(*) Ucho Haddad
Durante anos, Flávio, chamei-o de covarde. Hoje, 28 de outubro de 2026, consigo reforçar o cipoal de adjetivos que lhe dedico. Explico: você, Flávio Bolsonaro, é um homem de palavra, algo raro na sua família. Durante a campanha rumo ao Palácio do Planalto, você incorporou o discurso farsesco de que representava a mudança. Ouvi de dezenas de incautos, que desconhecem as catacumbas da política brasileira, que chegara a hora de mudar.
Você, Flávio, honrou a palavra dada e entregou a quase 60 milhões de abduzidos eleitores o que prometera: a mudança. Acreditaram que uma nova era começaria a partir de 6 de janeiro do próximo ano. Ledo engano, começou antes do esperado.
Com a família a tiracolo, você fugiu para a terra do Tio Sam, onde, escorado no complexo de vira-lata, se colocará de joelhos diante da botina de Donald Trump, a quem implorará sanções contra o Brasil. Apesar de tudo, não deixa de ser uma mudança de alguém que no mínimo deve ser chamado de mofino. Sou e sempre serei grato a você, até que Deus (o meu, não o seu) resolva me chamar. Enfim, a prometida mudança veio. Aleluia!
Com longos dias pela frente, com tempo mais que suficiente para refletir, talvez você chegue à conclusão de que livrou o Brasil de boa parte de uma chaga golpista que ganhou corpo com sua falaciosa campanha. Nós, brasileiros de bem e defensores da democracia, temos muito trabalho pela frente, mas seguiremos lutando contra o totalitarismo e o retrocesso que sua família sempre defendeu e ainda defende.
Aqui, na velha e boa Pindorama, agora distante do seu horizonte, a malta bolsonarista começa a afinar os acordes do discurso boquirroto de perseguição política, como se a verdade pudesse ser varrida para debaixo do tapete. Alguns alienados alegam que a possibilidade de você ser condenado e preso por um amontoado de crimes configura perseguição. Delírio, devaneio, surto, babaquice… Isso é justiça.
Em muitas ocasiões, ao fazer referência à sua covardia, sempre citei o dito popular que “o fruto não cai longe da árvore” ou, então, “quem sai aos seus não degenera”. Seu pai é covarde, você é covarde, seus irmãos são covardes. Vocês são frouxos, de caráter duvidoso, golpistas convictos. No seu caso, considerando o segundo dito, a situação é pior, pois além de não degenerar, não regenera.
Sua família fez da política um negócio extremamente rentável, uma espécie de cornucópia particular, assim como tantos políticos brasileiros. Impulsionado pela mitomania característica do clã, você, crente que já estava com um pé na rampa do Palácio do Planalto, disse que criaria o Ministério da Prosperidade porque os brasileiros têm o direito de empreender.
Se há no Brasil especialistas em prosperidade e empreendedorismo, um deles certamente é você. Comprou imóveis com dinheiro em espécie, operou o sistema criminoso das rachadinhas na Alerj, foi dono de uma fantástica loja de chocolate. Sem contar o exitoso escritório de advocacia, que só perde para o do filho do ministro frequentador de festinhas de arromba. Mesmo assim, reconheço que você é um empreendedor bem-sucedido. Empreendeu fuga!
Além disso, Flávio, sou obrigado a reconhecer que você é master. A reboque de um discurso visguento, conseguiu a proeza de arrancar a fortuna de R$ 61 milhões de um ex-banqueiro fraudador para financiar um filme que não existe, ninguém sabe, ninguém viu. Filme sobre a trajetória de um golpista fracassado, condenado e preso. Com 50 anos de jornalismo, Flávio, digo sem medo de errar: “esse filme eu já vi”.
Nas redes sociais, seus seguidores perpetraram ataques covarde contra mim, apenas porque votei pela democracia, que, por sorte, venceu. Votei contra o totalitarismo que você e sua família representam. Escolhi o lado certo da história.
Por algum tempo, Flávio, morei nos Estados Unidos e sei quanto custa sobreviver nesse país, mesmo trabalhando duro, o que nunca foi o seu forte. Dizem os apasquinados que os EUA são a maior democracia do planeta. Não é o que pensava Malcolm X, que classificava os EUA como hipocrisia. Você está no lugar certo, porque hipocrisia não lhe falta. Os EUA têm apenas um senão: americanos demais.
Não fique estressado com a questão financeira. Afinal, há no seu caminho várias fontes de subsistência, a começar pelo fundo Havengate, que recepcionou a dinheirama destinada à burlesca cinebiografia do seu pai. Há também um detalhe idiomático que pode ser a tábua salvação em momentos de eventuais agruras financeiras (não creio). Saia na varanda e grite com toda força “Willer”. Você certamente sabe do que estou falando. O “Dotô” lhe estenderá a mão, a carteira, o cofre e outras ferramentas utilizadas em malabarismos e ocultismos. Se ele não responder de imediato, possivelmente estará na lavanderia.
Na contramão do grotesco mantra “Deus pátria, família e liberdade”, que sempre entoou como bom tocador de gado, permita-me uma rápida análise. O seus Deus não é o mesmo que o meu. Caso fosse, você certamente estaria perto de dar longo e tórrido abraço em lúcifer. Pátria nunca foi prioridade para o clã. Você e seu irmão também fugitivo, Dudu Bananinha, tramam sem cerimônia contra a pátria. Sobre família, as festinhas patrocinadas por Vorcaro e as outras organizadas por seu ex-sócio na loja falam por si. No tocante à liberdade, você agora está com o cronômetro acionado porque é fugitivo.
Flávio, por certo você desconhece o termo “neurônios-espelho”, também chamado de vergonha alheia. É o que sinto em relação às suas filhas, ainda pequenas, que não podem ser responsabilizadas pela covardia do pai e pelo instinto golpista do avô.
No primeiro momento, procure amenizar o cotidiano de suas filhas, tumultuado por você, honrando a palavra dada, ter cumprido a promessa de mudança. Deixe-as ir ao encontro das maravilhas criadas por Walt Disney e seus discípulos. Sugiro que não acompanhe suas filhas nas visitas ao reino mágico da Disney, pois o Pateta pode alegar concorrência desleal.
Muito obrigado pela mudança, covarde!
(*) Ucho Haddad é jornalista político e investigativo, analista e comentarista político, fotógrafo por devoção.
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