Dupla face: Flávio votou a favor do fim da escala 6×1, mas sinaliza que pode rever regra

Apesar de ter votado a favor da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala de trabalho 6×1, o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, externou a aliados o desejo de rever as novas regras laborais, caso saia vitorioso das urnas.

De acordo com relatos de pessoas próximas ao parlamentar e de representantes do setor empresarial, Flávio teria afirmado que alguns pontos da proposta da oposição, apresentada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), poderão ser rediscutidas no Congresso em eventual novo governo.

O texto defendido pela oposição prevê a possibilidade de adoção de modelos mais flexíveis de jornada, com regras negociadas entre empregadores e trabalhadores. A proposta tem sido criticada por integrantes da base governista, já que a remuneração seria calculada de acordo com a quantidade de horas efetivamente trabalhadas. O trabalhador poderia optar por dois dias de folga por semana, mas sem remuneração.

Enquanto o governo Lula trabalhou para acelerar a tramitação da PEC antes do segundo turno, aliados do presidente cobravam de Flávio um posicionamento público sobre a matéria. Diante da pressão, o senador declarou apoio à proposta governista.

Discursos contra

Em maio, o senador classificou a iniciativa como “inoportuna e eleitoreira”, apontou “grande carga de hipocrisia” na discussão da matéria e alertou para o risco de “desemprego em massa”.

“Todo mundo é a favor que se trabalhe menos e se ganhe mais. Só que, infelizmente, não é a realidade estar nesse projeto de lei apresentado pelo governo em ano eleitoral, com uma grande carga de hipocrisia e interesse nas eleições. Ele tenta vender uma solução fácil para a população que não vai resolver, vai gerar desemprego em massa, vai gerar aumento do custo de vida e vai prejudicar mais os trabalhadores do que ajudar, ao contrário do que muita gente pensa”, disse o presidenciável do PL.

Na mesma ocasião, defendeu que os trabalhadores pudessem definir seus horários conforme as próprias necessidades, com pagamento proporcional às horas trabalhadas. “A remuneração por hora trabalhada traz liberdade, aumento da renda e proteção. Quem quer trabalhar mais ganha mais. Quem precisa de menos horas tem essa liberdade”, afirmou em nota.

Em agosto, com a PEC em processo de análise no Senado, Flávio passou a ser questionado sobre como votaria. “Nós vamos fazer muito melhor para os trabalhadores brasileiros. Nós vamos trabalhar pela liberdade, para que o trabalhador brasileiro possa escolher a sua própria carga de horário, como é que vai trabalhar”, declarou.

Um dia depois, Flávio Bolsonaro voltou a falar sobre o tema: “O que a gente está defendendo? É a liberdade. Você vai ter todos os seus direitos trabalhistas garantidos como estão na Constituição Federal. Mas vai trabalhar quantas horas você quiser, você vai montar a sua escala de trabalho”.

Ignorando o trabalhador

Nos bastidores, interlocutores afirmam que Flávio Bolsonaro tem buscado tranquilizar empresários contrários ao texto. A intenção, segundo aliados, seria preservar o fim da escala 6×1, ao mesmo tempo em que se ampliariam mecanismos para acordos diretos entre empresas e trabalhadores.

Flávio considera promover ajustes na proposta após as eleições, mas qualquer alteração só será possível caso seja eleito. Considerando que a PEC será promulgada na próxima semana, Flávio terá de vencer a corrida presidencial e, empossado no cargo, enviar nova PEC ao Congresso.

Hipocrisia

Flávio Bolsonaro, que desde os 19 anos vive às custas do suado dinheiro do contribuinte, jamais soube o que é trabalhar seis dias por semana.

Há dias, em evento na cidade de São Paulo, Flávio prometeu montar uma equipe para “tirar o peso do Estado de quem quer empreender” e afirmou que a anulação das normas é uma medida já preparada.

Beira a galhofa a declaração de Flávio Bolsonaro sobre empreendedorismo. Mesmo tendo especialização em empreendedorismo pela Fundação Getulio Vargas (FGV), Flávio empreendeu apenas uma vez na vida, em uma loja franqueada de chocolate que serviu principalmente para lavar dinheiro. (Foto destaque: Evaristo Sá – AFP)