Carne Fraca: Governo e empresas combinam discurso para desqualificar operação da Polícia Federal

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A reunião de emergência, convocada pelo presidente Michel Temer, para tentar conter o tsunami que surgiu na esteira do escândalo da carne serviu para o governo traçar uma estratégia de enfrentamento, já que o assunto alcançou, em questão de horas, dimensão internacional.

O resultado do encontro dominical, no Palácio do Planalto, resultou em decisão no mínimo absurda: enfrentar e criticar a Polícia Federal, que após dois anos de investigações deflagrou, na última sexta-feira (17), a Operação Carne Fraca, que revelou o envolvimento de fiscais agropecuários corruptos e alguns dos principais frigoríficos do País.

Diante dos desdobramentos da “Carne Fraca”, que continuam fazendo estragos planeta afora, a ordem oficial é desqualificar a ação da PF, como se isso fosse possível em um país açambarcado pela corrupção sistêmica. O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, chegou ao cúmulo de classificar como “idiotice” a afirmação de que frigoríficos misturavam papelão no processamento de algumas carnes, em especial as utilizadas na produção de embutidos.

É importante salientar que o cargo de ministro de Estado requer doses mínimas de compostura, algo que Maggi parece não ter. Afinal, usar palavras ofensivas para gerenciar crise não é o melhor caminho. Ademais, no momento em que o País dá os primeiros passos na seara da assepsia política, através da Operação Lava-Jato, querer desmoralizar a Polícia Federal é uma ação suicida.

O discurso combinado no Palácio do Planalto está sendo vociferado de forma obediente por todos os envolvidos. A PF dedica meses a fio para investigar um esquema de corrupção que configura gravíssima ameaça à saúde pública, mas o governo age como maestro de um ataque covarde e rasteiro aos investigadores.


Que o País terá prejuízos no campo das exportações todos já sabem, mas antes de tudo é preciso garantir a segurança dos consumidores nacionais e internacionais em relação à carne brasileira. De nada adianta alegações estapafúrdias apresentadas no calor do imbróglio, cujo objetivo é salvar as empresas investigadas e não comprometer o faturamento das mesmas.

A Sociedade Rural Brasileira (SRB) afirma que a PF foi irresponsável no trato das investigações, na opinião do vice-presidente da entidade, Pedro de Camargo Neto. “A PF foi irresponsável. Acho que existe pontualmente algo muito real e que tem de ser penalizado, mas é menor do que foi apresentado. Por ser menor, me preocupa o estrago que possa provocar”, disse o ruralista.

O vice-presidente da SRB tem o direito à livre manifestação do pensamento, mas não pode querer que a sociedade aceite tais declarações como verdade suprema, colocando em xeque a atuação da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e da Justiça. O simples fato de revalidar produtos vencidos é motivo suficiente para mandar os responsáveis à prisão.

Fosse o Brasil um país minimamente sério e preocupado de fato com os riscos à saúde pública, os frigoríficos envolvidos no esquema já estariam fechados para minuciosa avaliação. Como algumas das empresas investigadas na Operação Carne Fraca são doadoras de campanhas políticas, não causará surpresa se o resultado final do trabalho da PF for comprometido.

É importante lembrar que a mesma PF deflagrou, em 2009, a Operação Castelo de Areia, identificando esquema de corrupção e lavagem de dinheiro a partir da construtora Camargo Corrêa que envolvia políticos graúdos e conhecidos. A Castelo de Areia acabou anulada por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), apenas porque as provas foram obtidas de fontes anônimas. O Brasil que se prepare, pois mais uma pizza enorme e mal cheirosa está sendo preparada.

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