O assassínio da liberdade

(*) Carlos Brickmann

Sim, a CPI da Covid é importante – mas investiga denúncias de corrupção no Terceiro Mundo. O que acontece agora nos Estados Unidos – e repercute no Brasil – é mais um episódio da tentativa de fazer com que todos pensem a mesma coisa, sob pena do que chamam de “cancelamento”.

Os fatos: o professor Blake Bailey, autor de uma biografia do monumental escritor Philip Roth, foi acusado de estupro por algumas ex-alunas. Devido às acusações, a editora americana WW Norton interrompeu a distribuição do livro; no Brasil, a Cia. das Letras suspendeu a tradução da obra, “dadas as graves acusações de abuso sexual contra Blake Bailey”.

Vamos admitir que o autor tenha cometido todos os crimes de que foi acusado e mais alguns. Deve, diz a lei, ser processado, condenado, cumprir pena. E que é que o livro tem a ver com isso? É preciso saber separar a vida pessoal do autor de sua obra – ou não teríamos no Brasil os poemas de Bocage, condenado e preso pela Inquisição; nada veríamos de Caravaggio, assassino confesso, nem de Cellini, preso por roubar pedras preciosas da tiara papal, assassino de pelo menos três pessoas; não ouviríamos Paganini, preso por dívidas. Ezra Pound traiu os EUA para apoiar os fascistas na guerra.

Chega: que os criminosos paguem por seus crimes, depois do julgamento e da condenação. Mas sua obra não é criminosa. Lembremos a revolucionária polonesa Rosa Luxemburgo: liberdade é sempre a liberdade dos outros.

Todos juntos, vamos

Cacá Diegues, um dos melhores cineastas brasileiros, mostrou há anos como se perseguia o pensamento livre. Todos tinham de pensar igual. Na época, tentaram boicotar Elis Regina por cantar o Hino Nacional nas Olimpíadas do Exército. Atacavam quem tocava guitarra porque brasileiro devia usar só violão ou viola. Cacá denunciou as “patrulhas ideológicas” – e tinha razão. Mais tarde, pudemos ouvir gente que odiava Chico Buarque, não por suas músicas, mas por ser favorável a Lula e Cuba, e por gostar de Paris. Outros passaram a odiar Roman Polanski, acusado de estupro.

Chega: gente é gente, obra é obra. Vale a pena ler o que está nesse ótimo link: http://www.bresserpereira.org.br/terceiros/2020/marco/20.03-Acusacao-de-Polanski.pdf

Trivial diário

E voltemos a nosso dia a dia. A Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a Covid já traz novidades. A primeira: o próprio Governo já listou as maiores burradas que cometeu durante a pandemia, com o objetivo de fazer com que os ministérios dessem explicações. Mas divulgaram a listagem, prontinha para uso da oposição. Temos de lembrar que o relator é Renan Calheiros. Por mais que o senador tenha defeitos, de Senado ele entende. Já conseguiu peitar o então morubixaba do Congresso, José Sarney – para em seguida aliar-se a ele e, juntos, dominarem o Senado. É um adversário temível.

E quem o Governo lança contra ele, no primeiro choque? Carla Zambelli. É de fidelidade total a Bolsonaro. Mas para enfrentar Renan precisa ainda comer muito feijão. Foi surrada: conseguiu uma liminar barrando a candidatura de Renan a relator da CPI. Só que o relator não é eleito, é indicado pelo presidente da CPI (supostamente, aliás, bolsonarista). Renan é o relator, e Carla Zambelli irritou os senadores, por tentar levar a Justiça a interferir em questões internas. A CPI vai pegar fogo. Até o senador Ciro Nogueira, líder do maior partido do Centrão, que obteve de Bolsonaro tudo aquilo que exigiu, até mesmo um Orçamento sob medida, votou para presidente da CPI no candidato que, embora bolsonarista, não era o que Bolsonaro queria. Vão ouvir o general Pazuello, imagine! E Paulo Guedes já está jogando contra.

Ouviram do Posto Ipiranga

Guedes participou ontem de reunião do Conselho de Saúde Suplementar. Até aí, tudo bem. O problema é que resolveu falar. Suas palavras: “O chinês inventou o vírus, mas tem vacinas menos eficientes que as desenvolvidas por empresas americanas”. Por causa de frases como “o chinês inventou o vírus”, a China, maior parceiro comercial do Brasil, talvez não tenha se empenhado tanto em enviar-nos vacinas, obrigando ministros de outras áreas a conversar com Pequim. A chave na liberação do Insumo Farmacêutico Ativo foi, sem dúvida, a ministra mais eficiente (e mais silenciosa) do Governo: Tereza Cristina, da Agricultura, que conseguiu manter as exportações agrícolas em alta apesar dos insultos, em público, de Eduardo “Bananinha” Bolsonaro.

Perguntar não ofende

Por que terá o general Mourão lançado o apelido “Bananinha”?

Sem maldade

Paulo Guedes, ao se referir às vacinas, não pretendia ofender os chineses: só queria mostrar que empresas privadas (como as americanas Pfizer e Moderna) são mais eficientes que as estatais.

E são. Por isso, vieram ao Brasil oferecer suas vacinas. Foram ignoradas. Contratos confidenciais foram divulgados para falar mal dos fornecedores. Empresas eficientes querem vender, mas não se amarram a clientes que não querem comprar.

(*) Carlos Brickmann é jornalista e consultor de comunicação. Diretor da Brickmann & Associados, foi colunista, editor-chefe e editor responsável da Folha da Tarde; diretor de telejornalismo da Rede Bandeirantes; repórter especial, editor de Economia, editor de Internacional da Folha de S. Paulo; secretário de Redação e editor da Revista Visão; repórter especial, editor de Internacional, de Política e de Nacional do Jornal da Tarde.

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