Ninguém dá aquilo que não tem

(*) Linoel Dias

Entre o discurso e a capacidade de realizar existe uma distância que a política não pode esconder.

Ninguém chega ao topo sem algum talento, conhecimento, capacidade ou, pelo menos, uma boa dose de convencimento. Entretanto, na política, transformar essas qualidades em realizações concretas é outra história. Há uma enorme distância entre conquistar o poder e demonstrar competência para exercê-lo.

Vivemos tempos em que as palavras parecem ter perdido o peso da responsabilidade. Nos discursos, nos debates e no calor dos embates políticos, pequenas frases podem produzir enormes estragos. Falta, muitas vezes, aquilo que deveria ser uma das maiores virtudes de quem ocupa uma posição de autoridade: a sensibilidade de saber quando falar e, principalmente, quando se calar.

Quem não se lembra de manifestações públicas de um ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, como “Perdeu, Mané, não amole” ou “Derrotamos o bolsonarismo”? Independentemente das posições políticas de cada um, são expressões que merecem reflexão quando pronunciadas por alguém que ocupou uma das mais altas funções da República.

O que se espera de um ministro, de um chefe de Estado, de um parlamentar ou de qualquer autoridade pública não é a exibição de preferências pessoais, muito menos a comemoração de vitórias sobre adversários. Esperam-se equilíbrio, prudência, imparcialidade, respeito às instituições e, acima de tudo, palavras e decisões que contribuam para a boa convivência coletiva.

A autoridade não se mede pelo volume da voz, pela quantidade de seguidores ou pela capacidade de derrotar adversários. Mede-se pela grandeza das atitudes, pela coerência entre o que se fala e o que se pratica e pela disposição de colocar os interesses da nação acima das conveniências pessoais.

Chegamos ao segundo turno, a etapa decisiva da vida política brasileira profundamente divididos. Confesso minha dificuldade em acreditar nas promessas que ouvimos e, muito menos, em aceitar discursos que apresentam soluções para todos os problemas, como se governar fosse uma tarefa simples. Prometer é fácil; realizar exige preparo, caráter, competência e compromisso público.

Mais do que nunca, precisamos de um Congresso Nacional forte, independente, responsável e composto por homens e mulheres com verdadeiro lastro moral, intelectual e político. Precisamos de representantes que compreendam a dimensão da missão que receberam das urnas, e não de personagens interessados apenas na manutenção de seus mandatos, privilégios e espaços de poder.

Afinal, ninguém dá aquilo que não tem! Não se pode oferecer equilíbrio sem equilíbrio, honestidade sem honestidade, conhecimento sem preparo, respeito sem respeito e competência sem capacidade para exercê-la.

A política, enquanto atividade essencialmente humana, destinada à organização da sociedade e à administração dos interesses coletivos, está naturalmente sujeita a erros. O problema maior não está na política em si, mas naqueles que dela se apropriam para satisfazer seus egos, alimentar suas ambições e perpetuar-se no poder. Quando os interesses pessoais se sobrepõem aos interesses da população, a finalidade da representação pública fica comprometida.

Entretanto, nem tudo está perdido!

O Brasil é muito maior do que seus escândalos, suas falcatruas, suas corrupções e seus maus representantes. Uma nação não pode ser definida apenas por aqueles que momentaneamente ocupam seus palácios, ministérios ou casas legislativas. Há um povo trabalhador, famílias de bem, instituições que resistem e pessoas que ainda acreditam na ética, na justiça, na honestidade e na possibilidade de dias melhores.

Precisamos fazer a nossa parte: votar com consciência, cobrar com responsabilidade, fiscalizar com independência e jamais confundir fé com preferência partidária. Nenhum político é salvador da pátria, nenhum governante é dono do país e nenhum mandato é um cheque em branco concedido pelo eleitor.

E, quando as incertezas humanas parecem maiores do que nossas esperanças, podemos encontrar segurança em uma autoridade que está acima de todos os homens, governos, circunstâncias e situações: DEUS!

A Palavra nos ensina, no Salmo 33:12: “Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor.”

Que essa verdade nos inspire não à acomodação, mas à responsabilidade; não à omissão, mas à prática do bem; não à divisão, mas à construção de pontes. Porque a fé não nos dispensa de agir, assim como a confiança em Deus não nos isenta de escolher, vigiar e cobrar daqueles a quem confiamos os destinos da nação.

Que tenhamos governantes com sabedoria, legisladores com caráter, autoridades com equilíbrio e cidadãos com consciência.

Afinal, o poder é passageiro, os cargos são temporários, mas as consequências das nossas escolhas permanecem na história.

Ninguém dá aquilo que não tem. Mas uma nação pode e deve exigir daqueles que a representam aquilo que ela merece: honestidade, competência, justiça e compromisso com o bem comum.

Que Deus continue abençoando e guardando o nosso Brasil!

(*) Linoel Dias é jornalista e colunista do “Coisas de Agora”

As informações e opiniões contidas no texto são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo obrigatoriamente o pensamento e a linha editorial deste site de notícias.