Inteligência artificial e trabalho: quem ganha e quem perde com a nova automação?

(*) Waldir Maranhão

A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa distante. Ela já está presente em escritórios, escolas, empresas, serviços públicos, plataformas digitais e sistemas de comunicação. Em poucos anos, ferramentas de IA passaram a escrever textos, resumir documentos, produzir imagens, programar códigos, atender clientes e apoiar decisões empresariais.

Mas, por trás do entusiasmo, existe uma pergunta urgente: quem será beneficiado por essa transformação e quem será deixado para trás?

IA não é apenas uma ferramenta

Durante muito tempo, tratamos a tecnologia como um instrumento criado para auxiliar o trabalho humano. No caso da Inteligência Artificial, essa visão já não é suficiente.

Os sistemas atuais não são programados passo a passo como os softwares tradicionais. Eles são treinados com enormes quantidades de dados: textos, imagens, sons, códigos, comportamentos e interações humanas. A partir disso, desenvolvem capacidades que nem sempre são totalmente compreendidas por seus próprios criadores.

Esse funcionamento transforma a IA em uma espécie de “caixa preta”. Sabemos o que entra e o que sai, mas nem sempre sabemos exatamente como determinada resposta ou decisão foi produzida.

Quando essa tecnologia é usada em áreas sensíveis, como contratação de trabalhadores, concessão de crédito, vigilância, saúde, educação ou gestão pública, a falta de transparência deixa de ser um problema técnico. Torna-se um problema social e democrático.

Quebra da escada de carreira

Durante décadas, a sociedade sustentou uma promessa: estudar, qualificar-se, entrar no mercado de trabalho por funções iniciais e crescer profissionalmente. Essa era a chamada escada de carreira.

A Inteligência Artificial ameaça justamente os primeiros degraus dessa escada.

Atividades antes realizadas por estagiários, assistentes, analistas júnior, redatores, tradutores, revisores, atendentes e programadores iniciantes já podem ser parcialmente automatizadas. Isso significa que muitos jovens podem encontrar menos oportunidades de entrada no mercado.

O risco não está apenas na substituição imediata de empregos. Está também na perda de espaços de aprendizado. Se as tarefas iniciais forem feitas por máquinas, como os novos profissionais ganharão experiência? Como surgirão os futuros especialistas?

A automação pode criar uma geração altamente escolarizada, mas com poucas oportunidades reais de desenvolvimento profissional.

Produtividade sem distribuição

Defensores da IA afirmam que ela aumentará a produtividade. Isso pode ser verdade. Mas a pergunta social mais importante é outra: quem ficará com os ganhos dessa produtividade?

Se uma empresa produz mais com menos trabalhadores, seus lucros podem crescer. Mas isso não significa, automaticamente, melhores salários, redução da jornada ou melhoria da qualidade de vida da população.

Sem regulação, os ganhos da IA tendem a se concentrar nas grandes empresas que controlam os modelos, os dados e a infraestrutura tecnológica. Enquanto isso, trabalhadores podem enfrentar desemprego, rebaixamento salarial, intensificação do trabalho e perda de autonomia.

A história mostra que inovação tecnológica não garante justiça social. A tecnologia pode libertar ou explorar. Pode distribuir riqueza ou concentrá-la. Tudo depende das escolhas políticas feitas pela sociedade.

Novos impérios digitais

O desenvolvimento da IA exige três elementos fundamentais: dados, poder computacional e capital financeiro. Poucas empresas no mundo possuem esses recursos em grande escala.

Isso cria uma concentração de poder preocupante. Grandes corporações passam a controlar não apenas ferramentas tecnológicas, mas também dados, infraestrutura, conhecimento e parte da própria narrativa sobre o futuro.

Além disso, muitos sistemas de IA foram treinados com textos, imagens, músicas, códigos, pesquisas e obras culturais produzidas por milhões de pessoas. Em muitos casos, esse material foi utilizado sem autorização clara, sem remuneração adequada e sem mecanismos transparentes de reparação.

A sociedade produz conhecimento. As empresas capturam esse conhecimento, treinam seus sistemas e vendem soluções altamente lucrativas. Esse modelo precisa ser debatido.

Trabalho no centro da regulação

A resposta à IA não pode ser apenas individual. Não basta dizer que cada trabalhador deve “se adaptar” ou “aprender novas habilidades”. Essa narrativa transfere para o indivíduo uma responsabilidade que é coletiva.

É necessário construir políticas públicas capazes de proteger trabalhadores e distribuir os benefícios da automação.

Isso inclui transparência no uso de IA pelas empresas, direito de contestação de decisões automatizadas, proteção contra demissões em massa, requalificação profissional financiada por quem lucra com a automação, tributação dos ganhos extraordinários e fortalecimento da seguridade social.

Conclusão

A Inteligência Artificial pode ser uma ferramenta poderosa. Mas, se for deixada apenas sob o comando do mercado, poderá ampliar desigualdades, precarizar profissões e concentrar ainda mais riqueza.

O futuro do trabalho não será definido apenas pela capacidade das máquinas. Será definido pelas decisões políticas tomadas agora.

A pergunta central não é se a IA deve existir. A pergunta é: a serviço de quem ela será colocada?

(*) Waldir Maranhão – Médico veterinário e ex-reitor da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), onde lecionou durante anos, foi deputado federal, 1º vice-presidente e presidente da Câmara dos Deputados. É membro da Academia Brasileira de Ciências, Artes, História e Literatura.

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