EUA: confira os impactos da derrota política de Donald Trump nas eleições de meio de mandato

As eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos, que deram aos democratas impressionante vitória, com direito ao controle do Senado e da Câmara dos Representantes, levaram o presidente Donald Trump a fazer um “mea culpa”.

Trump reconheceu que as guerras no Oriente Médio, com destaque para as investidas contra o Irã, ajudaram na derrota dos republicanos.

Digerindo a enorme derrota política, Trump disse que aceitará o resultado das urnas, o que gerou desconfiança por toda parte. Em suma, difícil é apostar no prazo de validade desse repentino bom-mocismo do atual inquilino da Casa Branca, que continua com a caneta presidencial e a qualquer momento recorrerá às informações falsas.

Apesar desse cenário, a massacrante vitória dos democratas terá impacto em vários setores, tanto internamente quanto, em especial, no âmbito internacional.

Alívio na pressão sobre o Brasil?

“Para o Brasil, a mudança mais significativa não seria necessariamente encontrar um Trump mais moderado, mas sim um presidente com menor capacidade política de impor unilateralmente suas decisões”, afirma a cientista política Gisele Agnelli, autora de Democracia Made in USA, em entrevista à DW.

Nos últimos dias de campanha, 25 democratas já haviam publicado uma carta pedindo formalmente explicações ao secretário de Estado, Marco Rubio, pela recepção concedida ao senador Flávio Bolsonaro (PL), que fugiu para Miami após perder a eleição presidencial.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, a deputada Pramila Jayapal, uma das signatárias da carta, indicou na última semana que com maioria no Congresso a oposição pretende investigar a atuação de Trump e da Meta no contexto das eleições brasileiras.

Contudo, a Casa Branca ainda mantém autoridade significativa para conduzir a política externa e implementar tarifas sem a aprovação do Congresso, embora esses poderes tenham sido limitados por decisões da Suprema Corte tomadas no início deste ano.

A vitória dos democratas, portanto, não elimina automaticamente a ameaça do tarifaço contra o Brasil, mas pode criar um ambiente mais favorável para negociações bilaterais, devolvendo ao país “a possibilidade de negociar com diferentes centros de poder dentro dos Estados Unidos”, avalia Agnelli.


Apoio à Ucrânia

Quando a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia começou, o presidente democrata Joe Biden ocupava a Casa Branca. Em conjunto com a Europa, os Estados Unidos foram um parceiro confiável de Kiev, oferecendo apoio financeiro, assistência militar e, sobretudo, grandes volumes de armamentos.

Sob Trump, a situação mudou. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, teve uma recepção extremamente desconfortável durante visita à Casa Branca em 2025, e hoje Trump admite abertamente que se relaciona melhor com o presidente russo, Vladimir Putin, do que com Zelensky.

Os Estados Unidos suspenderam sanções contra a Rússia e reduziram a ajuda financeira e militar à Ucrânia. Os democratas, com a maioria nas duas câmaras do Congresso, poderão colocar o fortalecimento do apoio à Ucrânia no centro da agenda.

“Os democratas criticam Trump por não fazer o suficiente pela Ucrânia”, diz Brandon Conradis, ex-jornalista da DW e atualmente editor da Bloomberg Government. “Eles podem defender a ampliação desse apoio.”

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Guerra com o Irã

Trump iniciou, ao lado de Israel, a guerra contra o Irã em 28 de fevereiro sem consultar o Congresso. Pela Constituição dos Estados Unidos, cabe ao Congresso aprovar uma declaração formal de guerra contra outro país.

Os democratas votaram repetidamente contra a guerra e chegaram a aprovar, junto com alguns republicanos, uma resolução para encerrar as hostilidades. O governo Trump, entretanto, ignorou a medida.

“Não acredito que o Congresso tenha muito poder nessa questão”, afirma o analista Michael O’Hanlon, diretor de pesquisa em política externa da Brookings Institution.

“Mas talvez possa impedir uma grande escalada ao negar financiamento para isso.”

Ajuda ao desenvolvimento

Logo após iniciar seu segundo mandato, Trump promoveu cortes drásticos no financiamento de projetos de ajuda humanitária ao redor do mundo voltados ao combate ao ebola, à aids e à fome. Entre outras medidas, encerrou as atividades da Usaid, agência americana responsável pela assistência internacional ao desenvolvimento.

É questionável se um Congresso com maioria democrata vai conseguir reativar a agência contra a vontade do presidente. Ainda assim, poderia aprovar recursos adicionais para ajuda internacional e investigar o controverso fechamento da Usaid.

“Os democratas também utilizariam sua função de fiscalização para examinar minuciosamente o fechamento da Usaid”, diz Conradis. “Haveria audiências, e os responsáveis pelo encerramento da agência seriam convocados a depor perante o Congresso.”

Porém, em última análise, os Estados Unidos continuariam sendo um país governado por um presidente republicano. Não haverá uma mudança completa de rumo. “Não é como se tudo mudasse com os democratas no controle do Congresso”, afirma Conradis. “Mas algumas coisas certamente mudariam, porque a distribuição de poder passaria a ser muito diferente da anterior.” (Com Deutsche Welle e agências internacionais)