Condenado à prisão por homicídio decide mandar parte da política do Maranhão pelos ares

Condenado pelo assassinato de um empresário maranhense, Gilbson Cutrim Júnior afirmou à Polícia Federal, em depoimento, que frequentava o Palácio dos Leões, sede do Executivo do Maranhão, para reuniões com o governador Carlos Brandão (MDB) e seu sobrinho, Daniel Brandão, afastado da presidência do Tribunal de Contas do Estado por decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).

“Eu tinha uma vaga [de garagem] no Palácio dos Leões. Eu chegava, entrava, a vaga número 6”, disse. Ele também detalhou o envolvimento de um desembargador em suposto pagamento de propina para que ele permanecesse em silêncio.

Gilbson foi condenado por matar o empresário João Bosco Sobrinho em um centro comercial de São Luís, em agosto de 2022. De acordo com decisões do STF, há indícios de que o homicídio esteja relacionado à divisão de propinas no estado.

O depoimento foi prestado a uma delegada da Polícia Federal e um procurador da República em 24 de junho de 2025, no âmbito da investigação que, naquele momento, tramitava no Superior Tribunal de Justiça (STJ). O caso chegou ao STF em outubro passado, quando o ministro Flávio Dino foi escolhido relator por meio de sorteio eletrônico.

Depoimento

Gilbson revelou à PF que era aliado de Carlos Brandão, com quem teve várias reuniões a partir de 2021, quando ele ainda era vice-governador.

Brandão assumiu o governo do estado em abril de 2022, com a saída do então governador Flávio Dino para concorrer ao Senado. Em outubro daquele ano, Brandão foi reeleito.

Logo nas primeiras reuniões, Carlos Brandão teria colocado Gilbson em contato com seu sobrinho, Daniel Brandão, que em 2023 foi nomeado conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA).

Na segunda-feira (17), por decisão de Dino, que atendeu a pedido da PF, Daniel foi afastado do cargo por 180 dias

No depoimento, Gilbson Cutrim Júnior afirmou que as reuniões iniciais com Carlos e Daniel Brandão serviram para tratar da venda de terras no estado.

‘Pô, o tio disse que era pra mim [sic] resolver algumas coisas contigo aí de interesse total dele, e nosso também, porque eu tenho uma área lá nessas terras também’“, teria dito Daniel a Gilbson.

O negócio com as terras acabou não se concretizando, mas marcou o início da aproximação entre Gilbson Júnior e o grupo político de Carlos Brandão.

“Eu tinha uma vaga no Palácio dos Leões. Eu chegava, entrava, a vaga número 6, aí sempre era registrado em ata a minha visita, mas, geralmente eu falava pro Daniel, e eu entrava pela área de vivência do governador, aí subia a escada, aí tinha um salão”, disse.

“No Palácio eu registrei umas três vezes [a entrada], porque depois eles me deram uma vaga lá, vaga seis. E disseram: ‘Oh, tu pode chegar que eu dei uma ordem lá pra oficial pra tu entrar’“, revelou.

“Aí foi se passando, Brandão, Carlos Brandão, governador, aí começava a me chamar direto lá no Palácio dos Leões, aí Daniel começou já falar em outras coisas comigo”, relatou Gilbson.

Homicídio

A Polícia Civil do Maranhão concluiu, inicialmente, que Gilbson Júnior baleou João Bosco Sobrinho por desavença pessoal. Gilbson respondeu sozinho pelo crime e foi condenado pela Justiça maranhense, em 2024, a 13 anos de prisão.

Em 2025, com Gilbson Júnior cumprindo pena em um presídio do Maranhão, o que contrariou a expectativa da família de que ele seria solto em pouco tempo, seus pais e sua esposa procuraram a Polícia Federal para relatar nova versão sobre o assassinato. A partir das informações, a PF concluiu que foi cometido por desentendimento sobre divisão de dinheiro de propina.

Enquanto o caso tramitava no STJ, Gilbson afirmou à Corte que uma empresa envolvida no suposto esquema de desvios de dinheiro público recebera pagamento do governo estadual. Pelo acordo, parte do pagamento deveria ser repassada ao grupo do governador Carlos Brandão.

A empresa em questão tinha dívidas trabalhistas, o que levou ao bloqueio judicial dos recursos provenientes do pagamento feito pelo governo maranhense. Diante de tal fato, faltou numerário suficiente para fazer o repasse ilícito.

“Aí quando houve o pagamento começou uma pressão muito grande pra dar um jeito de pagar, porque eu disse: ‘Rapaz tem a dívida trabalhista.’ Aí eu fui conversar com Daniel pra resolver, só que ele saiu, lá no escritório, no Palácio, saiu, aí o Beto [outro investigado] ligando: ‘Rapaz, oh, a gente vai pagar o outro, mas a gente quer logo a metade desse aí. A gente pagou setecentos e poucos mil reais, (…) trezentos e cinquenta mil tem que pagar.’ (…) Eu: ‘Rapaz, eu te expliquei que isso aí tinha dívida trabalhista’“, relatou Gilbson Júnior.

A partir desse fato, de acordo com depoimento, a família de Gilbson Júnior passou a receber pagamentos mensais em dinheiro vivo para comprar seu silêncio. “No começo era quarenta mil [reais], pra mim nem sair de casa. Depois que o Brandão se elegeu aí caiu pra trinta, por último só tava quinze mil por mês”, disse.

De acordo com o depoente, os pagamentos eram intermediados por Raimundo Cutrim (ex-deputado estadual e delegado da PF aposentado), por um homem identificado como Júnior Cabeção, juntamente com o advogado Flávio Costa, nomeado, em 2026, desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão pelo governador Carlos Brandão, em vaga do “quinto constitucional”.

“Levava em espécie. Era o Cutrim, entregava em espécie, e o Júnior Cabeção, porque o Júnior Cabeção mais o Flávio é que faz toda a operação, inclusive têm as gravações de áudio, não sei se vocês já tiveram acesso”, disse Gilbson.