Fictor: escândalo é muito maior e mais grave tecnicamente que a fraude bilionária do Master

Maior fraude bancária da história nacional, o caso do Banco Master trouxe a reboque um escândalo muito maior em termos de práticas delituosas, não em valores financeiros. Trata-se do escândalo bilionário envolvendo as empresas Fictor Holding e Fictor Invest, que de forma inescrupulosa atropelaram todas as regras contábeis e do mercado de investimentos.

O desmoronamento da Fictor avançava de maneira lenta, mas ganhou forte impulso na esteira do anúncio da proposta de compra do Banco Master, em parceria com supostos investidores de Dubai. À época, a oferta foi interpretada como desculpa para a pretensa fuga de Daniel Vorcaro, dono do Master.

Torre de papel

Em 17 de novembro de 2025, quando a Fictor anunciou a intenção de adquirir o controle do Master por R$ 3 bilhões, uma empresa de sócios da holding inflou o capital da companhia no mesmo valor. A manobra foi operada pela Giuseppe Holding S.A., imediatamente rebatizada como RPR Capital e na sequência nominada GPP Participações S.A., que continua com Rafael Paixão Giuseppe como único sócio e diretor.

A Fictor turbinou o capital social com títulos do finado Banco do Estado de Santa Catarina (BESC), extinto em abril de 2009. A operação repetiu o padrão usado pelo Banco Master no esquema com fundos da Reag Investimentos.

Vorcaro foi preso pela Polícia Federal em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando, a bordo de avião particular, estava prestes a viajar para Malta.

Na sequência, as ações da Fictor Invest entraram em processo de derretimento gradual, movimento que cresceu sobremaneira com o não pagamento mensal de rendimentos aos investidores que, ludibriados, aportaram recursos na plataforma Fictor Agro (comercializadora de grãos).

Investimentos dessa natureza não podem, de acordo com a lei, remunerar mensalmente os investidores, operação restrita a instituições financeiras. A Fictor Agro, na modalidade de Sociedade em Conta de Participação (SCP), só poderia distribuir dividendos aos investidores ao final de cada operação, com o compromisso de regularmente prestar informações sobre o investimento.

Desmoronamento esperado

A ruína da Fictor ganhou tração quando a empresa deixou de honrar os pedidos de resgate dos valores aportados pelos investidores. Esse quadro de dificuldade ficou claro em meados de dezembro passado, quando a desconfiança dos investidores correu como rastilho de pólvora.

No início de janeiro, o UCHO.INFO tentou contato por telefone com os sócios e diretores da Fictor: Rafael de Góis (sócio fundador e diretor-geral), Phillippe Rubini (sócio e diretor de relações corporativas) e Rafael Paixão Giuseppe (sócio e responsável pelos departamentos financeiro e de commodities). Outros nomes importantes na gestão da holding e da Fictor Alimentos são Raul Nascimento (diretor financeiro) e André Vasconcellos (diretor de estratégia).

Apesar da dificuldade em contatar os responsáveis pela Fictor, finalmente conseguimos conversar por telefone com Wesley Rodrigues, diretor-executivo da Fictor. Wesley solicitou que direcionássemos as perguntas à assessoria de imprensa da empresa.

Em seu perfil na rede LinkedIn, Wesley Rodrigues, contrariamente ao escândalo da Fictor, se apresenta como “Consultor Financeiro – Desenvolvendo projetos financeiros personalizados. Planejamento para proteção familiar, blindagem de patrimônio e sucessão; identificando as reais necessidades financeiras de uma pessoa, família e/ou empresa, criando uma blindagem patrimonial através da transferência dos riscos baseados em planos totalmente analisados, estudados e personalizados.”

Local incerto

O UCHO.INFO tentou, sem sucesso, contato com Rafael Ribeiro Leite de Gois, diretor-geral da Fictor, em quatro telefones fixos e em 17 celulares registrados em seu nome. Também tentamos localizá-lo em dois endereços.

