
É além de nauseante a atuação dos grandes veículos de comunicação do País contra a democracia, apesar de alguns jornalistas ousarem nos discursos em defesa do Estado de Direito e da liberdade de informação.
O UCHO.INFO sempre defendeu e defende a liberdade de imprensa, mas é preciso responsabilidade no exercício do jornalismo. A busca pelos chamados “furos de reportagens” tornou-se obsessão nas redações, induzindo o leitor a inimagináveis erros de interpretação do que é noticiado com alarde inaceitável.
Com a disputada presidencial cada vez mais acirrada e o avanço dos escândalos que têm produzido estragos no Supremo Tribunal Federal (STF), o vazamento de dados de investigações impulsiona o sensacionalismo jornalístico.
Na terça-feira (22), a jornalista Malu Gaspar, de O Globo, noticiou que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, após encontro com Lula no Palácio do Planalto, teria enviado uma garrafa de whisky ao presidente da República, como se tal fato significasse vínculo do petista com a bilionária fraude operada pelo Banco Master.
Em mensagem extraída do celular de Vorcaro, o advogado Walffrido Warde informa ao então banqueiro: “Estive com o PR (presidente) hoje. Ele me perguntou se você estava bem e mais tranquilo. Eu lhe disse que sim. Ele agradeceu mais uma vez o whisky e mandou um abraço. Outros detalhes eu conto pessoalmente”.
A quem interessa tal vazamento? Divulgar tal informação, sem qualquer tipo de comprovação, denota que alguém será beneficiado. Além disso, a mensagem de Warde pode ser fruto de invencionice para impressionar o então banqueiro, que à época tinha a chave de um cofre tão recheado quanto criminoso.
Outra notícia que revela o questionável nível do jornalismo brasileiro trata de investigação sobre a atuação da lobista Roberta Luchsinger, citada nas matérias (Estadão, Folha e O Globo) como “amiga de Lulinha”.
“Mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular da empresária Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, mostram que ela determinou a um funcionário que fizesse depósitos nas contas de dois funcionários do Ministério do Desenvolvimento Social, comandado pelo ministro Wellington Dias”, destaca o jornal O Globo.
“A Polícia Federal encontrou menção a um contrato da lobista Roberta Luchsinger com a petroquímica Unigel, que, no atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fechou acordo com a Petrobras para encerrar disputa bilionária e ainda fez R$ 176,8 milhões em negócios sem licitação com a estatal”, informa o Estadão.
A Folha traz a seguinte manchete: “Lobista amiga de Lulinha tinha dinheiro em malas e pagou a funcionários de ministério de Lula, diz PF”.
Caso fique devidamente comprovado o cometimento de ilícitos por parte de Luchsinger, que ela responda por seus atos perante a Justiça. Associá-la a Lulinha sem a apresentação de ao menos uma prova do envolvimento do filho do presidente é jornalismo rasteiro.
Muito estranhamente, os grandes veículos de imprensa parecem ter esquecido que Flávio Bolsonaro, filho de um golpista condenado e preso, obteve R$ 61 milhões dos R$ 134 milhões solicitados a Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, montante enviado a um fundo de investimentos sediado nos Estados Unidos, o que pode configurar lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Amnésia de conveniência
A grande imprensa prefere ignorar que o clã Bolsonaro, liderado pelo golpista Jair Bolsonaro, esteve envolvido em escândalos como o das joias presenteadas por autoridades estrangeiras e vendidas nos Estados Unidos, o caso das rachadinhas, a Abin paralela, o genocídio na pandemia, a atuação do estafeta Fabrício Queiroz, a relação com o miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega e a milícia de Rio das Pedras (Zona Oeste do RJ) e a emenda parlamentar negociada com um dos envolvidos no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.
Se a ordem do dia nas grandes redações é causar ruído, sugerimos um recuo na linha do tempo, com parada no período de 2012 a 2014, quando Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo que busca a reeleição, era diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de transportes (Dnit) no governo da petista Dilma Rousseff.
Tarcísio, que hoje demoniza o PT em seus discursos de campanha, assinou contratos do Dnit que foram alvo de investigações no âmbito da Operação Circuito Fechado da Polícia Federal.
Matéria do Estadão, do competente jornalista Fausto Macedo, revela que o primeiro contrato com a Business To Technology (B2T) para fornecer licenças de programas de computador para o Dnit foi assinado por Tarcísio em 14 de agosto de 2012, no valor de R$ 11,7 milhões. Nos anos seguintes, mais dois aditivos tiveram o aval do agora governador de SP, elevando o negócio para R$ 22,6 milhões. De acordo com a PF, não há qualquer evidência de que o serviço tenha sido prestado e a suspeita é de que as contratações serviram de fachada para o dinheiro ser desviado.
Ainda de acordo com a PF, Tarcísio de Freitas ignorou alertas de irregularidades ao assinar os contratos com a B2T. A Advocacia-Geral da União (AGU) apontou ao Dnit a necessidade de comprovar que os preços apresentados pela empresa eram compatíveis com os praticados no mercado. Um parecer da Procuradoria Federal Especializada que atua no órgão também pedia para a equipe responsável pela contratação esclarecer “as razões que motivaram o pleito”.
Em 13 de agosto de 2012, Tarcísio assinou relatório “aprovando a realização do processo licitatório”. No documento, Tarcísio não menciona os alertas e justifica que havia recursos para a contratação.
Os aditivos também foram alvo de questionamentos, ignorados pelo então diretor do Dnit, o que foi destacado no inquérito. “Mesmo assim (diante das irregularidades apontadas), no dia 15/10/2014, (…) Tarcísio Gomes de Freitas e o diretor-presidente da B2T, Nelmar de Castro Batista, assinaram o segundo termo aditivo (…), no valor total de R$ 4,18 milhões, sendo que mais da metade desse valor (…) foi destinada aos serviços de consultoria e de treinamento, serviços que podem propiciar o desvio de recursos públicos”, registra o inquérito.





