O questionável bom-mocismo de André Mendonça e as coincidências que o colocam sob suspeita

A política é um terreno perigoso que não abre espaço para coincidências. Nada acontece na seara do poder sem premeditações e interesses escusos. Em matéria anterior, o UCHO.INFO afirmou que há nos bastidores da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, uma ferrenha guerra ideológica.

Na terça-feira (1º), quando o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantou o sigilo de relatório da PF sobre a proximidade entre Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, destacamos o inegável vazamento seletivo de dados, cujo objetivo era ajudar a campanha de Flávio Bolsonaro.

Nesta quarta-feira (2), enquanto o Brasil ainda tentava compreender os efeitos colaterais do conteúdo do relatório da PF, uma informação divulgada pelo site ICL pegou André Mendonça no contrapé. Em 14 março de 2025, o ministro recebeu, em São Paulo, o ex-dono do liquidado Banco Master.

O encontro, confirmado por Mendonça, foi intermediado pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Antonio Cezar Correia Freire (PL-SP), conhecido como Cezinha de Madureira, e durou trinta minutos.

Mendonça, indicado ao STF apenas por ser “terrivelmente evangélico, disse ao jornal “Folha de S.Paulo” que o encontro foi intermediado por Madureira, a pedido de pessoas próximas à Igreja Batista da Lagoinha. O ministro integra a Igreja Presbiteriana, o deputado Cezinha pertence à Assembleia de Deus Ministério de Madureira.

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Em nota, Mendonça alega que a pauta do encontro com Vorcaro foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco Master.

Ainda na nota, André Mendonça afirma que “não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar”. O magistrado vai além e destaca que “sua atuação, pública e privada, é pautada pela legalidade e pela impessoalidade.

André Mendonça pode alegar o que quiser, mas em termos de legalidade está devendo. Afinal, o pedido para que a PF produzisse relatório sobre Alexandre de Moraes atropelou a Constituição e o Regimento Interno do STF.

Relator do caso do Banco Master, Mendonça, ao agir para ajudar a campanha de Flávio Bolsonaro, conseguiu instalar grave crise institucional no País a menos de um mês das eleições, não sem antes tentar vender à opinião pública a imagem de último paladino da moralidade.

Pois bem, se Mendonça “não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar”, foi desnecessária a revelação da pauta do encontro com Vorcaro.


 
Vamos às coincidências (sic)…

– André Mendonça foi indicado ao STF pelo então presidente Jair Bolsonaro, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado.

– Vorcaro, com quem o ministro se reuniu em março de 2025, repassou R$ 72 milhões para supostamente financiar o filme Dark Horse, cinebiografia do golpista.

– Do montante destinado ao filme, R$ 61 milhões foram repassados entre fevereiro e maio de 2025. O valor foi integralmente transferido ao fundo de investimentos Havengate Development, administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro, o “Dudu Bananinha”, que atua criminosamente contra o Brasil a partir dos Estados Unidos.

– Cunhado de Vorcaro, o pastor Fabiano Zettel, preso no âmbito da Operação Compliance Zero, presidia a unidade de Belo Horizonte da Igreja Batista da Lagoinha, fechada após o escândalo do Banco Master.

– O ministro do STF afirmou que a reunião com Daniel Vorcaro aconteceu após pedidos de pessoas ligadas à Igreja da Lagoinha.

Conclusão

Na Roma Antiga, após um escândalo de invasão a festival exclusivo para mulheres no ano de 62 a.C., correu como rastilho de pólvora uma célebre frase sobre a idoneidade de Pompeia Sula, segunda esposa do imperador Júlio César: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”.

Públio Clódio Pulcro, jovem aristocrata romano, apaixonou-se por Pompeia Sula e disfarçou-se de tocadora de lira para entrar no local onde acontecia o festival sagrado ritos de Bona Dea (Boa Deusa). Clódio foi descoberto por Aurélia, mãe de Júlio César, o que desencadeou rumoroso escândalo público em Roma.

Resumindo, André Mendonça, que pretende flanar nos céus do bom-mocismo de ocasião, deveria se aprofundar em temas da Roma Antiga.