(*) Ucho Haddad
A polêmica que surgiu a partir da possibilidade de retirada do título de “Padroeira do Brasil” de Nossa Senhora Aparecida movimenta a reta final do primeiro turno da corrida presidencial, mas algo grave não tem merecido a devida atenção.
Neste 28 de setembro, Dia Mundial do Jornalismo, manifesto minha solidariedade à jornalista Maria Cristina Fernandes (Valor, CBN e GloboNews), vítima de achincalhe criminoso e covarde por parte de alguns veículos de imprensa, a começar pela GloboNews.
Diferentemente do que afirmam alguns incautos e desaforados, Maria Cristina em momento algum afirmou que o senador Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A jornalista afirmou, na GloboNews, que há na Igreja Católica a desconfiança de que Flávio, se eleito presidente, poderá levar a ideia adiante.
Em declaração recente, Flávio Bolsonaro afirmou que, caso suba a rampa do Palácio do Planalto, um dos seus primeiros atos será “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O candidato da direita extremista se apresenta como evangélico, mas recorre a padre e a pai de santo.
Há uma enorme diferença entre a fala de Maria Cristina Fernandes e a repercussão distorcida da preocupação da cúpula da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), alvo de ataques do presidenciável do PL, que tenta minimizar o estrago.
O comportamento dos profissionais de imprensa é e sempre será pendular: ora corporativista, ora autofágico. Já fui vítima dessa canalhice e sei muito bem como os “coleguinhas” agem. Raros são os que têm coragem de se posicionar a favor de quem tem a honra ultrajada. Certa feita, um jornalista ousou apresentar moção contra mim na Associação Brasileira de Imprensa pelo simples fato de ter revelado informações baseadas na verdade dos fatos.
No caso de Maria Cristina Fernandes a situação é de extrema gravidade, pois a GloboNews apresentou pedido de desculpas, como se o fato revelado pela jornalista fosse inverídico. A nota da GloboNews causa engulhos.
Pior é o comportamento rasteiro e oportunista da Folha de S.Paulo, que por razões conhecidas resolveu engrossar o linchamento à jornalista Maria Cristina Fernandes, distorcendo os fatos e rotulando uma informação verídica como “fake news”. É desalentador ver um órgão de imprensa, que sempre defendeu a democracia e as liberdades, mudar de lado e de forma velada apoiar um candidato da extrema direita e filho de golpista condenado e preso.
Quando a jornalista Andréa Sadi exibiu, na GloboNews, um organograma que relacionava o presidente Lula ao esquema mafioso do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, a desculpa apresentada foi de que se tratava de material incompleto.
Qualquer jornalista estreante na profissão sabe que Lula não tem qualquer relação com Vorcaro, mas Andréa Sadi resolveu apresentar a farsa ao vivo. O objetivo do Grupo Globo ao colocar a imagem do presidente no centro do organograma, mesmo sem acusações, foi alcançado. Como disse o chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels, “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.
Resgato o caso da Escola Base, ocorrido em 1994, na cidade de São Paulo, no qual os proprietários de uma escola infantil foram acusados injustamente de abuso sexual, causando danos irreparáveis à reputação de todos por conta da cobertura precipitada e sensacionalista da imprensa e da conduta criminosa da polícia. Estadão, Folha, IstoÉ, Editora Abril, Rede Globo e SBT foram condenados ao pagamento de indenizações aos acusados, mas nenhum valor financeiro é capaz de desfazer o estrago que ainda permanece.
Em relação a Maria Cristina Fernandes, o silêncio dos grandes veículos de imprensa, de entidades que representam o jornalismo e de jornalistas badalados é aviltante e aponta na direção da molecagem desmedida.
Longe do partidarismo e da militância, Maria Cristina Fernandes é uma jornalista extremamente preparada, séria e equilibradíssima em suas análises. Portanto, não merece estar na mira de detratores da honra alheia. Ela tem não apenas a minha solidariedade, mas o meu incondicional apoio.
(*) Ucho Haddad é jornalista político e investigativo, analista e comentarista político, fotógrafo por devoção.