Em São Paulo, em condomínio localizado no bairro Campo Belo, onde apartamentos são comercializados por até US$ 1 milhão, os porteiros preferiram desconversar.

No Rio de Janeiro, procuramos Rafael de Gois em quatro endereços distintos (3 na Barra da Tijuca e 1 na Ilha do Governador). Nos três condomínios localizados na Barra da Tijuca, os porteiros alegaram desconhecer o principal sócio da Fictor. Na casa localizada no Jardim Guanabara, na Ilha do Governador, ninguém atendeu.

Respostas evasivas

Em 6 de janeiro, questionamos o assessor de imprensa sobre o atraso enfrentado pelos investidores em relação à remuneração mensal dos investimentos e ao resgate dos valores aportados.

Resposta: “Informamos que ocorreram atrasos pontuais na recompra da posição de alguns cotistas. A Fictor está atuando para regularizar os repasses o mais breve possível, mantendo seus compromissos com a transparência no relacionamento com os cotistas.”

Sobre a modalidade de investimento, o assessor de imprensa afirmou se tratar de SCP: “A Fictor Invest esclarece que as estruturas mencionadas são Sociedades em Conta de Participação (SCPs), regularmente constituídas e operadas em conformidade com o Código Civil brasileiro, não se tratando de valores mobiliários sujeitos à supervisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).”

Perguntado sobre o atraso no resgate dos valores investidos, a Fictor, por meio da assessoria, respondeu: “Os pedidos de resgate formulados por alguns cotistas não foram negados, tampouco houve interrupção definitiva de pagamentos. Ocorrências específicas no processamento de determinados pedidos estão sendo tratadas, sem alteração da estrutura contratual vigente.”

Chamou a atenção o fato de a Fictor interromper abruptamente o pagamento da remuneração dos valores aportados pelos investidores, o que configura operação financeira que deve ser fiscalizada pelo Banco Central. Todos os meses, a Fictor pagava em média aos investidores 1,6% sobre o valor investido, além de 0,5% aos agentes responsáveis pela captação dos recursos.

A repentina suspensão do pagamento dos dividendos mensais e o não cumprimento dos pedidos de resgate dos valores investidos levaram o UCHO.INFO a questionar a Fictor sobre a existência de uma pirâmide financeira, que entra em colapso quando cai o afluxo de recursos na base, impossibilitando honrar os compromissos assumidos com aqueles que estão em níveis acima.

Eis a resposta: “Não procede qualquer associação das SCPs administradas pela Fictor Invest a práticas de pirâmide financeira. As operações possuem contratos formais, participação nos resultados e estrutura jurídica compatível com o modelo de SCP, inexistindo oferta pública, captação indiscriminada ou dependência da entrada de novos participantes… A Fictor Invest atua com plena observância da legislação aplicável, mantendo seu compromisso com a legalidade, a boa-fé contratual e a transparência institucional.”

Apesar do teor da resposta acima, os incautos que aportaram recursos nas SCPs administradas pela Fictor não receberam os dividendos prometidos, apesar de a empresa negar tal procedimento, assim como não conseguiram resgatar os valores investidos. Não por acaso, os lesados pela Fictor criaram às pressas uma associação para cobrar R$ 4 bilhões da empresa.

Na questão acima, a Fictor se posicionou de forma evasiva: “As manifestações registradas em plataformas públicas de reclamação vêm sendo tratadas caso a caso e não significam quaisquer irregularidades nas operações.”

O assessor de imprensa da Fictor negou a existência de “oferta pública, captação indiscriminada ou dependência da entrada de novos participantes”. No contraponto, o UCHO.INFO tem relatos e depoimentos de várias pessoas que foram cooptadas por agentes da Fictor para aportar recursos nas SCPs.

A assessoria foi além e afirmou que “SPC não é investimento. A pessoa faz aporte de capital numa empresa que pode ter bons resultados ou não. Portanto não é correto tratar SPC como investimento.” Pois bem, se SPC não é investimento, como de fato não é, a Fictor adota discurso contraditório, já que pagava mensalmente aos investidores valor a título de remuneração, sem comprometer o resultado do respectivo dividendo (bom ou ruim).

