Efeito “tarifaço” na urna brasileira

(*) Gisele Leite

A majoração de tarifas imposta pelo governo dos EUA à maioria dos produtos brasileiros tornou-se o principal tema econômico e político nas eleições de 2026. O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro polarizam o debate, trocando acusações sobre a responsabilidade pelas sanções e o impacto na indústria nacional.

A crise internacional forçou o eleitorado a avaliar diretamente a política externa e as alianças de cada candidato com o governo de Donald Trump. Lula: utiliza o tarifaço para reforçar o discurso de defesa da soberania e da indústria nacional, acusando o opositor de pedir as sanções aos EUA.

Pesquisas indicam que a narrativa impulsionou o eleitorado a apoiar o atual presidente. Flávio Bolsonaro: atribui a medida à falta de diálogo e aos atritos diplomáticos do Planalto com os Estados Unidos. Embora tenha pedido adiamento das tarifas, o candidato tem sofrido desgaste com a associação da sua imagem aos efeitos negativos das taxas nas exportações brasileira.

A sobretaxa americana afeta diretamente o agronegócio e a indústria, áreas que exigem posicionamentos rápidos dos candidatos, apesar da lista de produtos isentos.

Vide a retaliação do Planalto: O governo sinalizou a aplicação da Lei de Reciprocidade Econômica para proteger setores afetados e acionar a OMC, gerando forte volatilidade fiscal.

Constata-se o posicionamento da oposição: Outros pré-candidatos, como Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), também condenaram a taxação e criticaram a condução das negociações por parte do governo federal.

Ruchir Sharma é um dos poucos analistas que acompanham a ascensão e queda de nações, sendo um dos estudiosos sobre os ciclos econômicos. Autor de obras como Breakout Nations e What Went Wrong With Capitalism, Sharma combina análise macroeconômica com observação direta de campo em países emergentes — uma metodologia construída ao longo de três décadas.

Sua tese central sobre a América Latina parte de um dado que ele considera inconveniente, mas inegável: historicamente, investidores obtêm retornos muito maiores sob governos de direita na região.

O cenário ficou ainda mais carregado com a decisão do governo de Donald Trump de impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Se a medida entrar em vigor no dia 22 de julho, o Brasil se tornará o segundo país mais taxado pelos Estados Unidos no planeta, atrás apenas da China.

Os investidores têm olhado para a América Latina com interesse crescente no último ano, mesmo que a região não seja vista como uma potência de inteligência artificial. Um grande motivo é o número crescente de governos de direita chegando ao poder.

Independentemente de preferências políticas, o fato é que historicamente os investidores obtêm retornos maiores quando governos de direita assumem na América Latina.

A história nos narra que, quanto maior a inovação tecnológica, maior a bolha — desde os canais e as ferrovias, passando pelos automóveis, até a internet.

O gasto global com a construção da infraestrutura de IA este ano é algo em torno de US$ 2,5 trilhões, mais de 2% do PIB global só em investimento em IA. As grandes empresas de tecnologia americanas estão gastando cerca de US$ 800 bilhões sozinhas.

Historicamente, bolhas não caem sob seu próprio peso, elas precisam de um catalisador, e a alta das taxas de juros costuma ser esse catalisador. As taxas de juros reais nos EUA ainda estão relativamente baixas.

Mas, se o título de dez anos do Tesouro americano romper os 5%, isso seria uma bandeira vermelha. Estamos nos estágios avançados desta bolha e podemos estar próximos do fim, mas, até que essas coisas aconteçam, é muito difícil prever quando.

Segundo o levantamento da Quaest divulgado em 16.7.2026, 42% afirmam que o tarifaço aumenta sua vontade de votar em Lula (eram 39% em junho). Em segundo lugar vem Flávio, com 27% (eram 30%), enquanto 23% mencionaram outros candidatos (eram 23%) e 8% não sabem ou não responderam.

Enfim, os efeitos certeiros e previsíveis na urna brasileira só serão conhecidos na apuração final da eleição…

(*) Gisele Leite – Mestre e Doutora em Direito, é professora universitária.

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