Da Grande São Luís ao interior: o desafio de democratizar o desenvolvimento humano no Maranhão

(*) Waldir Maranhão

O avanço do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Região Metropolitana da Grande São Luís representa uma das transformações sociais mais relevantes do Maranhão nas últimas décadas. Em um estado historicamente marcado por desigualdades estruturais, baixos indicadores sociais e concentração de renda, a melhoria dos índices de educação, renda e longevidade demonstra que o desenvolvimento humano é possível quando há combinação entre investimento público, dinamismo econômico e ampliação de oportunidades.

Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Região Metropolitana da Grande São Luís alcançou um dos melhores desempenhos do Nordeste em desenvolvimento humano. O resultado reflete avanços importantes na educação, na geração de renda, na urbanização e na ampliação do acesso a serviços essenciais.

Esse progresso não ocorreu por acaso. Ele está diretamente associado à expansão do ensino, ao fortalecimento das instituições de educação superior, ao crescimento das atividades econômicas ligadas ao complexo portuário, à logística, à indústria e ao setor de serviços. A localização estratégica da capital maranhense, impulsionada pelo Porto do Itaqui e pela conexão com importantes corredores de exportação, ajudou a criar um ambiente econômico mais dinâmico, capaz de gerar empregos, atrair investimentos e ampliar a circulação de renda.

Entretanto, toda comemoração responsável deve vir acompanhada de uma reflexão necessária: até que ponto esse avanço alcança efetivamente os demais municípios da região metropolitana e, principalmente, o interior do Maranhão?

Embora São Luís apresente indicadores mais elevados, a realidade dos municípios metropolitanos ainda é bastante heterogênea. Cidades como Paço do Lumiar, Raposa, São José de Ribamar, Alcântara, Rosário, Bacabeira, Icatu, Morros, Axixá, Santa Rita, Presidente Juscelino e Cachoeira Grande convivem com desafios distintos e níveis variados de acesso à educação, saúde, saneamento, mobilidade e oportunidades econômicas.

Uma média positiva pode revelar progresso, mas também pode ocultar desigualdades territoriais profundas. São Luís concentra hospitais de referência, universidades, empregos qualificados, renda, equipamentos públicos, serviços especializados e grande parte da atividade econômica estadual. Essa centralidade fortalece seus indicadores, mas o desenvolvimento humano não pode permanecer como privilégio da capital.

O IDH não é apenas uma estatística. Ele traduz a qualidade de vida da população. Representa a criança que aprende na escola, o jovem que encontra oportunidades de formação profissional, o trabalhador que conquista emprego digno, a família que tem acesso à saúde pública de qualidade e a comunidade que dispõe de saneamento básico, internet, transporte e segurança. Em outras palavras, discutir desenvolvimento humano é discutir dignidade humana.

Por isso, o grande desafio do Maranhão é transformar o sucesso relativo da Grande São Luís em uma política permanente de desenvolvimento regional. Não basta celebrar posições em rankings ou anunciar obras isoladas. É necessário construir uma estratégia de Estado, com metas claras, planejamento de longo prazo, investimentos contínuos e responsabilidade compartilhada entre governos, parlamentos, setor produtivo e sociedade civil.

Essa estratégia deve começar pela educação. A experiência da Região Metropolitana demonstra que o investimento educacional produz resultados concretos e duradouros. A interiorização do ensino técnico, das universidades, dos institutos federais, das escolas de tempo integral e dos programas de qualificação profissional é fundamental para romper ciclos históricos de pobreza e exclusão social.

Da mesma forma, é urgente ampliar o acesso ao saneamento básico, fortalecer a saúde regionalizada, expandir a conectividade digital e criar condições para que os jovens encontrem oportunidades em suas próprias regiões, reduzindo a migração forçada para os grandes centros urbanos.

O Maranhão possui potencial extraordinário. O agronegócio, a mineração, a pesca, o turismo histórico e ambiental, a bioeconomia, as energias renováveis e a logística podem funcionar como motores de crescimento em diversas regiões do estado. Contudo, sem uma distribuição equilibrada das oportunidades, continuaremos convivendo com ilhas de prosperidade cercadas por bolsões de pobreza.

Outro aspecto essencial é o fortalecimento da cooperação regional. A experiência metropolitana demonstra que problemas relacionados à mobilidade, saneamento, habitação, saúde, meio ambiente e geração de empregos não respeitam limites administrativos. Por isso, exigem soluções integradas e planejamento compartilhado entre os municípios.

Esse debate precisa ocupar espaço central na agenda pública maranhense. Os candidatos ao governo estadual, os deputados estaduais, os deputados federais e os senadores devem apresentar propostas concretas para reduzir as desigualdades entre a capital, os municípios metropolitanos e o interior. O desenvolvimento humano precisa deixar de ser uma pauta técnica para se tornar uma prioridade política.

O crescimento do IDH na Região Metropolitana da Grande São Luís deve ser visto como motivo de orgulho e, ao mesmo tempo, como prova de que o Maranhão tem capacidade de avançar socialmente quando existem planejamento, investimento e continuidade administrativa. O desafio agora é transformar esse avanço localizado em um projeto abrangente de desenvolvimento humano para todo o estado.

A verdadeira vitória não será alcançada quando São Luís subir algumas posições nos rankings nacionais, mas quando cada maranhense, independentemente do município onde vive, tiver acesso real às mesmas oportunidades de educação, saúde, renda e qualidade de vida.

O Maranhão somente será plenamente desenvolvido quando o progresso da capital deixar de ser uma exceção e passar a representar uma realidade compartilhada por todo o estado.

(*) Waldir Maranhão – Médico veterinário e ex-reitor da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), onde lecionou durante anos, foi deputado federal, 1º vice-presidente e presidente da Câmara dos Deputados. É membro da Academia Brasileira de Ciências, Artes, História e Literatura.

As informações e opiniões contidas no texto são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo obrigatoriamente o pensamento e a linha editorial deste site de notícias.