Tergiversação programada

Em 12 de janeiro, a diretoria da Fictor, já ciente da insolvência da empresa, divulgou comunicado interno para tentar acalmar os agentes captadores de recursos, que estavam sob forte pressão dos clientes/investidores. A Fictor, como mostra a imagem abaixo, informou que os pagamentos seriam regularizados no dia seguinte, 13 de janeiro.

No mesmo dia, horas mais tarde, a Fictor divulgou novo comunicado interno informando que os pagamentos foram reprogramados para 12 de fevereiro (remunerações e resgates). A Fictor abre o comunicado afirmando: “Estamos atravessando um momento atípico na história da companhia. Um ambiente de maior exposição e pressão midiática, aliado a ajustes operacionais decorrentes de relações com fornecedores estratégicos, gerou um desafio temporário de liquidez e de timing operacional.” (Clique e confira a íntegra do comunicado)


 
No dia 15 de janeiro, um novo comunicado interno foi divulgado pela Fictor, contradizendo-se mais uma vez. No documento (imagem abaixo), a empresa alega ter decidido não divulgar novas datas de pagamento “até que todos os recursos estejam validados e disponíveis para liquidação”.

Em 22 de janeiro, um consultor da Fictor compartilha com colegas de trabalho áudio relatando a difícil situação da empresa, além de informações sobre reunião entre Rafael de Góis e um cliente, ocasião em que teria sido aventada a venda de parte dos ativos da companhia para solucionar as muitas pendências com os investidores.


 
Em 27 de janeiro, outro comunicado é divulgado pela Fictor, desta vez a clientes, assessores e parceiros. No documento, a Fictor reafirma seu compromisso com a transparência e informa que divulgará na próxima semana a data e o local onde receberá presencialmente clientes, assessores e/ou representantes legais”. (Clique para a íntegra do comunicado)

Em 1º de fevereiro, um domingo, a Fictor Holding e a Fictor Invest protocolaram pedido de recuperação judicial. O objetivo da medida, de acordo com a direção da Fictor, é “equilibrar a operação e assegurar o pagamento dos compromissos financeiros”, que somam cerca de R$ 4 bilhões.

Saída pela tangente

Temendo que todas as empresas do grupo sejam englobadas na recuperação judicial, a diretoria da empresa optou por uma jogada arriscada. Os principais consultores que atuavam na Fictor Invest foram contratados pela Fictor Asset, com salário mensal muito acima da média do mercado – nos bastidores fala-se em R$ 30 mil mensais.

A heterodoxa investida tem como objetivo manter os clientes que aportaram recursos no FIDC Fictor (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Fictor), evitando que os investidores, assustados com o escândalo, requeiram resgate dos valores investidos.

O FDIC Fictor aloca recursos em recebíveis, como duplicatas, cheques e outros direitos creditórios.

Em determinado grupo de mensagens criado por consultores da Fictor Invest, a maioria abandonada, um dos integrantes publicou áudio contundente.

Na gravação, o integrante do grupo afirma que os consultores que migraram para a Fictor Asset passaram de vítimas a cúmplices. Ele alerta que o caso tem chance de acabar na delegacia.

O autor da gravação vai além e afirma estar disposto a colaborar com a Justiça e os investigadores, a quem entregaria informações comprometedoras sobre criatividade contábil, movimentações suspeitas de recursos e operações com criptomoedas, entre outras transgressões.


 
Manobra desesperada

Ao protocolar na Justiça de São Paulo pedido de recuperação judicial, a Fictor classificou as vítimas da pirâmide financeira como credores da empresa, o que é fato.

Com as entranhas da fraude expostas à luz, a direção da Fictor, ciente de que o revés tem ingredientes para alcançar com facilidade a esfera penal, enviou aos investidores um comunicado no qual informa sobre o rompimento do contrato firmado entre a empresa e os desavisados que investiram recursos no grupo, na expectativa de receberem rendimentos mensais e auferirem lucro ao final das operações.

