Constrangidos e vazados

    (*) Marli Gonçalves –

    Nosso avião nem sai do lugar. Quando sai, ainda fica mudando de plataforma e a gente pulando mais do que perereca no pântano dos aeroportos. Nossos segredos vazam mais do que os córregos em dias de chuva, e a gente nem mais se constrange. Nunca antes nesse mundo todo quem tem a hierarquia não preza mais por ela, a vergonha sumiu e a memória vai acabar virando uma nova bactéria, alimentada por outros gases. Os hilariantes.

    Mais do mesmo, que já foi, mas volta. Até aí, ninguém esperava mesmo muitas mudanças. Falo do Novo Governo, que vocês bem estão vendo, integrado quase que completamente pelo velho. Ou por piores. Li outro dia uma frase genial no Twitter: “parece que Dilma está convidando Lula para ser presidente da República, e ele vai aceitar”. Genial. Mas maldade, porque a coisa agora deve é ficar mais precisa, finalmente. Compraremos os aviões mais caros da França, porque compraremos. Os ministros faltantes nos tribunais devem finalmente ser indicados, a partir de critérios discutíveis – sejam eles quais forem. O Exército ocupa alguns morros e o tráfico vai acabar. Pelo menos naqueles terreiros. O pré-sal é mais embaixo, o Planalto mais acima.

    E quando nos preparávamos para o Bye-Bye monumental, somos surpreendidos como nunca antes nesse país – e não só pelos documentos secretos vazados, que enrubesceram até os pelinhos dos maiores dirigentes mundiais, que se descobriram fofocados. Ficamos tristes, magoados, foi com o sincero e guardado desabafo de Lula sobre o seu aviãozinho do poder. Imagine aquele, mais novinho, um brinquedinho, e ele tem nos deixado cons-tran-gi-dos perante o mundo, oh, dó! Por não possuir autonomia suficiente para ir lá… bem looooooonge.

    Gente! Precisamos comprar outro, rápido! Nosso Air Force One emborcou.

    A situação do Rio de Janeiro, nossa Haiti, fotografada e radiografada, reproduzida no mundo? Isso não constrange. A corrupção? Ora, bolas, do que é que vocês estão falando? A falta de estrutura para a Copa e outros esportes que ganhamos como endereço? “No final dá tudo certo”, dizem os otimistas, principalmente os que vão encher o bolso na Hora H, longe do crivo de concorrências, porque já-já virarão emergências. Também não devemos nos constranger por ver voltar quem ainda nem julgado foi, ou outros alguns que deixaram o caráter na maternidade, quando nasceram.

    Por favor, nada de se constranger com nossos índices de analfabetismo. Agora haverá até certa representação no Congresso, junto com as loiras separadas. Também não se constranja ao cair na buraqueira das estradas federais. Pense mais elevado! Olhe para o céu e veja que teremos um avião mais autônomo, que poderá levar todos os responsáveis para lá de Bagdá.

    Não vejo também porque se constranger com a violência. Reparou que até ela já está, digamos, cooptada? Já viu os anúncios do “idolatrado” Rapper MV Bill, néé Alex Pereira Barbosa, bajulando o Bolsa-Família? Mano, o cara é ativista com obras publicadas: Cabeça de Porco, Falcão – Meninos do Tráfico, Falcão – Mulheres do Tráfico. Cineasta, com obras como Falcão – Meninos do Tráfico, Sonhos Roubados e participação naquele programa educativo, sabe qual? – o Malhação, da TV Globo. Tem mais, a discografia: Traficando Informação, Declaração de Guerra, Falcão- o Bagulho é doido, Causa e Efeito

    Só cantando, comigo, no ritmo, no repente, o rap que fiz. Vem! É só se embalar como se alguém estivesse te dando um tranco, um solavanco. Pá. Pá. Pá – igual tiro.
    “Não./ Não vaze agora./ Seus olhos não podem chorar./ A verdade é dura./ Alguém tem que dizer. /Eu posso receber da Petrobras./ Da Pretobras./ Não./ Não vaze agora./ Seus olhos não podem chorar./ A verdade é dura./ Alguém tem que dizer./ Eu posso receber, da Petrobras, da Pretobras”… /(Repita 5 vezes)

    “Mano, não. /Não vaze agora./ Você tem que aguentar.; Vida dura essa. / De pop star. / “(3X)

    Era. Era para estar festejando a integração progressista da pessoa na pessoa, louvando o fim do preconceito contra as mulheres, os negros, os rappers e outros. Era para estar achando o máximo a entrada do MV Bill na casa de milhões. Era.

    Mas não consigo deixar de pensar na falsidade dessas aberturas, na verdade pequenas compras do cotidiano, que incluem revistas, jornais, blogs, todos na cestinha das mesmas agências dos ministérios, das estatais, das vestais. Vejo a lista de Medalhados dos Últimos Dias, e fico embasbacada. Primeiro, porque essa gente já foi séria um dia. Eu estava lá, brigando ao lado deles.

    Mas agora, vazei. Devo já fazer parte dessa nova forma de vida que está tentando se criar, respirando outros ares, descoberta que pode nos levar até a entender outras formas de vida.

    Já não era sem tempo. Que outros gases possam ser assimilados.

    São Paulo, sem planejamento e quase parada, quente e entupida, 2010

    (*) Marli Gonçalves é jornalista. Mano, o bagulho é mesmo doido. O tiro, mortal. E o crack, crack, crack é mais do que um barulho que está tombando nossos jovens acocorados nas esquinas planas da vida. É um som constrangedor

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