(*) Lêda Lacerda
Chamam de modernidade aquilo que, muitas vezes, é apenas a substituição da presença humana pela frieza dos sistemas.
Tudo agora exige um aplicativo. Uma senha. Um código enviado por SMS. Um reconhecimento facial que não reconhece mais o rosto cansado de quem envelheceu trabalhando.
E há algo profundamente perverso nisso.
A geração que construiu ruas, levantou casas, sustentou famílias e atravessou décadas de dificuldades agora é tratada como um obstáculo operacional porque não domina interfaces digitais. Transformaram direitos básicos em labirintos tecnológicos.
Para marcar uma consulta, acessar a aposentadoria, falar com um banco ou resolver um problema simples, um idoso precisa quase sempre da mediação de alguém mais jovem. Um filho. Um neto. Um vizinho paciente. Quando existe alguém.
E então vendem isso como eficiência.
Mas eficiência para quem?
Porque uma sociedade que elimina o contato humano em nome da praticidade talvez esteja apenas confessando que perdeu a capacidade de conviver com a fragilidade humana.
A tecnologia deveria ampliar a dignidade das pessoas. Não servir como filtro entre os que conseguem acompanhar e os que passam a viver constrangidos dentro da própria existência.
Existe uma violência silenciosa em fazer um homem de noventa anos sentir vergonha por não entender um aplicativo. Existe uma humilhação invisível em transformar autonomia em habilidade digital.
O problema não é a tecnologia. O problema é quando ela deixa de ser ponte e passa a ser barreira.
Nenhuma sociedade pode se considerar evoluída enquanto seus idosos precisarem pedir licença para acessar os próprios direitos.
Porque o verdadeiro progresso não é criar máquinas mais inteligentes. É continuar sendo humano mesmo depois delas.
(*) Lêda Lacerda – paulistana, estudou no Colégio Rio Branco e formou-se em enfermagem pela USP. Sempre se interessou por moda e nas horas vagas por escrever sobre experiências de vida. Anos mais tarde, ingressou profissionalmente no universo da moda, tendo também se dedicado à formação de modelos e atores. A paixão pela escrita permanece até hoje, hobby que usa para traduzir em letras a emoção e o amor que marcam seu cotidiano.
As informações e opiniões contidas no texto são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo obrigatoriamente o pensamento e a linha editorial deste site de notícias.



