Milagre da multiplicação: depois do Master, denúncia aponta ‘créditos sem lastro’ no Grupo Monte Carlo

Enquanto o País ainda digere o escândalo do Banco Master, que a cada semana ganha novos capítulos, denúncia apresentada à Justiça de São Paulo aponta uma lógica parecida, em outra escala e em setor distinto.

O alvo da denúncia é o Grupo Monte Carlo, dono da Rede de Postos Monte Carlo e da Transportadora Monte Carlo TMC, em recuperação judicial desde 2016.

No caso do Master, uma das principais acusações gira em torno da emissão de títulos de crédito falsos e carteiras sem lastro real; no caso Monte Carlo, a suspeita é de que abastecimentos de combustível que não teriam ocorrido possivelmente foram transformados em créditos, recebíveis e cobranças judiciais.

A denúncia sustenta que a transportadora do grupo teria usado postos da própria Rede Monte Carlo para registrar abastecimentos sem correspondência física real dentro de um sistema de gestão de frotas de uma das grandes fornecedoras do setor.

Tais lançamentos, de acordo com o dossiê apresentado à Justiça, a que o UCHO.INFO teve acesso, teriam gerado crédito no sistema, permitido antecipação de recebíveis e servido depois como base para cobranças fraudulentas. A auditoria aponta mais de R$ 4 milhões em abastecimentos registrados e cerca de R$ 3 milhões em antecipações financeiras no período analisado.

O contraste chama atenção: enquanto a transportadora ligada ao grupo está em recuperação judicial, a Rede Monte Carlo seguiu em expansão. A própria empresa afirma ter mais de 70 unidades em 8 estados e descreve uma trajetória recente de crescimento, com profissionalização em 2016, expansão estratégica em 2018, avanço rodoviário em 2021, chegada ao Paraná e Santa Catarina em 2022 e nova sede em São José do Rio Preto em 2023.

Em 2022, a imprensa noticiou que a Monte Carlo captou R$ 130 milhões através de Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) próprio; à época, executivos falavam em receita de aproximadamente R$ 2,2 bilhões, plano de chegar a 100 unidades e faturamento superior a R$ 5 bilhões até 2024.

É mandatório que a Justiça brasileira esteja atenta a esses malabarismos, pois com o passar do tempo o instituto da recuperação judicial tem gerado uma desconfiança crescente, causando enormes prejuízos aos credores. Como exemplo pode-se citar os casos dos grupos 123 Milhas e Fictor, este último teve a ousadia de fazer proposta para comprar o agora liquidado Banco Master, de Daniel Vorcaro. [Fotos reprodução internet]