
O relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Formas Contemporâneas de Escravidão, Tomoya Obokata, afirmou que muitas pessoas estão se tornando vítimas do tráfico humano no Sudeste Asiático após serem iludidas com promessas falsas de trabalho.
A denúncia foi feita nesta sexta-feira ao Conselho de Direitos Humanos, com sede em Genebra. De acordo com Obokata, as vítimas têm sido atraídas por ofertas de trabalho em marketing digital e comércio eletrônico, apenas para serem posteriormente forçadas a participar em operações de fraude online.
Anúncio falso
Um dos casos, o de “Fadi”, começou em maio de 2025, quando ele, recém-formado em tecnologia da informática na Síria, viu um anúncio para trabalhar em marketing cibernético no Laos. A promessa era de salário, comissões e cobertura total da viagem além de acomodação.
Fadi enviou os documentos, viajou para do Qatar para a Malásia até chegar ao Laos. As instruções foram dadas por aplicativos de mensagens. Ao chegar ao Vietnã, ele foi informado que teria de ser transferido às pressas para uma província remota chamada Bokeo.
A partir daí, ele e outros profissionais atravessaram postos de controle armados até chegarem a um complexo fechado. Um dia depois, os passaportes forcam confiscados sob a mentira de que precisavam ser enviados para obter autorização de trabalho, mas desde então ninguém pôde sair do local.
Confinamento e fraudes online
O relator especial contou que, Fadi foi obrigado a trabalhar e morar no mesmo local participando de operações de fraude online.
A situação pioraria no começo de julho de 2025, quando os supervisores dele retiraram os computadores da área obrigando os contratados a estarem confinados em um quarto.
Fadi conseguiu se comunicar com organizações internacionais e locais em busca de ajuda. Em 10 de julho, o seu passaporte foi devolvido, a polícia foi ao local e os presentes receberam a opção de permanecer ou sair. Ele ficou confinado dois meses até se libertar da situação.
Padrões regionais identificados pela ONU
Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o caso reflete padrões documentados em relatório da ONU sobre operações de fraude cibernética e tráfico humano no Sudeste Asiático.
O recrutamento ocorreu através de redes sociais, incluindo interações dentro da própria comunidade da vítima para promover confiança.
Fadi lembra que começou a desconfiar ao ver homens mascarados e armados controlando a passagem dos contratados.
Segundo o seu relato, o momento coincidiu com a constatação de que o cargo técnico prometido era uma cobertura para operações de fraude internacional.
Formas contemporâneas de escravidão
Fadi conseguiu falar com o Alto Comissariado da ONU que tratou da assistência com apoio psicológico e respaldo jurídico, contribuindo para que reivindicasse os seus direitos e procurasse proteção.
De acordo com a ONU, sobreviventes de tráfico e trabalho forçado necessitam de apoio psicológico especializado e de mecanismos que tratem os seus receios com prioridade. É preciso que cada pessoa que recebe oferta de emprego verifique a legitimidade de empresas e intermediários antes de aceitar o contrato.
O relator Tomaya Obokata afirma que o mundo tem pelo menos 28 milhões de pessoas vivendo em trabalho forçado e 138 milhões de crianças vítimas do trabalho infantil.
O caso apresentado integra iniciativas mais amplas da ONU relacionadas com o combate às formas contemporâneas de escravidão, tráfico de pessoas e exploração laboral, no contexto do centenário da Convenção sobre a Escravidão. (Com ONU News)







