Há 44 anos torço contra a seleção, Ancelotti me deu motivo para continuar

(*) Ucho Haddad

Minha saudosa avó materna, Alice, foi quem me apresentou ao futebol. Acompanhamos a Copa do Mundo de 1966 ao pé de um antigo e vistoso rádio que ficava imponente na sala. Dizia ela, em tom quase profético, que o melhor é não discutir futebol, política e religião.

Apesar do amor e respeito que sempre tive por minha avó, equilibrada em seus gestos e pensamentos, fui obrigado a contrariá-la desde cedo. Não discuto religião, opino sobre política – faz parte da profissão – e critico com veemência a seleção brasileira, que alguns sabujos insistem em escrever com letras maiúsculas.

Desde 1982 torço contra a seleção. Já se vão 44 anos de torcida contra, pois entendo que futebol virou negócio, um jogo de cena que causa engulhos. Somente quem conhece os bastidores do esporte bretão há de compreender meu posicionamento, que jamais escondi. Torcedor inveterado do Corinthians, não pouco o time do coração das minhas críticas.

Nos estádios, brasileiros confundem torcida com patriotismo. É impossível confundir uma coisa com outra. O meu sonho – inalcançável – é ver o mesmo contingente de torcedores da seleção defendo a democracia. A amarelinha, como é chamada a camisa da seleção, virou uniforme de golpistas.

Quando desembarquei na Europa para atuar como repórter, na década de 1980, não demorou muito para que fosse questionado sobre os muitos absurdos que brotam diuturnamente no Brasil. Por razões óbvias fui obrigado a não responder. Afinal, o inexplicável não tem explicação. De lá para cá nada mudou. Talvez tenha mudado para pior.

Hoje, 18 de maio de 2026, acompanhei o anúncio da CBF sobre os convocados para integrar a seleção que disputará a Copa do Mundo, no Canadá, Estados Unidos e México.

Confesso que imaginava ser o treinador Carlo Ancelotti, comandante da seleção brasileira, minimamente coerente. Sou fã de futebol, mas não ouso dizer que entendo sobre futebol mais que Ancelotti.

Nas últimas semanas, a insistência da imprensa em explorar a presença de Neymar na seleção não me surpreendeu. A polarização que se formou na órbita da convocação de Neymar foi a senha para os veículos de comunicação faturarem muito. Além disso, o staff de Neymar deve ter desembolsado muito dinheiro para custear um lobby vergonhoso e condenável.

Festejado em todos os quadrantes do planeta como um bem-sucedido treinador de futebol, tendo comandado verdadeiras constelações de atletas, Carlo Ancelotti decepcionou ao convocar Neymar, não sem antes cometer injustiças inaceitáveis.

Ao explicar os critérios para a convocação, mesmo antes do anúncio, Ancelotti disse que não cede a pressões e considera questões além do desempenho técnico de cada jogador. Disse que se preocupa com o ambiente da seleção.

“É uma lista feita com muita observação durante os anos. Feita com competência, paixão e conhecimento. Foi muito bom. Vai ser uma lista perfeita? Acho que não. Mas vai ser uma lista com a menor quantidade de erros possíveis para termos a oportunidade de fazer uma Copa do Mundo espetacular”, declarou Ancelotti.

Repito que tenho consciência estar aquém da competência de Ancelotti como treinador, mas falar em “conhecimento” sugere que o manda-chuva da seleção conhece nada quando o assunto é Neymar.

Sobre não ceder a pressões, Carlo Ancelotti também me decepcionou. Um salário de 10 milhões de euros por ano – livre de impostos – faz milagres. Caso Ancelotti permaneça à frente da seleção até a Copa de 2030, como prevê o contrato renovado recentemente, serão mais 40 milhões de euros no bolso do italiano.

A convocação de Neymar premiou o deboche, o não comprometimento, a falta de compromisso, o destempero emocional de um ex-jogador em atividade, que está a anos-luz do que acredita ser.

A inclusão do nome de Neymar na lista de convocados para a Copa me leva a modificar um famoso dito popular: “manda quem pode, obedece quem não tem juízo”.

Se Carlo Ancelotti tem juízo não sei, mas dou ao treinador o direito de provar o contrário. Resta saber se Ancelotti terá coragem suficiente para deixar o garotinho mimado em fim de carreira, com 34 anos, no banco de reservas.

Diferentemente de pessoas próximas, não deixarei de acompanhar os jogos da Copa do Mundo, em especial os da seleção brasileira, mas desde já lembro que torcerei contra com todas as forças. Torço contra porque sou brasileiro o tempo todo, há quase sete décadas, não de quatro em quatro anos. Além disso, coerência é o que me move.

(*) Ucho Haddad é jornalista político e investigativo, analista e comentarista político, fotógrafo por devoção.