
Na política tudo acontece no rastro do chamado risco calculado. A desfaçatez no setor é tamanha, que a banalização já não incomoda a opinião pública. A carta escrita por Jair Bolsonaro e lida pelo filho Flávio durante transmissão ao vivo nas redes sociais é fruto de premeditação rasteira, gostem ou não os adeptos do responsável pelo fracassado golpe de Estado.
Bolsonaro sabe que o privilégio da prisão domiciliar está atrelado a um conjunto de medidas cautelares, algo que Flávio também tem conhecimento. Entre as medidas, a proibição de uso de redes sociais de forma direta ou através de terceiros, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que condenou o ex-presidente a 27 anos e três meses de prisão.
A estratégia a partir da citada carta era afrontar o STF e acionar a vitimização, algo que Flávio Bolsonaro fez depois que o ministro Alexandre de Moraes suspendeu o direito de visitas ao pai por 90 dias.
Senador e postulante à Presidência da República, Flávio Bolsonaro conseguiu um fato novo em meio às polêmicas que passaram a derreter sua pré-campanha, em especial o entrevero com a madrasta e o tarifaço estadunidense.

Flávio recorreu ao presidente Lula para criticar a decisão de Moraes, alegando que enquanto preso o petista escreveu cartas. É importante ressaltar que Lula não estava em prisão domiciliar e sequer foi alvo de medidas cautelares, pois estava preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.
Não se trata de cercear o direito do preso de se comunicar, desde que atendidos os limites da lei, mas de respeitar a íntegra da decisão que culminou em condenação já transitada em julgado.
Se o objetivo de Jair Bolsonaro era mandar recado para a militância, bastava conversar com Flávio, que transmitiria o teor do diálogo ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que por sua vez trataria de divulgá-lo de maneira a não violar a legislação eleitoral.
Resumindo, Bolsonaro e seu filho conseguiram vender a falsa ideia de vítimas do sistema, já que inegáveis são os efeitos do tarifaço de Donald Trump e o estrago provocado pela ex-primeira-dama. Contudo, há que avalie como “tiro pela culatra” a epopeia da carta com conteúdo de propaganda eleitoral antecipada.



