
Relator do inquérito que investiga o caso da fraude bilionária do Banco Master, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), demonstra incapacidade para gerenciar o enredo do mais novo capítulo do escândalo.
Apesar de alguns especialistas em Direito afirmarem que Mendonça agiu de acordo com a lei ao solicitar à Polícia Federal (PF) um relatório sobre eventual envolvimento do ministro Alexandre de Moraes, do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da PF, delegado Andrei Rodrigues, com Daniel Vorcaro, a decisão do magistrado é flagrantemente inconstitucional, além de atropelar o Regimento Interno do STF.
O UCHO.INFO já afirmou em diversas ocasiões que Moraes há muito não reúne condições para permanecer como ministro da Corte. Transgressões devem ser investigadas e julgadas sempre à luz da lei. Da forma como Mendonça conduziu o pedido de produção de relatório, as provas são inequivocamente nulas.
A farsa protagonizada por André Mendonça começou a ser desmontada nesta quarta-feira (2), com a divulgação, pelo site de notícias ICL, de encontro entre o ministro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso preventivamente desde março passado no âmbito da Operação Compliance Zero.
Com a divulgação da informação, a Mendonça restou confirmar o encontro, que aconteceu no dia 14 de março de 2025 na cidade de São Paulo. Uma das pessoas responsáveis por viabilizar o encontro é o advogado Ciro Rocha Soares, ligado ao antigo dono do Master. Rocha Soares é citado por senadores, deputados e advogados como importante apoiador da caminhada de Mendonça ao STF, após a indicação feita por Jair Bolsonaro, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado.
Ciro Rocha Soares, que circula com desenvoltura nos corredores do Congresso Nacional, recebeu à época a missão de abrir o caminho para gabinetes de senadores, responsáveis por analisar e referendar a indicação de Mendonça para o STF.
Não por acaso, semanas antes da reunião entre Mendonça e Vorcaro, o advogado enviou mensagem de áudio ao ex-banqueiro informando que havia levado o ministro a conhecida alfaiataria de luxo para a confecção de um terno. “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco [alfaiataria] agora, pra fazer um terno”, disse Rocha Soares na mensagem. A informação foi revelada pelo jornalista Paulo Motoryn, da newsletter “Noites Húngaras”.

Operação Tabajara
Nesta quarta-feira, nova informação sobre o caso Master agitou os bastidores do poder. Na última semana, Vorcaro prestou depoimento à equipe do gabinete de André Mendonça, sem a participação da Polícia Federal, detalhe que causou preocupação entre os investigadores da Compliance Zero. Um representante da PGR acompanhou o depoimento.
No depoimento, mantido sob sigilo, Vorcaro manifestou o desejo de delatar integrantes do governo Lula e mencionar viagem com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Contudo, o ex-banqueiro não forneceu detalhes, muito menos provas dessa suposta relação.
A defesa de Daniel Vorcaro, comandada pelo criminalista Daniel Bialski, solicitou o depoimento sigiloso sob a alegação de que o ex-banqueiro fora alvo de ameaças da PF para não firmar acordo de colaboração premiada. Trata-se de justificativa descabida, sem comprovação, que serve apenas para instalar o caos institucional no País faltando quatro semanas para o primeiro turno das eleições.
“A gente pode te jogar daqui de cima. Ninguém vai duvidar se a gente disser que você se jogou”, teria dito um agente, segundo a versão de Vorcaro, em referência à transferência por avião de São Paulo para Brasília.
Filho “01”
O objetivo principal da “Operação Tabajara” liderada pelo relator do caso Master é ajudar a campanha de Flávio Bolsonaro, que nesta quarta-feira saiu em defesa do magistrado e classificou como “cortina de fumaça” a notícia sobre o encontro com Vorcaro.
“É impossível querer lançar cortina de fumaça como essa contra o ministro André Mendonça. Pelo que eu vi na nota que ele publicou, foi numa época em que ele sequer era relator dessa ação, tratando de um assunto específico, registrado em sua agenda, portanto, algo totalmente profissional, muito diferente do que fez Alexandre de Moraes”, disse o presidenciável do PL.
O objetivo secundário da operação é desviar os holofotes apontados na direção do Dark Horse, assunto que o ministro André Mendonça precisar tratar com isonomia, começando pela quebra do sigilo das remessas financeiras feita para o Havengate Development Fund LP, sediado no estado do Texas (EUA) e administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro.
Sem provas
Causa espécie o fato de Daniel Vorcaro decidir de forma repentina delatar integrantes do governo Lula e detalhar viagem com o diretor-geral da PF. É preciso saber o que foi prometido ao ex-banqueiro para do nada surgir em cena com proposta estapafúrdia e desprovida de provas.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), reclamou das críticas que recebeu de senadores por não pautar pedidos de impeachment de Moraes.
“Eu vou voltar para a pauta porque senão, terei que responder muitas agressões que, como presidente do Senado, estou recebendo nos últimos dias. Apenas um comentário, no momento adequado eu vou falar, todo mundo esqueceu que pediram R$ 130 milhões para a mesma pessoa para fazer um filme. E agora o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes”, disse Alcolumbre durante sessão do plenário do Senado.
A incipiência do sigiloso depoimento é patente, fato que levou a PGR pedir ao STF o arquivamento da oitiva, na qual relatou ter sofrido supostas ameaças e intimidações. De acordo com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o ex-banqueiro “não noticiou fato concreto ou juridicamente delimitado capaz de impulsionar providências investigativas próprias” e tampouco apresentou elementos que respaldassem as alegações.



