(*) Gisele Leite
Na derradeira semana de abril do corrente ano, as redes sociais do vereador da cidade de Taubaté João Henrique de Moraes Ramos, alcunhado de João Henrique Dentinho (PP), foram inundadas por posts a respeito do evento “O Farol e a Forja”, curso sobre a masculinidade, que acontecerá em São Paulo no fim de julho, onde existirão palestras sobre liderança masculina e ainda os princípios cristãos.
A propósito, convém recordar que o referido ator confessou não ter vacinado seus primeiros cinco filhos contra a Covid-19, bem como se manifestou ser contrário o direito ao aborto legal em caso de estupro e, assim, assume nitidamente posicionamento de extrema direita.
Ainda não se conhece o conteúdo das palestras. Aliás, o referido ator é tão convencido que se refere a si mesmo na terceira pessoa, como se fosse uma entidade. O vereador Dentinho nem conhece Cazarré pessoalmente, todavia, resolveu ampará-lo.
Tanto que enviou postagens inflamadas para um grupo de WhatsApp que mantém com colegas da Frente Parlamentar da Família, onde prevalecem os mais profundos valores conservadores. E foi das conversas no grupo que surgiu a ignóbil ideia de referendar uma moção de apoio ao ator.
Em meio a tantos requerimentos sobre a infraestrutura urbana e o auxílio-alimentação de pensionistas, fora lida a moção 141 em apoio ao ator e sua família em defesa da liberdade de consciência, do coração em professar valores cristãos e direito de exaltar a paternidade, a masculinidade e ainda a instituição familiar sem ser sob os holofotes do patrulhamento ideológico.
Enfim, a moção fora aprovada por dez votos contra dois. Aliás, o referido ator, formado em Artes Cênicas pela UnB, traz grande ênfase para sua prole a questão da religiosidade, e atesta ser uma qualidade relevantíssima para um pai. Em geral, as moções aprovadas em câmaras municipais sejam positivas ou negativas, referem-se as personagens locais.
Porém, existem exceções, como a de Cazarré, que é nascido em Pelotas (RS), sendo residente no Rio de Janeiro e que nada se relaciona com Taubaté.
Depois de muitas críticas e, sendo anunciado como sendo o maior encontro de homens do Brasil, “O Farol e a Forja” acontecerá no Centro Universitário Católico Ítalo Brasileiro no bairro de Santo Amaro, em São Paulo.
Cumpre destacar, porém, que as estatísticas confirmam que o número de homicídios provocados por homens contra mulheres é muitas vezes maior do que o reverso. O evento tem slogan: “forjando líderes que não se curvam ao caos. Um evento que transforma consciências e desperta o potencial máximo”.
Entre os palestrantes estarão padres, empresários, urologias, psicólogo, pastor, professor de literatura e o lutador Minotauro. Percebe-se que será um grupo eclético de homens, o que inclui até admiradores de Olavo de Carvalho.
Há também o médico Ítalo Marsili que ficou famoso por suas declarações misóginas, quando inclusive atribuiu a crise da democracia ao voto feminino, já que, para obter o voto de uma mulher, é só você seduzi-la”.
Entre as únicas três mulheres confirmadas como palestrantes no dito evento, estão Bárbara Mendes, empresária, Mônica Salgado, jornalista, e a esposa do anfitrião, Letícia Cazarré que é educadora e bióloga.
Convém sublinhar que a ideia do curso não é inédita. Já existiram outros grupos que se propuseram o resgate a masculinidade supostamente perdida do homem contemporâneo, é o caso dos Legendários, divulgado como sendo movimento cristão de imersão masculina, buscando o franco desenvolvimento físico, mental e espiritual.
Outros grupos como a Machonaria, Intellimen da Universal do Reino de Deus, Ministério de Homens, Curso de Hombridade da Christian Men’s Network, todos com pelo menos uma década de existência. São inúmeros os exemplos de iniciativas religiosas que buscam moldar uma masculinidade à luz da religião.
Cazarré, a seu turno, tem procurado frisar que se trata de um evento intelectual. A ideia é criar uma terceira via da masculinidade, diz não fazer do homem um “bunda mole” e nem o red pill. O machismo explícito procura promover a mais genuína masculinidade bruta. É um resgate do abismo moral em que vivemos, confessa o anfitrião.
Entre os piadistas de plantão, Hélio de la Peña manifestou-se criticando e debochando de Cazarré. Aliás, o ator é um exemplo de cancelamento reverso, pois no meio a tantos ataques, consegue até ser promovido.
O segredo para viralizar é mesmo irritar. Aguardemos a forjinha e o farolete. A palavra ‘forja’ tem sua origem no latim ‘fabrica’, que significa ‘oficina’. Passou pelo francês antigo ‘forge’ antes de chegar ao português. Esperemos que a indústria da autoajuda masculina consiga sobreviver…



