Não é só de água que estamos “por aqui”

(*) Marli Gonçalves

Estamos todos por aqui, até aqui, transbordando, mais do que água, por decepções em série. Lembro de uma comediante de origem francesa que dobrava o “r”, e que agora diria “Estamos porrraqui” e para muitas coisas, que a lista é bem grande.

Um grupo de jovens gaúchos que moram em São Paulo criou um coletivo muito interessante e puseram em prática uma ideia boa e simples como forma de chamar a atenção para a tragédia que se desenrola no Rio Grande do Sul, para que se tenha noção de até onde a água chegou, dois, três ou mais metros em alguns locais. Não só, mas também para alertar sobre a gravidade cada vez mais próxima das catástrofes, das emergências climáticas e a necessidade de preparo antes que aconteçam. Espalharam na Avenida Paulista e em outros centros de atração da Capital adesivos “Água até aqui”, que grudaram bem alto, em vários locais, justamente mostrando a altura de até onde a água chegou, soterrando praticamente cidades e vilas inteiras no Sul do país, com milhares de desabrigados, mais de uma centena de mortos e, ainda, de outra centena de desaparecidos. Pretendem com isso que sintamos e nos coloquemos no lugar dos gaúchos, compreendendo como seria uma inundação como aquela se tivesse ocorrido, por exemplo, aqui em São Paulo. Se bem que já experimentamos umas boas noções a cada chuva mais forte.

Não dá pra deixar de pensar na continuidade dessa ideia com tantos problemas que transbordam diante de nossos olhos, e alguns adesivos teriam de ser afixados não só no alto, mas também até em bueiros. Nos caminhos percorridos pelos poderosos, em seus elevadores, no espelho de seus banheiros, nas etiquetas das roupas que compram. Na caneta com a qual assinam barbaridades. Ia faltar adesivos.

Os gaúchos tornaram real uma vontade que acalento desde que adotei a hashtag #ÁrvoreNãoÉLixeira, uma luta inglória e solitária que encampo contra – e são muitos – quem usa as árvores da cidade para depósito de todo tipo de lixo, ou mesmo aqueles que tentam envenená-las por conta das coitadas espalharem suas folhas, ou atrapalharem a visão de seus letreiros ou garagens. Já vi de um tudo, e nem conto as bobagens ou desculpas esfarrapadas que ouço quando confronto os responsáveis. Pensei há algum tempo se funcionaria um adesivo para protegê-las.

Mas esse é outro assunto. Voltando ao tanto que temos de temas que estamos “por aqui”, enumeramos as tentativas insanas de acabar com direitos adquiridos após tantos anos de luta, as bárbaries perpetradas diariamente contra as mulheres, contra a comunidade LGBTQIA+, o racismo, a violência policial. A falta de atitudes reais.

Repararam? – e apenas um fato entre tantos – repare só: quase todos os motoristas flagrados em acidentes cada vez mais mortais de que temos notícia não só estavam embriagados, como muitos curtindo “rachas”, mas sobretudo sem qualquer habilitação e há muitos anos, colecionando multas, claro que não pagas, andando por ai colocando todos nós em perigo? Só eu e você sabemos disso? Os locais de encontro dos irresponsáveis são públicos e notórios, mas… há algumas blitzes; sempre vejo uma que ocorre na Avenida Europa, nos Jardins, em geral no domingo, hora do almoço, tudo marcadinho e não sou só eu que sei disso, eles também. Ok. Quando os policiais viram as costas, todos voltam com seus possantes numa espécie de desfile, barulhento e muito perigoso, alta velocidade, pista de teste de Ferraris e quetais, acompanhadas por carros mais simples, com motores mexidos. Virou lugar “turístico” e os apreciadores vêm de longe, em grupos, trazem até cadeirinha de praia, se instalam por todo o percurso da avenida.

Estamos por aqui também de tantas mentiras oficiais. Muitas, toda hora, de todas as esferas de poder. E as não-oficiais. Muitas. Fake news pavorosas que já desenham no ar o que será a peleja das próximas eleições. Na área do Judiciário sambam em nossas cabeças, que abaixamos por conhecermos o poder que dali emana, a força daquela mão que pode nos calar, e de vez, como cala muitos setores da imprensa, sinto dizer, infelizmente.

Vão faltar adesivos na praça se essa moda pega. Ficaremos cansados também se, além dos adesivos, começássemos a demonstrar que estamos por aqui, até aqui, ó! usando aquela espécie de continência torta que podemos fazer batendo em nossas testas com a mão reta, mostrando que está ultrapassada a nossa paciência, acima de nosso nariz, do que nossos olhos presenciam, nossos ouvidos tomam conhecimento.

Transbordamos todos os dias, e em todo o país.

(*) Marli Gonçalves – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Site Chumbo Gordo, autora de “Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também”, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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