
Os Estados Unidos deixarão de fornecer a Israel cerca de US$ 4 bilhões por ano (aproximadamente R$ 22 bilhões) em ajuda militar e econômica a partir do fim de 2026, mas continuarão vendendo armamentos ao seu principal aliado no Oriente Médio, afirmou nesta terça-feira (3) o presidente americano Donald Trump.
Em entrevista por telefone à Fox News no dia das eleições legislativas de meio de mandato, o republicano disse que a proposta foi negociada com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e que ambos discutem o assunto há alguns anos. Segundo Trump, os dois chegaram a um entendimento para encerrar gradualmente o programa.
O republicano afirmou que Israel não precisa mais da ajuda financeira e que o custo é elevado para os Estados Unidos. Segundo ele, o tema também passou a ser explorado politicamente por democratas, como Abdul El-Sayed, candidato ao Senado pelo estado de Michigan e crítico da política israelense.
Até mesmo setores conservadores mais à direita, tradicionalmente alinhados a Trump, passaram a questionar o apoio americano a Israel, visto como cada vez mais controverso por eleitores indecisos. Comentaristas influentes, como Tucker Carlson, têm colocado em dúvida o valor estratégico da relação.
“Você pode considerar isso uma troca. Pode considerar ajuda militar ou dinheiro”, disse Trump. “Damos a eles US$ 4 bilhões em equipamentos e recursos, e eles não precisam disso. Fui procurado por Bibi Netanyahu e conversamos sobre o tema há alguns anos porque é muito dinheiro.”
O presidente afirmou ainda que Israel concorda com o fim do programa. “Israel é nosso número um; damos mais a eles do que a qualquer outro país, e eles não precisam mais disso”, disse. “Continuei fazendo isso, mas Israel é um país muito próspero. Não precisa dessa ajuda. Se precisasse, eu defenderia sua manutenção.”
O gabinete de Netanyahu não comentou imediatamente as declarações. Entre adversários políticos do premiê israelense, a reação foi cautelosa.

Yair Golan, um dos líderes da oposição israelense, afirmou que o fim da ajuda militar americana representaria um “golpe severo para a segurança de Israel” em um momento em que o país enfrenta conflitos em várias frentes.
“O ônus de financiar as necessidades de defesa em um momento tão crítico recairá inteiramente sobre a população israelense”, disse Golan, ex-vice-chefe das Forças Armadas, em comunicado.
Dezenas de bilhões de dólares enviados a Israel
Os Estados Unidos destinaram dezenas de bilhões de dólares em ajuda militar a Israel nos últimos anos. Em 2016, o então presidente Barack Obama assinou um acordo de segurança sem precedentes com Israel, garantindo US$ 38 bilhões (aproximadamente R$ 209 bilhões) em assistência militar ao longo de dez anos, o equivalente a US$ 3,8 bilhões anuais (cerca de R$ 21 bilhões).
O memorando de entendimento, assinado durante o governo Obama, prevê repasses anuais entre 2019 e 2028. Pelos termos do acordo, Israel perderia gradualmente a possibilidade de gastar parte dos recursos em produtos militares fabricados localmente. Ao final da transição, todo o valor deveria ser utilizado na compra de equipamentos da indústria bélica americana.
Netanyahu já havia defendido, em ocasiões anteriores, a redução gradual da dependência israelense dessa ajuda. Em janeiro, disse à revista The Economist que pretendia diminuir progressivamente a assistência militar americana ao longo da próxima década e que essa mudança já estava em andamento.
Trump diz que pagamento virou alvo de críticas
De acordo com Trump, a ajuda também se tornou um problema político por sua repercussão pública. O presidente voltou a citar Abdul El-Sayed como exemplo de político que utiliza o tema em suas campanhas.
O presidente americano pode perder o controle do Senado para os democratas e tem buscado formas de alcançar eleitores indecisos.
“A esquerda usa esse pagamento de US$ 4 bilhões, que todos conhecem e não é segredo para ninguém, como símbolo de injustiça”, afirmou à Fox News. “E não podemos permitir que isso aconteça. Não gosto disso porque é um alvo fácil, talvez fácil demais.”
A possibilidade de encerrar gradualmente a ajuda militar e econômica direta dos Estados Unidos a Israel enfrenta obstáculos. Um deles são os compromissos assumidos pelos Estados Unidos nos Acordos de Camp David com o Egito, que preveem apoio em matéria de segurança tanto a Israel quanto aos egípcios.
Além disso, boa parte da assistência americana ocorre por meio do programa de Financiamento Militar Estrangeiro (FMF, na sigla em inglês), que transfere recursos a Israel com a exigência de que sejam usados na compra de armamentos produzidos nos Estados Unidos. Na prática, o dinheiro retorna à economia americana por meio da indústria de defesa.
Caso Israel não mantenha o volume de compras de equipamentos militares dos Estados Unidos, empresas do setor podem sofrer impactos econômicos.
Guerra em Gaza ampliou volume de assistência
Um estudo acadêmico publicado no ano passado concluiu que os governos de Joe Biden e Donald Trump forneceram pelo menos US$ 21,7 bilhões (aproximadamente R$ 119 bilhões) em assistência militar a Israel após o início da guerra em Gaza, em 2023.
O levantamento foi divulgado no segundo aniversário dos ataques do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, evento que desencadeou o conflito.
Outro estudo, publicado pelo projeto Costs of War, da Universidade Brown, estimou que os Estados Unidos gastaram cerca de US$ 10 bilhões adicionais (aproximadamente R$ 55 bilhões) em operações de segurança e assistência militar no Oriente Médio ao longo dos dois anos anteriores. (Com Deutsche Welle e agências internacionais)




