Compliance Zero: dados da PF mostram que Jaques Wagner deve deixar a liderança do governo

Líder do governo Lula no Senado Federal, o petista Jaques Wagner insiste em permanecer no cargo depois da divulgação de informações sobre sua relação com o liquidado Banco Master.

No primeiro momento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por um voto de confiança ao senador, mas nas últimas horas, com a revelação de novas informações, a situação de Jaques Wagner piorou sobremaneira. Apesar da resistência do senador, Lula deve determinar sua imediata saída do cargo.

Informações preliminares dão conta que Jaques Wagner deve renunciar no máximo até terça-feira (23). Até a confirmação da sua saída, o estrago na campanha de Lula pela reeleição terá crescido.

Jaques Wagner tem direito à presunção de inocência, como qualquer cidadão, mas deveria poupar o País dessas intempéries políticas causadas pelo Master. Para tanto, o parlamentar poderia recorrer a um ato de grandeza e renunciar sem a pressão palaciana.

Divulgados nesta segunda-feira (22), novos dados das investigações da Operação Compliance Zero mostram que Wagner tinha interesse nas pautas favoráveis ao master. De acordo com a Polícia Federal, conversas do senador petista mostram que ele tinha “engajamento com as pautas de interesse do banco” e indicam a realização de encontros para tratar de projetos relacionados diretamente ao Master.

“No amplo quadro de elementos informativos obtidos a partir dos celulares apreendidos, existem indícios que o Senador JAQUES WAGNER exerceu o mandato parlamentar de forma alinhada aos interesses econômicos do Banco Master. Essa atuação não se manifesta em ato único e isolado, mas em padrão contínuo, sistemático e documentado de engajamento pessoal do Senador da República em pautas favoráveis ao conglomerado financeiro, notadamente no período de 2022 a 2025, concomitante com a ascensão da organização criminosa”, escreveu a PF.

Em 25 de agosto de 2024, Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, contatou o senador para marcar um encontro. Em resposta, Jaques Wagner enviou um áudio ao empresário dizendo que queria conversar sobre o banco e tratar das eleições municipais daquele ano.

“Oi, Guga. Rapaz, eu tô dedicando o domingo aos netos, então eu tô desde umas dez e meia indo da casa de um pro outro… não vai dar pra gente ir não. Vamos marcar outra hora… agora, se estiver em Brasília, vamos marcar que eu precisava conversar com você pra saber como estão as coisas do banco… quero lhe passar como é que estão as questões da eleição, aí se você estiver em Brasília, me fale. Eu tô indo pra Brasília amanhã oito horas da manhã. Abraço”, disse Wagner, de acordo com a transcrição feita pela PF da mensagem de áudio.

A exemplo do que acontece por ocasião de escândalos de corrupção, o senador Jaques Wagner alega inocência e afirma que a verdade há de prevalecer. O ainda líder do governo tem direito à ampla defesa e ao devido processo legal, mas as provas coletadas pela PF não deixam espaço para dúvidas.

É importante lembrar que no âmbito de caso menos grave, o então presidente Itamar Franco afastou Henrique Hargreaves do comando da Casa Civil, ao mesmo tempo em que deu à PF “carta branca” para investigar denúncias de corrupção. Tempos depois, sem que a PF tivesse encontrado qualquer indício de irregularidade, Hargreaves voltou ao posto mais forte do que antes.

Jaques Wagner deveria apresentar pedido de licença do mandato de senador para se dedicar àprópria defesa. Resta saber se o senador tem coragem à altura do que a situação exige.