(*) Ucho Haddad
Escrevo este texto para, mesmo ciente de que se trata de chover no molhado, mostrar o grau de polarização que tomou conta do País e o quanto a democracia está ameaçada por falsos moralistas, que bradam por todos os cantos o mantra mambembe “Deus, pátria, família e liberdade”.
Um dos defeitos do Direito brasileiro, espelhado no Direito romano, é a tal da hermenêutica, que ao permitir interpretações variadas e de acordo com a necessidade do cliente atenta contra o Estado Democrático. Vez por outra, a hermenêutica avança sobre o terreno do absurdo.
A polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida transformou-se em cabo de guerra entre candidatos, equipes de campanha e ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. Cada qual querendo puxar a Padroeira do Brasil para a sua seara interpretativa.
Pausa para curto interregno… Há pouco mais de 20 anos, a patrulha sindicalista resolveu me atacar de maneira covarde sob o pretexto de não ter graduação em jornalismo. Na verdade, o ataque foi fruto do jornalismo responsável que faço há cinquenta anos. Mesmo assim, acusaram-me de ser falso jornalista. Bom saber que aquilo que escrevo incomoda.
Herança paterna, o hábito da leitura, desde a adolescência, despertou em mim o interesse em escrever, mas também e principalmente uma quase obsessão pela interpretação de textos, algo que entendo ser fascinante – e exerço com afinco.
Volto à Padroeira… O emaranhado de decisões judiciais anunciadas nos últimos dias teve como base uma publicação do humorista Antonio Tabet, que nas redes sociais escreveu: “a família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida”.
Pois bem, as decisões dos ministros André Mendonça – o “terrivelmente evangélico” – e Luiz Fux foram tomadas sem a devida interpretação de texto, algo estranho para quem enche os pulmões e faz semblante de intelectual ao declarar votos.
Em qual trecho da postagem de Tabet aparece o nome de Flávio Bolsonaro ou da sua família? Mendonça e Fux decidiram com base no achismo ou porque ficou subtendido na frase que se tratava de Flávio e seus familiares.
Flávio está de olho nos votos dos católicos apostólicos romanos, algo de conhecimento público, mas levar Nossa Senhora Aparecida ao cadafalso eleitoral é no mínimo heresia.
O mais interessante é que Flávio Bolsonaro reagiu com rapidez e impulsividade à publicação, talvez porque tenha se identificado com o único sujeito da frase postada por Tabet: “família miliciana”. Se Flávio se sentiu ofendido com a publicação, é porque “família miliciana” tocou no âmago e na consciência.
O espernear de Flávio é de tal modo melodramático, que me sinto obrigado a resgatar citação do grande Noel Rosa: “O que eu falo é bem pensado. Não receio escaramuça. E que aceite a carapuça quem se sente melindrado.”
Fato é que André Mendonça e Luiz Fux morderam a isca, ao passo que Flávio Bolsonaro vestiu a carapuça sem cerimônia. Dos males o menor, pois agora a família Bolsonaro é reconhecida como miliciana até mesmo pela Justiça.
(*) Ucho Haddad é jornalista político e investigativo, analista e comentarista político, fotógrafo por devoção.
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