Com o dólar a R$ 4,39, Paulo Guedes, sua avó não compraria LP do Roberto e diria que você é o Pateta

(*) Ucho Haddad

Disse certa feita o escritor e poeta britânico Oscar Wilde: “Pouca sinceridade é uma coisa perigosa, muita sinceridade é absolutamente fatal”. Transpondo essa preciosa frase para a mediocridade que emoldura o cotidiano do governo brasileiro, afirmo, com a licença post mortem de Wilde, que o ministro Paulo Guedes, o tal “Posto Ipiranga”, deveria pedir para sair.

Paulo Guedes, você é o tipo do ser humano que não aprende com os erros. Calado é um poeta, falando é um fanfarrão. Quando tenta consertar as próprias pataquadas, mostra certa intimidade com a idiotia. Não que você seja um idiota completo, mas se descuidar… Eu, como sempre afirmo e escrevo, sou o melhor produtos dos meus próprios erros. Não tivesse errado, ministro, eu seria ainda mais chato. E Vossa Excelência certamente não me suportaria.

Dado à soberba, você, Paulo Guedes, ofendeu as empregadas domésticas ao afirmar, durante palestra, que com o dólar baixo, a R$ 1,80, era uma “festa danada” e que elas não paravam de viajar para a Disneylândia. Empertigado e metido a gênio, você acredita pertencer a uma casta de superiores que pode desqualificar o ser humano apenas porque está ministro de Estado, porque tem um punhado de dinheiro no bolso, no banco, seja lá onde for. Confesso que prefiro limpar latrina a integrar o governo de um desqualificado, amante de ditadores e adorador de torturadores. Você, Guedes, deveria ter vergonha de ser ministro de um governo marcado pela incúria.

Às vezes, ministro de araque, fico a pensar que na sua casa existe um cômodo reservado só para o besteirol. Em termos de destampatórios, Paulo Guedes, você só perde para o patrão, que, convenhamos, é “hors concours”.

À sorrelfa, você disse, após a repercussão negativa da sua desastrada declaração, que usou tom professoral ao referir-se às domésticas enquanto falava sobre o câmbio. Além de tudo, Paulo Guedes, você é covarde. Esse tom professoral não convence nem mesmo no curso de marafonas. Autodidata, fui professor universitário por conta de notório saber, algo que por certo os imbecis desconhecem, mas jamais usei esse tom professoral a que você se refere na lida com meus alunos, os quais me fazem festa até hoje quando me encontram nas estradas da vida.

Não convencido com o desastre provocado por sua declaração, você resolveu ir além. Surgiu em cena para, ludibriando os incautos, desculpar-se perante as domésticas desse Brasil varonil, ao mesmo tempo que afirmou não ver equívoco na referência discriminatória. Ou seja, seu caso é de internação.

Para provar seu viés elitista, você, Paulo Guedes, no afã de mostrar sua origem humilde – palavra que ignora por completo – resolveu se aventurar na seara da oblação. Revelou, durante cerimônia palaciana, que a mãe do seu pai fora empregada doméstica. Guedes, pelo que aprendi na escola – obviamente que não sou laureado na Universidade de Chicago – a mãe do meu pai é minha avó. Pedante que é, não conseguiu sequer tatalar o fonema “avó”. A mãe do seu pai a essa altura deu piruetas na tumba diante da sua arrogância.

Quando falou em “festa danada” e “viagens das domésticas à Disneylândia”, você afirmou que o dólar nas alturas era bom para todo mundo. Realmente não sei o que passa na sua cabeça, nem como a Universidade de Chicago lhe entregou o diploma, pois um economista que vocifera uma barbaridade como essa deveria estar atrás das grades. A depender do país, no cadafalso, ao som de uma plateia enfurecida e à espera de vê-lo espumar pelo canto da boca.

