
A cada dois anos, na temporada eleitoral, o Brasil é transformado em vasto terreno da mitomania. Com o intuito de conquistar os votos dos eleitores, candidatos fazem promessas absurdas, cientes de que não terão condições de cumpri-las. Tal postura não é privilégio dessa ou daquela corrente ideológica ou política, mas de todas.
Senador pelo Rio de Janeiro e candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro vem se apresentando como derradeiro salvador da pátria. Ousa falar em democracia, ao mesmo tempo em que almeja anistiar o pai, Jair Bolsonaro, condenado a 27 nos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
No campo da economia, Flávio escalou Daniella Marques para cuidar do tema. Em entrevista à rádio CBN, na terça-feira (18), Daniella disse que Flávio Bolsonaro é um político experiente.
Como senador, ao longo de quase oito anos de mandato, Flávio apresentou 62 projetos de lei de sua autoria. Destes, apenas dois foram aprovados nas comissões ou no plenário do Senado, mas nenhum completou o crivo do Congresso para virar lei em caráter definitivo. Apenas um projeto de autoria geral do Congresso, em que Flávio atuou como coautor, virou lei. Se Daniella Marques considera tal desempenho parlamentar como experiência política, alguém precisa explicar o que é incompetência.
Enquanto deputado estadual no Rio de Janeiro, a alegada experiência de Flávio abriu caminho para o esquema criminoso das rachadinhas, em desfavor dos servidores do seu então gabinete na Alerj. Além disso, o tal político experiente empregou no gabinete a mãe e a esposa de Adriano Magalhães da Nóbrega, que comandava a milícia na comunidade de Rio das Pedras e foi um dos fundadores do grupo de matadores e aluguel conhecido como “Escritório do Crime”.
Em relação à questão fiscal, Daniella Marques defendeu o corte de gastos, assunto que alcança as malfadadas emendas parlamentares, desprovidas de transparência e em alguns casos é alvo de desvio de recursos públicos. É importante lembrar que Jair Bolsonaro, à sombra de flagrante incompetência como governante, permitiu que o Congresso Nacional avançasse de forma voraz sobre o Orçamento., o que lhe garantiu governabilidade.
É importante lembrar que em 2022 o governo golpista de Jair Bolsonaro limitou o pagamento de precatórios por meio da chamada PEC dos Precatórios (Emendas Constitucionais 113 e 114), aprovada no final de 2021. A manobra abriu espaço de cerca de R$ 65 bilhões no Orçamento daquele ano, permitindo o financiamento de programas sociais (como o Auxílio Brasil) e o cumprimento do teto de gastos, mas resultou no adiamento de dezenas de bilhões de reais em obrigações de pagamento.
Daniella Marques destacou durante a entrevista que o governo Bolsonaro “bancarizou” 20 milhões de brasileiros durante a pandemia por meio do “Caixa Tem”, mas silenciou em relação aos 700 mil mortos vítimas de um negacionismo torpe e desumano.
Inobstante, a guru econômica de Flávio Bolsonaro recorreu à desfaçatez ao creditar o sistema de pagamento Pix ao governo golpista. O projeto foi iniciado em 2016 pelo Banco Central, então sob o comando do economista Ilan Goldfajn, indicado ao posto pelo então presidente em exercício Michel Temer e por Henrique Meirelles, à época titular da Fazenda.
Em 2018, quando Jair Bolsonaro sequer era presidente, foi criado um grupo de trabalho com mais de 130 representantes do mercado financeiro e do governo. O engenheiro Carlos Eduardo Brandt liderou a equipe técnica responsável pelo desenvolvimento e implantação operacional do sistema.
Causa espécie o fato de Daniella Marques querer transferir a paternidade do Pix ao ex-presidente golpista, sistema que entrou na mira do governo de Donald Trump após pedido de Flávio e Eduardo Bolsonaro para que a Casa Branca impusesse sanções ao Brasil, como forma de interferir nas eleições.
Soa estranho alguém que tem posição de destaque na campanha de Flávio Bolsonaro e decide incensar supostas realizações do governo anterior. Isso mostra que Flávio não tem projeto de governo, pois tem se dedicado a atacar o presidente Lula e o Supremo Tribunal Federal, que em 2025 condenou o pai à prisão.




