
O presidente da China, Xi Jinping, e o seu homólogo russo, Vladimir Putin, exaltaram a cooperação estratégica entre os dois países nesta quarta-feira (20), durante visita do russo a Pequim, dias após a passagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela capital chinesa.
Xi recebeu Putin, a quem chamou de “amigo de longa data”, com honras militares e uma cerimônia de tapete vermelho em frente ao Grande Salão do Povo, na Praça da Paz Celestial, enquanto crianças agitavam bandeiras da Rússia e da China. As imagens da chegada de Putin ecoaram a recepção cuidadosamente coreografada que Xi ofereceu a Trump durante sua visita a Pequim.
Ambos os líderes foram recebidos em Zhongnanhai, o complexo fortemente protegido da liderança chinesa. Mas o tom da conversa com Putin foi muito mais caloroso: Xi disse ao líder russo que Pequim e Moscou têm aprofundado sua confiança política mútua e coordenação estratégica, “com uma resiliência que permanece inabalável”, segundo a mídia estatal chinesa.
Também em contraste com a visita de Trump, que resultou em poucos anúncios concretos imediatos, Putin e Xi assinaram nesta quarta-feira uma série de acordos nas áreas de comércio, mídia e energia.
“A mensagem é clara: nem Washington nem Moscou podem contornar Pequim ou Xi pessoalmente”, disse Johann Fuhrmann, chefe do escritório na China da Fundação Konrad Adenauer, um think tank alemão.

Vínculos “estreitos”
No início da parte pública das conversas, Xi apontou os vínculos “estreitos” de longa data entre os dois países vizinhos e disse que China e Rússia deveriam aprofundar sua “parceria abrangente e cooperação estratégica em uma nova era” de instabilidade global, segundo a mídia estatal chinesa.
Xi ainda defendeu um cessar-fogo abrangente no Oriente Médio. Uma resolução precoce do conflito poderia ajudar a reduzir as interrupções no fornecimento de energia, nas cadeias de suprimentos e no comércio internacional, afirmou.
A guerra na Ucrânia não ganhou destaque público. As forças da Rússia iniciaram exercícios militares nucleares de grande escala na terça-feira, dia da partida de Putin a Pequim, no que pareceu ser tanto uma demonstração de força quanto uma medida adicional de segurança para o voo do presidente, em meio aos ataques ucranianos.
Dias antes de as tropas russas invadirem a Ucrânia, em fevereiro de 2022, Pequim e Moscou declararam uma parceria “sem limites”, que se mantém até hoje. Putin descreveu a relação como “um dos mais importantes fatores de estabilização no cenário internacional”.
A viagem de Putin também coincide com o 25º aniversário do Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável, um acordo histórico entre Moscou e Pequim que os líderes reafirmaram.
Projeto de gasoduto sem avanços claros
Johann Fuhrmann, da Fundação Konrad Adenauer, argumenta que a visita serviu aos dois líderes: Putin precisa de apoio público de seu parceiro mais importante em um momento em que a Rússia enfrenta pressão crescente e clara dependência econômica da China.
Putin destacou o papel da Rússia como fornecedora “confiável” de energia em tempos de crise. “Diante da crise no Oriente Médio, a Rússia continua a desempenhar seu papel como fornecedora confiável de matérias-primas, enquanto a China atua como consumidora responsável desses recursos”, disse ele, de acordo com a transcrição oficial divulgada pelo Kremlin.

A cooperação energética se mantém como motor das relações russo-chinesas durante a guerra na Ucrânia, com a China comprando o petróleo sancionado de Moscou e fornecendo moeda forte essencial para financiar o setor militar russo em meio às sanções ocidentais.
Segundo o Kremlin, a Rússia forneceu à China 101 milhões de toneladas de petróleo bruto e 49 bilhões de metros cúbicos de gás natural em 2025, por meio de oleodutos e remessas de gás natural liquefeito. O comércio bilateral aumentou trinta vezes nos últimos 25 anos.
No entanto, apesar dos esforços, Rússia e China ainda não chegaram a um acordo sobre o novo gasoduto multibilionário Força da Sibéria 2 durante as conversas. Moscou pressiona há anos pela construção do gasoduto, mas o avanço tem sido lento diante da hesitação de Pequim.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse à imprensa russa que, embora os dois lados tenham alcançado um “entendimento básico”, inclusive sobre “o traçado e a forma de construção”, não há um “cronograma claro” e “ainda há alguns detalhes a serem trabalhados”.
O projeto não foi mencionado na longa lista de acordos divulgada pelo Kremlin em seu site após as conversas entre Putin e Xi.
O gasoduto teria capacidade para transportar 50 bilhões de metros cúbicos de gás por ano e – ponto crucial para a Rússia – o fornecimento viria de campos que antes abasteciam a Europa, para onde as exportações despencaram desde a guerra.
A China demonstrou menos entusiasmo pelo projeto, algo que a Rússia esperava que mudasse com a instabilidade energética provocada pela guerra no Oriente Médio. (Com agências internacionais)



