O cafona brasileiro

(*) Lêda Lacerda

No Brasil, ser cafona vai muito além de roupa espalhafatosa ou gosto duvidoso. A verdadeira cafonice aparece quando a grosseria vira orgulho, quando a ignorância é exibida como coragem e a falta de educação passa a ser confundida com autenticidade. É o sujeito que humilha os outros para parecer forte, que despreza conhecimento, arte, sensibilidade e qualquer coisa que exija reflexão.

O cafona não sente vergonha da própria brutalidade, pelo contrário, faz dela um estilo de vida. Acha bonito tirar vantagem, rir da crueldade, falar alto, furar fila, debochar do diferente e transformar arrogância em personalidade. Bajula quem tem poder e pisa em quem considera mais fraco. Confunde honestidade com ingenuidade e acredita que gentileza é sinal de fraqueza.

Existe também uma cafonice moral: a necessidade de parecer superior sem ter grandeza alguma. É o rico corrupto querendo posar de exemplo, o vazio tentando se vender como sucesso, a opinião agressiva travestida de sinceridade. Nesse tipo de mentalidade, tudo o que envolve empatia, arte, pensamento ou delicadeza é tratado como inutilidade.

Talvez a maior cafonice brasileira seja justamente essa: a incapacidade de reconhecer que elegância não está no dinheiro, no barulho ou na ostentação, mas no caráter, no respeito e na consciência de que viver em sociedade exige mais do que apenas pensar em si mesmo.

(*) Lêda Lacerda – paulistana, estudou no Colégio Rio Branco e formou-se em enfermagem pela USP. Sempre se interessou por moda e nas horas vagas por escrever sobre experiências de vida. Anos mais tarde, ingressou profissionalmente no universo da moda, tendo também se dedicado à formação de modelos e atores. A paixão pela escrita permanece até hoje, hobby que usa para traduzir em letras a emoção e o amor que marcam seu cotidiano.

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