
Caso alguém queira traduzir a política brasileira em uma frase, a melhor definição é “se cobrir vira circo, se cercar vira hospício”. Os absurdos no picadeiro da política são tantos, que é quase impossível o cidadão não perder o interesse por temas relacionados à atividade.
O deputado estadual Leonardo Siqueira (Novo-SP) protocolou representação na Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo em que requer a abertura de apuração preliminar e diligências investigatórias sobre a declaração de bens apresentada pela deputada federal Erika Hilton (Psol-SP).
No documento, Siqueira questiona a compatibilidade entre o montante declarado à Justiça Eleitoral e o padrão de consumo ostentado publicamente pela deputada do Psol.
Ao registrar candidatura à reeleição, Erika Hilton declarou R$ 15.975,73 em bens. O valor representa é 20% menor, se comparado aos R$ 19.989,96 declarados nas eleições de 2022. As informações agitaram as redes sociais e movimentaram internautas e opositores de Erika Hilton.
O rebuliço cibernético foi causado pela alegada discrepância entre o valor informado à Justiça Eleitoral (depósitos em conta corrente e aplicações bancárias) e os acessórios de grifes internacionais utilizados publicamente por Erika Hilton.
“Me parece bastante incoerente. Um dia a gente vê em matérias que Erika Hilton é flagrada ostentando uma Bolsa de R$ 24 mil reais e uma pulseira de R$ 182 mil, e no outro declara R$ 15 mil reais em patrimônio. Se aqueles bens são dela, então é ocultação de patrimônio perante a Justiça Eleitoral”, afirmou Leonardo Siqueira na representação.
Entre os itens destacados no documento estão bolsas de grifes como Balmain, Bottega Veneta e Gucci, além de óculos da marca Tom Ford. O deputado do Novo alega que os valores de mercado dos citados acessórios ultrapassam individualmente o montante declarado à Justiça Eleitoral.
Em nota divulgada após a repercussão do caso, Erika Hilton negou qualquer irregularidade ou ocultação de bens. A deputada afirmou que não acumula patrimônio por destinar parte relevante de seus rendimentos ao sustento de familiares, além de rebater os questionamentos sobre o valor atribuído aos artigos de vestuário e acessórios.
Representante da direita – talvez da extrema direita- e conhecido por criticar a gestão fiscal do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o parlamentar do Novo deveria se preocupar com outras questões envolvendo evolução patrimonial e temas correlatos.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) teve evolução patrimonial meteórica ao logo do primeiro mandato no Congresso Nacional: saltou R$ 36 mil para R$ 3,8 milhões, de acordo com dados da Justiça Eleitoral.
Nikolas declarou R$ 2.231.664,61 em um imóvel financiado. O restante – R$ 1,6 milhão – está distribuído em aplicações financeiras, investimentos, ações e participações empresariais. Além disso, o deputado do PL destinou, em 2024, R$ 1,5 milhão em emedas para o município mineiro de Nova Serrana, onde o tio, Enéas Fernandes (PL), fracassou na disputa pela prefeitura.
Leonardo Siqueira, que integra a base aliada de Tarcísio de Freitas (Republicanos) na Assembleia Legislativa de São Paulo, deveria se preocupar com um assunto que envolve familiares do governador paulista.
Os filhos de Tarcísio tornaram-se sócios, em junho deste ano, de um empresário baiano cuja família atua no ramo de consultoria e recuperação de créditos tributários. De acordo com matéria da “Folha de S.Paulo”, uma das empresas, a Lex Tax, anuncia nas redes sociais a recuperação de créditos tributários como uma de suas especialidades. Tal atividade depende de homologações e decisões administrativas do poder público. Outra empresa, a All Tax, oferece sistemas de planejamento e gerenciamento tributário estratégico. Resumindo, conflito de interesses inegável.
O zeloso deputado do PL de São Paulo deveria questionar aporte de R$ 61 milhões feitos pelo agora ex-banqueiro Daniel Vorcaro na produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre a trajetória do golpista condenado e preso Jair Bolsonaro. Senador e candidato ao Palácio do Planalto, Flávio Bolsonaro alegou que o montante solicitado a Vorcaro foi para financiar o filme panfletário, mas até agora ninguém conhece o destino do dinheiro. Há também no caso de Flávio a fantástica loja de chocolate, no Rio de Janeiro, cujo faturamento surpreendeu até mesmo o franqueador do negócio, e as malfadadas rachadinhas.
Há também o caso do senador Jaques Wagner (PT-BA), que está na ponta de um escândalo envolvendo o empresário Augusto Lima, conhecido como “Guga”, ex-sócio de Vorcaro na Banco Master. Investigação da Polícia Federal aponta que Augusto Lima repassou ao senador um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões, além de ingressos para shows no exterior e viagens em jatos privados.




