Sem responsabilidade educacional o Brasil continuará andando de lado e o brasileiro permanecerá na miséria

(*) Waldir Maranhão

Os brasileiros foram às urnas para salvar a democracia, mas também em busca de dias melhores, de renovação da esperança e da dignidade da população como um todo.

O gabinete de transição de Lula tem sido alvo de críticas do mercado financeiro, que se agita com a decisão do presidente eleito de priorizar os programas sociais.

Responsabilidade fiscal é importante e necessária, mas não pode existir sem ter a companhia da responsabilidade social. Traduzindo, um governo não pode ser responsável no âmbito fiscal e irresponsável no campo social.

O presidente eleito Lula viajou ao Egito para participar da COP 27, onde foi recebido como “herói” e “rock star”. Em Sharm el-Sheikh, à sombra de um discurso coerente e exuberante, Lula renovou a esperança dos líderes internacionais para um planeta sustentável.

Disse o presidente eleito que abandonar a causa ambiental é abrir caminho para a miséria do planeta. É preciso acabar com a fome no mundo, movimento que passa também pelas questões ambientais.

A preocupação do próximo governo em relação ao benefício do programa Bolsa Família no valor de R$ 600 é importante e válida, mas não podemos fechar os olhos para um setor que continua à margem da democracia: a educação.

Todo homem público responsável tem o dever de pensar o Brasil no longo prazo, o que não significa ignorar as mazelas do momento. O novo governo tem o desafio de acabar com a fome e a miséria, ao mesmo tempo em que precisa preparar o Brasil do futuro. Isso passa obrigatoriamente pela educação de qualidade.

Em artigos anteriores defendi, como sempre, a importância de uma educação de qualidade para todos, pois só assim exerceremos a democracia de forma plena. É impossível falar em futuro sem dar a cada cidadão a mesma oportunidade. Fixar os olhos nas grandes cidades sem olhar para a dura realidade que campeia no restante do país é dar margem à utopia.

Não é de hoje que a economia brasileira anda de lado, registrando crescimento em dois ou três anos, para depois despencar. A partir da virada do milênio, o Brasil mergulhou em um processo de desindustrialização preocupante, tornando-se um país de prestadores de serviços e de exportação de alimentos.

O crescimento econômico precisa ser retomado com urgência, pois do contrário a crise social continuará avançando. Temos a obrigação de planejar o Brasil para os próximos 50 anos, o que significa capacitar e qualificação ao menos duas novas gerações. Capacitação exige educação de qualidade desde a primeira etapa da aprendizagem. A qualificação depende de uma base educacional consistente.

Muito se fala sobre responsabilidade fiscal e responsabilidade social, temas que têm colocado o Brasil na gangorra dos discursos. Como citei acima, a economia e o social devem caminhar de mãos dadas, com a participação obrigatória da educação.

Quem anda pelas grandes cidades brasileiras, principalmente nas capitais, não demora muito a se deparar com a precarização do trabalho. Refiro-me aos bravos brasileiros que, em nome da sobrevivência, se arriscam em meio ao trânsito caótico para fazer entregas das mais variadas. São os entregadores por aplicativos, que se equilibram em cima de motos e bicicletas para ao final do mês levar para casa o sustento da família.

Quantos talentos desperdiçados existem em meio a esses trabalhadores informais? Em um país que carece de talentos, desperdiçá-los é condenar a sociedade ao ostracismo social.

É impossível concordar com o cenário atual, no qual os privilegiados têm acesso ao ensino de qualidade, enquanto a extensa maioria tem de se contentar com uma educação pública que está a léguas de distância do mínimo necessário. Em outras palavras, essa parcela da sociedade está fadada à própria sorte, que nem sempre dá o ar da graça.

A educação pública brasileira exige uma revolução urgente, mudança que está atrasada e precisa ser iniciada de imediato. O mercado, sob a justificativa de que a desatenção com a responsabilidade fiscal prejudica principalmente os mais pobres, não pode pensar apenas no lucro.

Os agentes do mercado, que não devem ser confundidos com investidores no setor produtivo e de infraestrutura, devem despir-se do falso bom-mocismo e começar a se preocupar com o que realmente importa: responsabilidade educacional.

Os brasileiros salvaram uma democracia que estava à beira do precipício, agora cabe aos representantes do Estado tirar a educação pública do fundo do poço.

(*) Waldir Maranhão – Médico veterinário e ex-reitor da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), onde lecionou durante anos, foi deputado federal, 1º vice-presidente e presidente da Câmara dos Deputados.

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