Caso os contratos com os investidores tivessem um fundo de verdade, bastava a Fictor vender as operações, destinando o dinheiro ao ressarcimento das vítimas do golpe. Tal hipótese jamais chegará ao terreno da realidade, pois está-se diante de inegável pirâmide financeira que sempre teve no topo os diretores da própria empresa.

Além das fronteiras

Em março de 2024, enquanto o roteiro da Fictor caminhava na direção do escândalo bilionário, Rafael de Góis criou no estado estadunidense da Florida, em parceria com os sócios brasileiros Rafael Paixão Ferreira Giuseppe e Luiz Phillippe Rubini, a empresa Fictor US (Florida) LLC. A empresa foi registrada no seguinte endereço: 201 SE 2nd Avenue, conjunto 2615, no centro de Miami. No documento de constituição consta o nome de Bruna Maccari como agente registradora. (Para visualizar os documentos de constituição da empresa clique Florida 1Florida 2Florida 3)

Limited Liability Company (LLC) é uma estrutura empresarial nos Estados Unidos que combina a proteção de ativos pessoais de uma corporação com a flexibilidade operacional e fiscal de uma sociedade. A LLC protege o patrimônio pessoal dos proprietários (chamados de membros) contra dívidas e processos judiciais da empresa, além de permitir o repasse de lucros diretamente aos membros.

Um ano e sete meses depois, em 14 de outubro de 2025, a Fictor US (Florida) LLC foi dissolvida por decisão dos sócios Rafael de Góis e Rafael Paixão Ferreira Giuseppe. (Clique Florida 4 para visualizar o documento de dissolução)

Meses antes, em abril de 2025, à sombra de mais um rompante de megalomania, Rafael de Góis anunciou a contratação de Jay Pelosky, ex-estrategista-chefe de mercados emergentes e gestor global de portfólios do Morgan Stanley, para dar suporte ao braço ianque da Fictor.

Em 28 de agosto de 2024, Rafael de Gois criou também na Florida a empresa Fictor US LLC, cujos documentos foram registrados no estado de Delaware, considerado o principal paraíso fiscal interno dos Estados Unidos. No documento de constituição da empresa, o nome de Bruna Maccari aparece, ao lado do de Rafael Góis, como diretora administrativa. Coincidência ou não, Maccari é especializada em garimpar criptomoedas a custo menor. (Para visualizar os documentos de constituição da empresa clique Doc 1Doc 2Doc 3Doc 4)

Não satisfeito com a presença da Fictor nos Estados Unidos, Rafael de Gois rumou à Europa, aterrissando em Portugal. No número 252 da elegante Avenida da Liberdade, em Lisboa, a Fictor abriu seu primeiro escritório europeu. Estranhamente, apesar do domínio da empresa na internet ter a extensão “.pt” (fictor.pt), o telefone que consta na página eletrônica é o mesmo da matriz no Brasil.

Resumo da ópera

A extensão do crime em pauta comprova que, como citado acima, em termos operacionais o escândalo protagonizado pela Fictor é muitas vezes maior e mais grave que o do Banco Master.

As empresas apresentadas como sendo do grupo Fictor não foram encontradas pelos peritos. Laudo emitido por uma consultoria no âmbito do processo de recuperação judicial da Fictor apontou uma série de inconsistências e inatividades em diversos endereços de subsidiárias da companhia.

O laudo é de suma importância, já que servirá de base para a Justiça determinar se apenas Fictor Holding e a Fictor Invest farão parte da proposta de recuperação, como querem os diretores da empesa, ou se as subsidiárias também serão agregadas plano.

Em qualquer país minimamente sério, que combate com firmeza crimes financeiros, os diretores da Fictor já estariam atrás das grades. Não se trata de ignorar a presunção de inocência e impedir o direito à ampla de defesa, mas de proteger aqueles que apostaram suas suadas economias em um projeto que, na verdade, era movido pelos ventos da fraude e da megalomania.