R$ 40,11 milhões em 2024.
Os pagamentos referem-se à contratação de serviços do Barci de Moraes Sociedade de Advogados pelo Master, revelada em dezembro pelo jornal O Globo.
Em março, a empresa confirmou ter prestado serviços de consultoria e atuação jurídica, relatando ter contratado outros três escritórios especializados, que estiveram sob sua contratação.
Não houve atendimento para causas no âmbito do STF, ressaltou o escritório, citando um total de 94 reuniões entre o Master e a equipe jurídica. O contrato teria sido encerrado após novembro de 2025.
Inicialmente, estavam previstos 36 pagamentos mensais, ao invés de 24, mas os repasses foram interrompidos por ocasião da liquidação extrajudicial do Master.

Quando teve sua operação encerrada pelo Banco Central (BC), o Master, com R$ 80 bilhões em ativos, tinha apenas R$ 4 milhões em caixa. O valor é drasticamente inferior ao necessário para a liquidez de um conglomerado de médio porte.
A baixa liquidez, ou seja, a incapacidade de pagar seus credores, foi a justificativa dada pelo BC para determinar a liquidação do banco controlado por Daniel Vorcaro, preso em março.
A CPI do Crime Organizado deverá ser encerrada na próxima semana, por decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sob oposição do relator, senador Alessandro Vieira.
Quem quer dinheiro?
Documentos enviados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado apontam repasses milionários do Banco Master, de Daniel Vorcaro, a escritórios de advocacia e empresas ligadas a Michel Temer (MDB), Antônio Rueda (União Brasil), Ratinho Junior (PSD), ACM Neto (União Brasil) e os ex-ministros Guido Mantega, Fabio Wajngarten, Henrique Meirelles e Ricardo Lewandowski.
Os dados obtidos pela Folha indicam que, de 2024 a 2025, o Master pagou R$ 18,5 milhões a Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central (nos dois primeiros governos Lula) e ex-ministro da Fazenda (governo Temer), A Pollaris Consultoria, empresa do ex-ministro Guido Mantega, recebeu R$ 14 milhões.
O banco também informou pagamento de R$ 10 milhões ao escritório de advocacia de Michel Temer em 2025. Outros R$ 6,4 milhões foram destinados a dois escritórios de Rueda, presidente nacional do União Brasil.
Duas empresas da família Massa, do apresentador Ratinho e do governador do Paraná, Ratinho Junior, também aparecem nos dados do Master produzidos pela Receita.
A Gralha Azul Empreendimentos e Participações, ligada ao governador, recebeu R$ 3 milhões em 2022, de acordo com registros do Master. Já a Massa Intermediação, de Ratinho, recebeu R$ 21 milhões de 2022 até 2025. O apresentador era um dos garotos-propaganda do cartão de consignado do banco, o CredCesta.






