
(*) Ricardo Viveiros
O Brasil vive uma contradição que desafia a lógica. Enquanto os cassinos permanecem proibidos há décadas sob o argumento de proteger a sociedade dos males do jogo, milhões de brasileiros têm acesso, na palma da mão, a uma verdadeira roleta digital que funciona vinte e quatro horas por dia. As apostas esportivas online, as chamadas bets, transformaram-se em um dos maiores problemas sociais, econômicos e de saúde pública do país.
A cultura da aposta não é novidade. O próprio Estado explora loterias oficiais há décadas, enquanto o “Jogo do Bicho”, embora ilegal, tornou-se amplamente tolerado. A diferença é que as plataformas digitais elevaram o problema a uma escala sem precedentes. Hoje, qualquer celular conectado à internet pode se transformar em um cassino virtual permanente, alcançando adultos, jovens e até crianças.
Apesar das restrições legais, menores de idade conseguem acessar plataformas de apostas com relativa facilidade. Influenciadores digitais, celebridades e campanhas publicitárias milionárias ajudam a vender a falsa ideia de enriquecimento rápido, estimulando comportamentos de risco, com ênfase, entre os mais vulneráveis. O resultado é uma geração exposta cada vez mais cedo ao vício em jogos.
As consequências já são visíveis. Milhares de famílias convivem com o endividamento provocado pela compulsão por apostas. Recursos que deveriam ser destinados à alimentação, educação, moradia e consumo acabam transferidos para plataformas cujo principal objetivo é maximizar lucros. Dados de entidades ligadas ao comércio apontam que bilhões de reais deixam de circular no varejo, enfraquecendo negócios locais, reduzindo empregos e afetando a atividade econômica.
O prejuízo não se limita ao bolso. A dependência em jogos é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno grave. Ansiedade, depressão, conflitos familiares e até casos de suicídio aparecem associados ao vício em apostas. O impacto chega às empresas, que enfrentam trabalhadores adoecidos, afastamentos frequentes e queda de produtividade. Agricultura, indústria, comércio e serviços já convivem com o aumento dos problemas relacionados à saúde mental de seus empregados.
Essa conta acaba chegando também ao contribuinte. O Sistema Único de Saúde (SUS) precisa absorver os custos dos tratamentos psicológicos e psiquiátricos decorrentes da ludopatia, enquanto programas sociais e redes de assistência familiar são pressionados por uma realidade cada vez mais preocupante. Órgãos oficiais já detectaram beneficiários de programas sociais, como o Bolsa Família, fazendo pix para as bets.
Nos últimos anos, o governo federal e os órgãos de fiscalização intensificaram ações contra plataformas irregulares, bloqueando milhares de domínios sem autorização e tentando restringir mecanismos financeiros utilizados por empresas clandestinas. São medidas importantes, mas insuficientes diante da dimensão do problema que movimenta bilhões de reais.
Outro obstáculo é a forte influência econômica e política do setor. O lobby das apostas atua firme para moldar legislações, reduzir encargos e retardar medidas mais rígidas de proteção ao consumidor. Enquanto isso, propostas voltadas à prevenção do vício, à saúde mental e à restrição da publicidade avançam de modo lento.
O fracasso da CPI das Bets, no Senado Federal, encerrada sem aprovação de relatório conclusivo, tornou evidente a dificuldade de enfrentar interesses poderosos. A rejeição das conclusões da comissão reforçou o fato de que o debate público ainda está distante da urgência exigida pelo tema. Em ano de eleições, maus políticos dependem de “doações” das plataformas de apostas para as campanhas.
O país precisa decidir se continuará tratando as apostas como simples entretenimento ou se reconhecerá que está diante de uma questão de saúde pública e de proteção social. A liberdade econômica não pode servir de justificativa para um modelo que transfere renda das famílias para conglomerados empresariais, alimenta o endividamento e amplia o sofrimento psicológico de milhões de brasileiros.
Se nada for feito com firmeza, o Brasil corre o risco de assistir à consolidação de uma indústria que lucra, de maneira covarde, com a fragilidade humana. E, nesse jogo, a sociedade inteira acaba perdendo.
(*) Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Justiça seja feita, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite. Apresenta aos domingos, às 10h30, pela TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.
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