Guedes, você sugeriu que com o dólar lambendo as nuvens as domésticas deveriam desistir de ir à Disney e viajar a Cachoeiro do Itapemirim, pois assim teriam a oportunidade de conhecer a terra do rei Roberto Carlos. Hoje, quinta-feira, 20 de janeiro de 2020, o dólar flertou com R$ 4,40, mas fechou os negócios do dia cotado a R$ 4,39, maior valor desde a implantação do real. Passados 51 dias do corrente ano, o dólar já valorizou 9,46%, mas seu patrão, sempre apasquinado, insiste em afirmar que agora o Brasil há de avançar. Só se for na direção do pandemônio

Excelentíssimo Paulo Guedes – recorro à formalidade para não descambar e colocar a mãe no olho do furacão –, com o dólar a R$ 4,39 é impossível ir à terra do Rei da Jovem Guarda. Em breve, com o dólar a R$ 4,39, será impossível ir à padaria da esquina comprar o sacro e necessário pãozinho de cada dia. Não sei se lhe contaram, mas o Brasil depende do trigo importado. Não sei se lhe contaram, importações são cotadas em dólar. Mas já estava esquecendo que você, gênio de camelô, disse que o dólar nas alturas é bom para todo mundo.

Ministro, com o dólar a R$ 4,39 seria impossível a mãe do seu pai – para mim ela foi sua avó, mas sua arrogância não permite –, se viva estivesse, comprar um LP do Roberto Carlos, que dirá visitar a terra natal do “Rei”. Ir à Disney para conhecer a Minnie seria um delírio da “nonna”. Ela teria de se contentar em conviver com o neto Pateta, fazendo um esforço danado para não confundi-lo com um dos filhos da mulher do Pluto.

Excelência, dou-lhe o direito de alegar que outras moedas ao redor do planeta também sofreram solavancos diante da divisa ianque e que tudo há de voltar à normalidade. A questão é que por enquanto vivo no Brasil – minha esperança está na danada da Mega-Sena – e, como disse o genial Herbert José de Sousa, o Betinho, “quem tem fome, tem pressa”. E quem tem fome não pode esperar Vossa Excelência despertar para a realidade.

Considerando que você, Paulo Guedes, ao contrário das domésticas que tanto odeia, conseguiu estudar nos “States”, recorro ao pedagogo americano Amos Bronson Alcott (1799-1888), que certa feita disse: “Ignorar a própria ignorância é a doença do ignorante”. Ministro, lamento informar, mas essa sua doença é incurável. Talvez, a essa altura, a mãe do seu pai esteja a gargalhar no esquife.

Que seu patrão é louco de hospício o mundo já sabe, Paulo Guedes, mas aproveito a obsessão dele por demonstrar virilidade – que nas coxias do poder já começa a ser colocada em xeque – para perguntar-lhe se algum momento ouviu falar em “tesão intelectual”. Alguém há de dizer que isso não é assunto para se abordar com ministro, mas para quem ataca domésticas vale tudo e mais um pouco.

Às vezes me pego pensando no que sua “patroa” viu em figura tão tosca e détraqué. Você está longe de ser uma reedição mal-acabada de Apolo, debocha de primeiras-damas como se beleza fosse fundamental, ofende empregadas domésticas e renega o parentesco com a avó. Dizem por aí que dinheiro compra tudo, até felicidade, o que discordo. Dinheiro serve para pagar as contas na data do vencimento – às vezes antes –, para custear viagens, financiar regabofes, mas não compra inteligência e decência. Dinheiro permite inclusive ir à drogaria da esquina comprar aquelas milagrosas pílulas azuis, até porque nesse desgoverno do qual você participa todos (exceto as mulheres) precisam demonstrar macheza, a começar pelo chefão, mas sugiro que pense na possibilidade de a “patroa” não admirar sua genialidade (sic). Na velhice, Guedes – e você está a caminho – é preciso que o cônjuge (não confunda com a “conja” do Moro) tenha admiração pelo outro e vice-versa. E com seu histórico a situação é preocupante.

Para finalizar Paulo Guedes, pedindo desculpas por, a essa altura, abusar da sua massa cinzenta, cito trecho de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, obra do magistral Machado de Assis: “Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, a força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa e a hipocrisia, que é um vício hediondo.”

Passe bem, Pateta!

(*) Ucho Haddad é jornalista político e investigativo, analista e comentarista político, escritor, poeta, palestrante e fotógrafo por devoção.

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