Algumas considerações sobre a prisão de Lula

(*) Carlos Arouck

Lula está preso. Mas foram muitas horas de tensão até essa prisão se efetivar, de ambos os lados, tanto da parte dos que clamavam por justiça e exigiam o cumprimento do mandado judicial expedido pelo juiz Moro, quanto da parte dos que incitavam a resistência à prisão e o uso da violência para Lula não se entregar. Os dois lados criticaram a forma como o processo foi conduzido pelas autoridades. Aqueles que queriam uma prisão espetacular para recompensar as manifestações realizadas em diversos estados pela sonhada prisão de Lula e aqueles que ameaçavam o Brasil até com uma guerra civil e com o confronto direto com as forças de segurança para manter Lula livre, ambos não ficaram satisfeitos com o desenrolar do episódio, em especial com a atuação da Polícia Federal. Acostumados a assistir ações rápidas e precisas, os cidadãos foram obrigados a presenciar um teatro sem fim de discursos, choro, missa, churrasco e demonstrações de violência como forma de atrasar e boicotar a ação policial.

Neste texto, venho em defesa do Departamento de Polícia Federal e de sua estratégia a fim de evitar confronto e danos colaterais junto à população que se aglomerava cada vez mais no local onde Lula se encontrava evadido, inclusive junto aos próprios militantes que impediam a entrega do fugitivo da justiça. Como em um jogo de xadrez, o juiz e os agentes federais agiram sem pressa, de forma calculada, correta, dentro das melhores práticas empregadas em situações de risco. Os policiais federais, com apoio das forças policiais estaduais e das FFAA agiram de forma calculada e sem pressa. A razão técnica venceu a razão emocional e garantiu um final sem incidentes maiores neste cenário. A técnica usada pela Polícia Federal foi a mesma de casos de sequestro com refém enquanto a dos petistas foi a tática da organização terrorista Hamas, que opta por usar escudos humanos em proteção aos seus interesses. A estratégia, em caso de conflito, daria mais visibilidade aos militantes em proteção ao ex-presidente, além da oportunidade de vitimizar e fazer de Lula um mártir, tendo como algoz a polícia. Não deu certo. Nenhuma cena de truculência policial ou de uso indevido da força foi registrada.

A ideia inicial de alegar que a multidão de simpatizantes não deixaria Lula se entregar caiu por terra quando os advogados de Lula negociaram um novo prazo para a entrega do condenado, até o final da tarde de sábado. Em caso de resistência, complicações jurídicas futuras poderiam ser impostas, como a decretação de prisão preventiva no julgamento de outros crimes já em andamento. Com certeza, Lula não iria abrir mão de apresentar novos pedidos de habeas corpus e ainda de recorrer aos tribunais superiores para anular sua atual sentença de 12 anos ou de entrar com pedido de prisão domiciliar. Ele não pensa duas vezes e segue a pé até a viatura policial. Não se apresentou espontaneamente, porém houve uma avaliação constante por parte da PF para determinar o melhor momento de realizar a prisão. O COT, grupo de elite da Federal, permaneceu o tempo inteiro de sobreaviso, por precaução. Os negociadores da Polícia Federal, dentro e fora do prédio em São Bernardo do Campo, foram escolhidos entre os mais bem treinados para a missão.

As críticas vieram de todos os lados e principalmente do agora presidiário Lula, que mostra não ter mais forças para mobilizar ninguém. O exército dos ativistas Stédile e Guilherme Castro Boulos, no fim das contas, nada fizeram em defesa de seu outrora líder. Mas nada abalou a confiança daqueles agentes que começaram uma operação de desmonte de um mecanismo de exploração da sociedade em favor de políticos corruptos. Preso mais emblemático da Lava Jato, Lula ainda enfrenta mais seis processos. Ganha o povo brasileiro, ganha a Justiça, ganham todos cidadãos que lutam contra a corrupção, a impunidade e o foro privilegiado. Lula deixa como legado histórico o fato de ser o primeiro ex-presidente preso por crime comum no Brasil. Uma vergonha para todos, de qualquer orientação partidária. E ainda teve militante tentando comparar Lula a Martin Luther King ou Mahatma Gandhi… O resultado final valeu toda a espera por cerca de 27 horas até sua rendição. Fecha-se um capítulo vexatório da história de nossa República.

Termino citando Napoleão Bonaparte: “Nunca interrompa o seu inimigo quando ele está cometendo um erro.”

(*) Carlos Arouck – Agente de Polícia Federal, é graduado em Direito e Administração de empresas, com especialização em gerenciamento empresarial. Já ministrou cursos na área de proteção e vigilância. Instrutor da Academia Nacional de Polícia, trabalhou no setor de segurança de dignitários, estadistas e autoridades, como Papa João Paulo II, Lady Diana Spencer, Imperador Akihito, Mikhail Gorbachev, Margareth Thatcher, entre outros. Participou como agente de segurança dos maiores eventos do País desde a ECO 92, além de audiências, seminários e palestras sobre segurança pública.

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