Se o governo fosse sério, a abusada e debochada assessora de Anielle Franco já estaria demitida

 
Diziam os romanos à época do império: “A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Pompeia Sula, segunda esposa do ditador Júlio César, caiu em desgraça depois de realizar uma festa só para mulheres em homenagem a “Bona Dea” (Boa deusa). A festança organizada por Sula foi invadida por Públio Pulcro, que, fantasiado de mulher, tentou seduzir a mulher do imperador romano. Público foi julgado e inocentado, pois César não apresentou acusação, mesmo sendo um pretor. Contudo, o imperador separou-se de Pompeia Sula por conta da boataria.

A presente matéria não trata de honestidade, mas de atitudes coerentes por parte de agentes do Estado diante do dinheiro público, que, é bom lembrar, não deveria servir para gastanças. Um conhecido ditado português defende a tese de que “quem nunca comeu melado, quando come se lambuza”.

Ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco requisitou um avião da FAB para viajar à capital paulista, onde, no domingo (24), acompanhou a derrota do Flamengo para o São Paulo Futebol Clube, que diante de mais de 62 mil torcedores conquistou o título inédito da Copa do Brasil, competição que paga os maiores prêmios do futebol nacional.

Anielle foi ao Estádio Cícero Pompeu de Toledo, o lendário Morumbi, para o lançamento de ação do governo de combate ao racismo no esporte. Ocupantes de cargos públicos deveriam se agarrar à coerência antes da tomada de decisões, algo que Anielle talvez desconheça.

A ministra da Igualdade Racial é torcedora do Clube de Regatas Flamengo e poderia, em lapso de coerência, ter agendado o evento para data e local diferentes. Considerando que o governo do presidente Lula está sempre na mira de uma oposição radical e raivosa, todos cuidado é pouco.

Também marcaram presença no Morumbi os ministros Silvio Almeida (Diretos Humanos) e André Fufuca (Esportes). Almeida acompanhou a divulgação, no telão do estádio, do “Disque 100” para violação dos direitos humanos, enquanto Fufuca participou da entrega de medalhas aos jogadores do São Paulo e do Flamengo.

Silvio Almeida viajou a São Paulo em voo comercial, ao passo que André Fufuca requisitou um avião da FAB para percorrer o trajeto entre São Luís (MA) e a capital paulista. Uma viagem em jato oficial entre São Luís e São Paulo custa pelo menos 70 vezes o valor de uma passagem em voo comercial. O ministro do Esporte alegou que recorreu a um avião da FAB porque os voos comerciais entre as duas capitais estavam lotados.

 
Fufuca soube com antecedência que participaria da cerimônia de premiação dos atletas tricolores e rubro-negros, mas preferiu deixar na conta do contribuinte o custo de uma viagem a bordo de avião oficial. Sua assessoria falhou sobejamente ao não planejar a viagem de acordo com o interesse público.

No caso de Anielle Franco a situação é pior. A ministra se fez acompanhar de assessoras, todas torcedoras do Flamengo, que protagonizaram uma fuzarca no avião da FAB enquanto cruzavam os céus da pretérita Pindorama.

Em sua conta no antigo Twitter (agora X), Anielle postou a seguinte mensagem: “Importante reconhecer que práticas de desinformação, manipulação da verdade e a divulgação de noticias [sic] falsas configuraram violência política de Gênero e Raça, na tentativa de impedir o nosso trabalho. Não são ataques à este ministério ou a mim, mas ao povo brasileiro.”

A ministra foi além em suas alegações e publicou: “Inclusive, precisei abrir mão de estar com a minha família e minhas duas filhas em um domingo para ir trabalhar. Quem tem filhas pequenas consegue entender o peso disso”.

Anielle completou: “É inacreditável que uma ministra seja questionada por ir fazer o seu trabalho de combate ao racismo e cumprir o seu dever. Vemos que as noções estão invertidas quando avançamos em um acordo histórico de enfrentamento ao racismo e somos criticados por isso. O que de fato incomoda?”.

O escárnio na seara de Anielle Franco avançou e ficou a cargo de sua assessora especial, a flamenguista Marcelle Decothé, que fez postagens em uma rede social criticando a torcida do São Paulo, a diretoria do Flamengo e a Polícia Federal, enquanto estava no estádio do Morumbi.

 
As postagens de Decothé foram feitas em perfil privado de rede social. A assessora da ministra criticou a torcida tricolor usando linguagem neutra. Afirmou na postagem que é “torcida branca, que não canta, descendente de europeu safade…”. E emendou: “pior tudo de pauliste.”

Marcelle Decothé aproveitou para criticar a diretoria do Rubro-Negro da Gávea e publicou: “independente da diretoria fascista, dos pau no koo [sic] que acha que merece vestir a camisa desse clube, pra sempre Flamengo.”

Ministra Anielle Franco, a CBF é uma entidade privada e milionária que não aceita se submeter ao crivo do Tribunal de Contas da União (TCU), mesmo recebendo recursos advindos das loterias da Caixa Econômica Federal. Em outras palavras, a CBF tem dinheiro de sobra para custear a viagem de seu presidente, Ednaldo Rodrigues, a Brasília para uma cerimônia de assinatura da ação do governo contra o racismo no esporte.

Ademais, depois que inventaram a internet e a assinatura digital, tudo pode ser feito de forma remota, sem prejuízo dos interesses políticos e governamentais. Em suma, a senhora poderia ter participado da final da Copa do Brasil por videoconferência, com a imagem divulgada no telão do estádio.

Sobre o fato de ter de abrir mão de estar com a família e as duas filhas em pleno domingo para trabalhar, a senhora deveria ter pensado duas vezes antes de aceitar o convite do presidente Lula para comandar o Ministério da Igualdade Racial. Até porque, cargo no governo federal nunca foi parque de diversão.

Em seu primeiro governo, Lula chegou a abusar da covardia ao demitir por telefone, em janeiro de 2004, Cristovam Buarque, que à época estava à frente do Ministério da Educação. Caso Lula tivesse o mesmo ímpeto de outrora, a abusada assessora de Anielle Franco já estaria no olho da rua. Quanto a Anielle, uma carraspana em palácio não tem contraindicação.


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