Que a fé seja sempre mais forte

(*) Linoel Dias

O day after da chamada “Marcha pela Democracia”, realizada ontem na Avenida Paulista, merece uma reflexão que vá muito além das bandeiras, dos discursos e das manifestações políticas. Um movimento que se propõe a defender a democracia precisa, antes de tudo, respeitar os princípios que a sustentam: liberdade, responsabilidade, tolerância, diálogo e respeito às diferenças.

Quando uma manifestação perde a moderação e dá lugar a episódios de violência, vandalismo e depredação, corre o risco de produzir mais prejuízos do que benefícios à causa que pretende defender. A democracia não se fortalece com o quebra-quebra, a intolerância ou a imposição de vontades. Fortalece-se com ideias, argumentos, consciência cívica e respeito às instituições. O Brasil não merece mais divisões, “tropa do amor” e do desespero, nem precisa de novos motivos para alimentar o ódio entre seus cidadãos.

Infelizmente, parece continuar atual a observação do magistrado e historiador romano Tácito (c. 55–120 d.C.): “A ambição de poder é a mais forte de todas as paixões.” Quando o desejo de poder supera o compromisso com o bem comum, a razão perde espaço, a prudência desaparece e até pessoas que deveriam ser referências de equilíbrio se deixam levar pelas disputas.

Magistrados, políticos e dirigentes religiosos, sobretudo aqueles que se consideram iluminados pelo conhecimento, pela experiência ou pela fé, deveriam ser os primeiros a demonstrar sabedoria para escolher, paciência para esperar e perseverança para acreditar. Entretanto, muitos se dividiram, trocaram o diálogo pelo confronto e a prudência pela precipitação. Esqueceram que liderança não é apenas conquistar posições, mas assumir responsabilidades; não é simplesmente vencer adversários, mas contribuir para que a sociedade inteira possa avançar.

Na política, como na vida, cantar vitória antes da hora pode ser um exercício perigoso de vaidade. Uma ala que comemorou antecipadamente uma vitória no primeiro turno poderá experimentar a frustração de uma derrota no segundo. Afinal, o resultado de uma disputa não pertence àqueles que se proclamam vencedores antes do tempo, mas à decisão soberana de quem vota. E, acima das ambições humanas, permanece uma verdade que atravessa gerações: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3:1).

Enquanto lideranças disputam poder, prestígio e influência, o mundo continua a se digladiar em conflitos e guerras. Famílias se desestruturam, amizades se desfazem, irmãos deixam de se falar e pessoas que deveriam caminhar juntas passam a se enxergar como inimigas. É triste perceber que, muitas vezes, somos capazes de levantar muros onde deveríamos construir pontes.

Precisamos compreender que a democracia não é propriedade de partidos, magistrados, governantes ou movimentos populares. É patrimônio de todos. E a liberdade de expressão, tão necessária à democracia, traz consigo o dever de respeitar a liberdade do outro. Como ensina a sabedoria bíblica, “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira” (Provérbios 15:1).

Talvez esteja faltando menos arrogância e mais humildade; menos ressentimento e mais perdão; menos ambição e mais propósito. Precisamos de líderes que saibam perder sem destruir, vencer sem humilhar e governar sem esquecer que o poder é passageiro, mas as consequências das decisões podem atravessar gerações.

E, sobretudo, precisamos de fé! Não uma fé usada como instrumento de disputa, discurso ou conveniência, mas aquela que transforma atitudes, aproxima pessoas e nos ensina a reconhecer que somos todos responsáveis pela construção de um mundo melhor.

Em tempos de tantas incertezas, não podemos permitir que o medo seja maior que a esperança, que o ódio seja mais forte que o amor ou que a ambição prevaleça sobre a consciência. O apóstolo Paulo nos deixou uma orientação extraordinária: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Romanos 12:21).

Que os homens tenham mais sabedoria para decidir, mais serenidade para esperar e mais grandeza para reconhecer seus próprios erros. Que a política recupere sua finalidade maior: servir à sociedade. Que as religiões cumpram sua missão de aproximar o homem de Deus e de seus semelhantes. E que nossas diferenças jamais sejam maiores do que aquilo que nos une.

Afinal, governos passam, mandatos terminam, partidos mudam, lideranças desaparecem, mas os valores que sustentam uma sociedade permanecem.

Olhemos para o Alto! Peçamos ao Grande Criador e Provedor que ilumine nossas escolhas, acalme nossos corações e nos conceda discernimento para não confundir ambição com propósito, força com razão ou vitória com justiça.

Que a fé seja sempre mais forte que nossas incertezas; que a esperança seja maior que nossos temores; que o amor seja superior às nossas diferenças e que a paz prevaleça sobre todas as disputas.

Porque o Brasil precisa de união, não de destruição; de sabedoria, não de vaidade; de justiça, não de vingança.

E nós precisamos, acima de tudo, de Deus!

(*) Linoel Dias é jornalista e colunista do “Coisas de Agora”